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A Bela e a Fera

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Bill Condon. Roteiro de Stephen Chbosky e Evan Spilliotopoulos. Com: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan, Nathan Mack, Audra McDonald, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw, Adrian Schiller, Ewan McGregor, Ian McKellen e Emma Thompson.

Quando Tim Burton realizou sua versão de Alice no País das Maravilhas, em 2010, dificilmente poderia imaginar estar abrindo uma nova e bilionária porta para a Disney, que descobriu, com o sucesso daquele projeto, uma mina de ouro na recriação de suas animações com atores de carne-e-osso e muitos efeitos digitais, o que gerou Malévola, Cinderela e Mogli: O Menino Lobo (sim, Os 101 Dálmatas alcançou excelente bilheteria em 1996, mas nada que sugerisse o potencial escancarado por Alice). No entanto, se a motivação do estúdio é puramente financeira, isto não é necessariamente refletido nas ambições criativas dos artistas envolvidos - e, assim, as perguntas no caso deste A Bela e a Fera são: trata-se de uma reimaginação ou de uma refilmagem injustificável como a de Psicose? Há alguma razão para sua existência além da valorização das ações da Disney?

A boa notícia é que sim, há.

Obviamente adotando como base a animação de 1991 (a primeira a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme), que, por sua vez, inspirava-se na fábula criada no século 18 (e que também gerou o clássico dirigido por Jean Cocteau em 1946), esta nova produção conta mais uma vez a história da jovem Bela (Watson), que mora com o pai Maurice (Kline) em Villeneuve, um pequeno vilarejo francês cujo nome é uma clara homenagem a Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, que originou a trama em 1740. Encarada pelos demais habitantes com estranheza por ser fascinada por leitura, a moça é constantemente abordada pelo narcisista Gaston (Evans), que insiste em pedi-la em casamento apesar das repetidas negativas. É então que Maurice é aprisionado em um castelo povoado por objetos falantes e por um monstro de aparência assustadora – todos vítimas de um feitiço que só será quebrado quando a Fera (Stevens) se apaixonar por alguém e tiver seu amor correspondido, o que se torna uma possibilidade quando Bela assume o lugar do pai como prisioneira da criatura.

Em termos de estrutura e trama básicas, o roteiro de Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível) e Evan Spilliotopoulos (Hércules) pouco mais é do que uma versão estendida do filme de 1991, trazendo versos e cenas adicionais que pouco acrescentam ao que já conhecíamos – e, em alguns casos, a natureza de “cenas deletadas” (ou seja: descartáveis) surge quando percebemos como algumas destas novas passagens apenas enfraquecem a narrativa, falhando em provocar o efeito que os realizadores desejavam (e destaco, aqui, as revelações sobre as mães da Bela e da Fera, que buscam criar um paralelo tolo e dispensável entre os dois). Para piorar, as novas canções são terrivelmente inferiores àquelas que já estavam na animação (“Days in the Sun” é particularmente ruim), comprometendo a consistência da trilha.

E se o design de produção impressiona com os cenários grandiosos, os figurinos imponentes e a paleta multicolorida, torna-se difícil não constatar como a maior parte destes elementos também vem diretamente do original – e quando o vestido do baile começa a ser costurado, o filme explora a expectativa criada pelo fato de que o espectador já sabe o que verá, reconhecendo aquela peça de roupa não como um mero componente da cena, mas como um ícone em torno do qual esta gira. Além disso, o cineasta Bill Condon praticamente recria planos idênticos àqueles concebidos pelos diretores Gary Trousdale e Kirk Wise em 91, o que é compreensível, mas também frustrante por representar um desperdício de novas possibilidades criativas. Como se não bastasse, Condon se mostra incompetente nas sequências de ação, que resultam confusas e sem qualquer tensão (notem, por exemplo, a passagem que traz Maurice sendo atacado por lobos e percebam como dois momentos-chave – sua queda do cavalo e o retorno deste para salvá-lo – são conduzidos de forma caótica, impedindo que acompanhemos o que está ocorrendo).

Por outro lado, a experiência de Condon com musicais (no Cinema, roteirizou Chicago e dirigiu Dreamgirls; na Broadway, conduziu uma versão de Side Show) acaba beneficiando A Bela e a Fera, já que os números envolvendo canções e danças elaboradas são concebidos de forma imaginativa e divertida, brincando com padrões formados por objetos e cores, empregando a câmera ativamente na coreografia e incluindo referências orgânicas a clássicos como Rua 42, Cantando na Chuva, Amor Sublime Amor, Moulin Rouge! e A Noviça Rebelde (e “Be Our Guest” merece destaque em todos estes aspectos). Aliás, a eficiência do diretor nestas sequências é tamanha que até me vejo movido a perdoá-lo pelo excesso de movimentação de câmera no restante da projeção (e “excesso”, acreditem, é um eufemismo neste caso).

Porém, como não poderia deixar de ser, o sucesso de um longa como A Bela e a Fera reside em sua capacidade de levar o espectador a se importar com seu casal principal – algo que sem dúvida ocorre aqui. Neste sentido, a expressividade da criatura vivida por Dan Stevens é fundamental, combinando a performance do ator e a maquiagem digital usada para transformá-lo no monstro-título. E se Emma Watson exibe uma velha tendência ao overacting em várias cenas (algo que apontei já em Harry Potter e o Cálice de Fogo), é também carismática o bastante para ancorar a narrativa. Enquanto isso, Kevin Kline transforma Maurice em algo mais do que a caricatura vista na animação, ao passo que Luke Evans é inteligente ao compreender que Gaston só funciona como uma. Para encerrar, o trabalho vocal do elenco coadjuvante composto por estrelas é irrepreensível: McGregor confere vivacidade a Lumière, McKellen explora bem a covardia de Cogsworth e Thompson não se intimida diante da tarefa de assumir a responsabilidade por tomar o lugar de ninguém menos do que Angela Lansbury e cantar a música-símbolo do projeto. (Apesar disso, nem sempre o design de seus personagens é bem transportado para o universo live-action: se Lumière funciona bem como uma escultura metálica, os olhos e a boca da Sra. Potts e do pequeno Chip, agora pintados na lateral das xícaras em vez de usar suas asas como nariz, causam estranhamento em vez de resultarem engraçadinhos.)

A maior novidade deste A Bela e a Fera, contudo, é seu belo esforço para atualizar alguns dos elementos da história: se Bela já era uma leitora voraz e se contrapunha ao anti-intelectualismo de Gaston, agora é também uma jovem inventora, criando uma máquina de lavar movida a cavalo para poder ter tempo para os livros. Além disso, há uma diversidade considerável em seu vilarejo e entre os empregados do castelo, incluindo não só vários casais multirraciais, mas até mesmo com diferentes orientações sexuais – e ainda que o LeFou de Josh Gad seja, na maior parte do tempo, uma variação do “gay como alívio cômico”, o filme demonstra coragem também em uma breve cena que traz a madame Garderobe (McDonald) cobrindo três capangas com roupas femininas para embaraçá-los, mas acabando por acidentalmente libertar um deles para quem realmente é (o que funciona ao mesmo tempo como gag e como mensagem com viés positivo).

E, sim, é claro que isto cabe numa fábula. Não, mais do que isso: é fundamental neste tipo de narrativa, que, afinal, tem o propósito justamente de refletir a realidade através de paralelos com seu mundo e seus personagens fantasiosos. Não que A Bela e a Fera empregue a homossexualidade destes dois personagens de forma escancarada, já que apenas o público mais velho perceberá o que está ocorrendo (os mais jovens verão aquilo como veriam uma piada envolvendo o Pernalonga vestido de mulher para enganar um caçador), mas já é um avanço considerável.

No entanto, apenas o fato de haver pessoas dispostas a condenar o filme por isto (sem nem mesmo tê-lo visto) já é o bastante para despertar curiosidade: em primeiro lugar, como justificam aceitar uma trama que essencialmente envolve bestialidade, mas não qualquer sugestão de amor entre dois seres humanos que dividem a mesma identificação sexual? E por que não veem problema em cantar as lindas músicas co-criadas por Howard Ashman, gay assumido, se não aguentam sequer ver alguém com sua orientação sexual representado na tela?

Não, A Bela e a Fera não ergue uma bandeira LGBTQ ou desfila na Parada Gay, mas se a mera presença de dois personagens (quase imperceptivelmente) homossexuais te incomoda tanto, acho que é hora de um autoquestionamento severo. Pois se até mesmo produções infantis parecem aceitar algo que você não consegue, é porque a História e a Sociedade caminharam e você ficou mesmo para trás. Hora de acelerar o passo.

Sinta-se livre para cantar “Beauty and the Beast” enquanto corre.

18 de Março de 2017

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Uma reimaginação vivaz da animação.

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Avaliações dos Usuários

Fernanda Barbieri
Fernanda Barbieri27 de mar. de 2017

Gabriel Rossi, este foi exatamente o sentimento que tive ao ver a cena! A Fera reconhecendo o sentimento da Bela, participando do seu contexto. Porque ele também viveu a perda da mãe. Essa cena, a homossexualidade, a libertação do soldado gay, a Bela descrita como uma mulher inteligente trouxeram o filme para um lugar muito mais interessante do que as fábulas de princesas felizes p/ sempre nos levam. Mas o que me deu vontade, no final, foi ver a Fera não retornar à forma de príncipe. Isso seria realmente inovador. Embora o conto original se refira a essa passagem, no meu entendimento, como a transformação que o amor pode trazer a uma pessoa, seria muito mais atual dizer que, independente da forma, o amor enxerga o "feio" com os olhos da beleza. Porque feio e bonito serão sempre a comparação com um padrão.

Lucas
Lucas20 de mar. de 2017

Pablo* que gafe, desculpe!

Digo Freitas
Digo Freitas20 de mar. de 2017

Assisti ontem. Não vejo o original desde quando antes dos meus 10 anos, mas lembrava de uma boa parte da trama e algumas cenas marcantes. O trabalho de trazer o filme novamente aos cinemas é interessante pelo menos no viés de renovação que deram, trazendo elenco multirracial e flertando com liberdade de orientação sexual. Foi uma experiência divertida, mas não sou muito bom em sentir ligação por filmes que "já assisti" ou vi muitos spoilers, então perde um pouco do brilho para mim. Concordo com o Lucas sobre o CGI, que em alguns momentos ficou bem estranho. O ponto alto acho que foram mesmo os momentos musicais bem dirigidos.

Gabriel Rossi
Gabriel Rossi20 de mar. de 2017

Pablo, boa tarde. Primeiramente parabéns pelo trabalho. Sou grande fã do portal e de suas críticas. Somente um ponto para pensar. Quando você diz que a passagem dos pais do personagens cria um paralelo tolo e dispensável entre os dois, tive uma outra ótica sobre essas cenas. Não seria uma outra passagem com uma mensagem embutida? Sobre empatia. De se colocar no lugar do outro. De entender porque certas coisas acontecem, não porque queremos, mas porque somos vítimas de nosso contexto? Uma mensagem que entendo ser muito pertinente nos dias de hoje. Que todos somente julgam. O que acha? Gostaria muito da sua percepção. Fico no aguardo. Um abraço.

Lucas
Lucas20 de mar. de 2017

Paulo, qual sua opinião quanto ao CGI utilizado para fazer a Fera? Considerei muito inferior ao utilizado em Mogli, isso me causou certo estranhamento sempre que ela aparecia, já que Lumière e Cogsworth pareciam ser bem realistas.