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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/01/2020 22/11/2020 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Sony

Um Lindo Dia na Vizinhança
A Beautiful Day in the Neighborhood

Dirigido por Marielle Heller. Roteiro de Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue. Com: Tom Hanks, Matthew Rhys, Susan Kelechi Watson, Chris Cooper, Maryann Plunkett, Enrico Colantoni, Wendy Makkena, Tammy Blanchard, Noah Harpster, Carmen Cusack e Christine Lahti.

Fred Rogers – ou Sr. Rogers, como era tratado – é uma figura pouco ou nada conhecida fora de seu país de origem, os Estados Unidos, onde protagonizou um programa infantil durante mais de três décadas. Ao longo de cerca de 900 episódios que contavam com músicas que ele mesmo compunha, maquetes animadas e fantoches que ele manipulava e dublava, “A Vizinhança do Sr. Rogers” se tornou parte importante do imaginário coletivo norte-americano – e seu criador, uma figura reverenciada por diversas gerações de espectadores. Há pouco mais de um ano, aliás, escrevi sobre o lindo documentário Won’t You Be My Neighbor?, que abordava a vida e o trabalho do apresentador, cujos modos beatíficos se mantinham mesmo longe das câmeras e que, por isso mesmo, representam um problema de um ponto de vista dramático quando consideramos uma narrativa ficcionalizada: como sustentar duas horas de filme sem conflito e com um protagonista que parece enxergar tudo com serenidade inabalável?


A solução encontrada pelos roteiristas Noah Harpster e Micah Fizterman-Blue foi transformar o Sr. Rogers em um personagem coadjuvante, mas essencial, na jornada emocional de um jornalista escalado para entrevistá-lo para um perfil na revista Esquire (o artigo em questão, real, pode ser lido aqui). Claro que para evitar confusões maiores, o nome do autor foi alterado de Tom Junod para Lloyd Vogel (Rhys) e vários outros detalhes foram adicionados, mas o efeito é relativamente bem-sucedido ao permitir que a personalidade do Sr. Rogers (Hanks) seja a alma do filme sem que sua placidez tire sua urgência. Além disso, ao adotar recursos narrativos empregados no programa de tevê, como as maquetes que servem para realizar transições entre cenas e as explicações de Fred sobre temas espinhosos, o roteiro cria uma intertextualidade orgânica, eficiente, entre as versões cinematográficas e televisivas do personagem/biografado.

Vivido por Matthew Rhys como um homem cínico que parece encarar cada perfil que escreve e entrevista que realiza como uma oportunidade de confirmar suas piores certezas sobre a humanidade, Lloyd usa suas perguntas não como ferramenta para conhecer seu entrevistado, mas como arma, exibindo uma combatividade que soa mais pessoal do que profissional. Parte desta postura se deve ao seu relacionamento problemático – para usar um eufemismo – com o pai, Jerry (Cooper), que abandonou a família décadas antes, quando a mãe do protagonista adoeceu, e agora tenta reatar os laços com Lloyd e a irmã deste, Lorraine (Blanchard). Ao mesmo tempo, o jornalista vem enfrentando dificuldades para lidar com a paternidade, o que frustra sua esposa Andrea (Watson), que é forçada a assumir boa parte da tarefa de cuidar do bebê do casal.

E é aí que entra o Sr. Rogers – e a ideia de escalar Tom Hanks, um ator que divide com o personagem a fama de gentileza e generosidade, é perfeita por trazer uma autenticidade extrafilme à performance. Adotando a dicção cuidadosa, o ritmo calmo e o tom baixo ao falar característicos do apresentador, Hanks evoca toda a doçura de Fred Rogers através de seu olhar bondoso e de um sorriso que traz uma sinceridade quase infantil – e este elemento de ingenuidade se reflete também na forma como faz perguntas pessoais que muitos hesitariam em abordar (uma atitude que desarma seus interlocutores, que acabam compartilhando suas dores e inseguranças sem muita resistência).

Este interesse genuíno pelo próximo, que fica muito claro no documentário e que Hanks resgata através do foco que direciona a todos com quem divide suas cenas, se torna ainda mais tocante por não vir acompanhado da necessidade de julgar o que ouve, mas de um desejo autêntico de ajudar – mesmo que seja apenas por permitir o desabafo (e há um momento tocante em que Lloyd conta que perdeu a mãe ainda jovem e o Sr. Rogers, em vez de oferecer o lugar-comum das condolências, apenas fecha os olhos e acena levemente com a cabeça, indicando, assim, sua compreensão sobre o significado daquela dor e também seu lamento). Por outro lado, o filme não tenta sugerir uma altivez sobrenatural, angelical, que separaria o sujeito do resto da Humanidade: “Se você pensa nele como se fosse um santo”, diz Joanne (Plunkett), esposa de Fred, ao ouvir Lloyd descrevê-lo assim, “o jeito dele de ser acaba se tornando inatingível. Ele trabalha o tempo todo, se esforça. Ele também se irrita, mas escolhe como responder a esta raiva”.

Uma observação que encontra reflexo mais tarde, por um segundo revelador e brilhante, quando o Sr. Rogers toca piano sozinho no estúdio de tevê.

Mas, sim, é inevitável encarar aquele homem com uma admiração que flerta com a incredulidade – especialmente quando testemunhamos o respeito que devota às crianças com as quais interage, tratando-as sem qualquer condescendência ao enxergá-las como seres inteligentes e capazes de entender discussões sobre temas complexos como a morte, a guerra ou o 11 de Setembro. Aliás, se Um Lindo Dia na Vizinhança provoca lágrimas (e provocou em mim), isto ocorre não por retratar tragédias e conflitos, mas apenas por trazer o Sr. Rogers agindo com ternura e compaixão.

Neste aspecto, é preciso reconhecer a sensibilidade e também a segurança da cineasta Marielle Heller, que poderia facilmente ter deixado o filme escorregar na pieguice e evita esta armadilha ao abraçar a sinceridade do personagem. Além disso, Heller cria aquele que, para mim, é um dos momentos mais lindos que o Cinema trouxe em 2019: o minuto de silêncio que o Sr. Rogers propõe a Lloyd para que possam lembrar de “todos aqueles que nos amaram para que nos tornássemos quem somos” e que a diretora não apenas inclui em tempo real como ainda permite uma quebra de quarta parede maravilhosa que, sustentada pelo olhar de Tom Hanks, conduz o espectador ao mesmo exercício.

O resultado é, como o próprio documentário, inspirador. Ao final do longa, me peguei lamentando os erros que cometo, os pequenos (e grandes) instantes de crueldade facilitados pelas redes sociais e a impaciência que muitas vezes domina estas interações. Neste sentido, não deixa de ser revelador que, 17 anos após sua morte, a memória e o exemplo de Fred Rogers não apenas seguem presentes, como estão chegando a países e culturas que ele não atingiu em vida.

Talvez isto diga muito não sobre quem somos, infelizmente, mas – e estou sendo otimista como ele – sobre quem deveríamos e, no fundo, queremos ser. Não é lindo ser lembrado assim?

23 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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