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Críticas por Pablo Villaça

O Escândalo
Bombshell

Dirigido por Jay Roach. Roteiro de Charles Randolph. Com: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Mark Duplass, Alisson Janney, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson, Brigette Lundy-Paine, Rob Delaney, Stephen Root, Robin Weigert, Mark Moses, Nazanin Boniadi, Ben Lawson, Josh Lawson, Alanna Ubach, Andy Buckley, Amy Landecker, D’Arcy Carden, Kevin Dorff, Richard Kind, Anne Ramsay, Jennifer Morrison, Brian D’Arcy James, Ashley Greene, Alice Eve, Holland Taylor e Malcolm McDowell.

Rudi Bakhtiar estava esperando por uma oportunidade como aquela há um longo tempo. Jornalista respeitada pelos colegas, ela vinha dividindo seu tempo entre duas cidades enquanto sonhava em conquistar uma posição fixa cobrindo os bastidores de Washington – e quando o âncora Brian Wilson foi promovido para coordenar a equipe e a convidou para uma conversa, Bakhtiar se viu prestes a alcançar seu objetivo. Até que, logo depois de receber a proposta que esperava, ouviu outra que a fez perceber imediatamente que estava tudo perdido: Wilson se convidou para visitar seu quarto. O esforço da profissional para encontrar uma resposta que não ofendesse o chefe assediador representa um dos momentos mais tocantes de O Escândalo, contrapondo seu exterior sorridente aos seus pensamentos aterrorizados enquanto busca uma solução para uma situação impossível criada por um homem que, para satisfazer um impulso sexual imediato e não correspondido, destruiu a carreira de uma mulher que levou anos para construí-la.


Uma ocorrência tragicamente comum em praticamente todos os meios profissionais e que foi transformada em cultura na Fox News chefiada pelo poderoso executivo Roger Ailes. Derrubado um ano antes do movimento #MeToo ganhar fôlego com as denúncias contra Harvey Weinstein, Kevin Spacey e inúmeros outros, Ailes havia transformado o canal pertencente ao bilionário Rupert Murdoch em uma eficiente máquina de propaganda da extrema-direita, criando, no processo, estrelas especializadas em ódio como Bill O’Reilly, Sean Hannity, Tucker Carlson e, claro, uma infinidade de âncoras loiras vistas sempre com saias curtas atrás de mesas cuja transparência tinha o objetivo de expor suas pernas aos espectadores – incluindo Megyn Kelly e Gretchen Carlson, vividas aqui por Charlize Theron e Nicole Kidman, respectivamente.

Roteirizado por Charles Randolph, que co-assinou o roteiro de A Grande Aposta e resgata vários recursos narrativos daquele filme neste projeto, O Escândalo emprega narrações em off feitas por diferentes personagens, legendas que trazem os nomes das dúzias de figuras reais vistas ao longo da projeção, reproduções na tela de tweets e da marca d’água da Fox News (incluindo a imagem fantasma criada por esta quando não tinha movimento), além, claro, de instantes nos quais a protagonista quebra a quarta parede para explicar detalhes diretamente ao público. Ao mesmo tempo, o cineasta Jay Roach, que vem se especializando em criar dramatizações de incidentes políticos reais (como nos corretos Recontagem, Virada no Jogo e Trumbo – Lista Negra), explora sua experiência com a comédia (Entrando Numa Fria, Austin Powers) para trazer certa leveza à narrativa, o que não o impede de se concentrar nos aspectos dramáticos nos momentos-chave.

Uma destas passagens – a mais eficaz do filme, aliás – é aquela que traz a jovem Kayla Pospisil (a única figura ficcional entre as principais) no escritório de Ailes (Lithgow), que, depois de garantir ser capaz de alavancar sua carreira na tevê, instrui a moça a se levantar para que ele possa ver suas pernas, exigindo que erga o vestido até que sua calcinha esteja exposta. Trata-se de um momento chocante, constrangedor e de profunda violência que Margot Robbie retrata de forma brilhante, expondo a confusão e o sentimento de humilhação da personagem, bem como sua completa vulnerabilidade. Investindo numa composição com voz infantilizada, olhos frequentemente arregalados e expressão de encantamento por estar trabalhando numa grande redação, Robbie percorre o principal arco dramático da narrativa, indo da ingenuidade à raiva contida com talento e sensibilidade. Enquanto isso, Kidman confere uma determinação intensa à sua versão de Gretchen Carlson, que, talvez por manter uma postura coerente do início ao fim, prende a atriz a uma performance mais discreta, mas não menos importante. E se John Lithgow toma cuidado para não converter Ailes em uma caricatura monstruosa, retratando-o como um sujeito ainda mais repugnante por ser uma figura verossímil, Charlize Theron tem a oportunidade de repetir a transformação física que lhe rendeu prêmios em Monster – Desejo Assassino e, auxiliada pelo excelente trabalho de maquiagem, encarna Megyn Kelly de um modo tão impecável, adotando tão bem sua voz grave, seus meneares de cabeça e sua postura firme que em vários momentos temos a impressão de que a figura original encontra-se na tela.

O que, claro, cria outro problema curioso para qualquer um que conheça um pouco da trajetória de Kelly, que, ao longo dos anos, se estabeleceu como uma das figuras mais tóxicas da Fox News – e não é à toa que o filme usa a quebra da quarta parede para aproximá-la do espectador, já que é uma forma rápida de torná-la mais palatável. Não que o histórico de preconceito e intolerância da âncora torne o assédio que sofreu menos grave, pois não torna; o problema é a covardia do roteirista e do diretor ao lidarem com a questão. Basicamente, os realizadores tinham duas opções: abraçar a natureza problemática da protagonista e ressaltar que suas posições nada têm a ver com a violência que sofreu ou ignorar completamente suas opiniões odiosas, já que... nada têm a ver com a violência que sofreu. Em vez disso, porém, eles seguem uma cínica terceira alternativa, incluindo de passagem, quase escondidas, algumas das afirmações de Kelly, esperando, com isso, não serem acusados de ignorá-las – e sua infame declaração de que “Jesus Cristo era branco (...) e, para as crianças que estejam assistindo, Papai Noel também é” acaba surgindo numa telinha dentro de um rápido plano (o histórico racista da âncora acabaria levando à sua demissão da NBC, anos depois, por – juro! - defender o blackface).

É estranho, também, que O Escândalo eleja Megyn Kelly como protagonista apesar de, na realidade, seu papel não ter sido tão determinante quanto o de Gretchen Carlson – algo que é refletido na minissérie The Loudest Voice, que lida com os mesmos eventos e foi baseado num livro investigativo de Gabriel Sherman.

Seja como for, o filme desempenha com competência a função de levar o espectador a conhecer a dinâmica que imperava na Fox News e que é padrão em muitas corporações, ilustrando como o assédio sexual se apresenta sob variados disfarces e resulta não apenas em traumas físicos e/ou psicológicos, mas também pode se tornar uma mancha profissional nas carreiras não dos abusadores, mas – pasmem - de suas vítimas.

Que, frequentemente forçadas ao silêncio, só podem contar com o apoio daquelas que também sentiram de perto o avanço criminoso de homens que sempre colocaram a libido acima da lei, da ética e da mais básica humanidade.

20 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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