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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/01/2020 27/09/2019 1 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paris

Judy - Muito Além do Arco-Íris
Judy

Dirigido por Rupert Goold. Roteiro de Tom Edge. Com: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Daniel Cerqueira, Bella Ramsey, Lewin Lloyd, John Dagleish, Gemma-Leah Devereux, Gus Barry e Michael Gambon.

Judy Garland foi uma atriz talentosa e carismática cujo corpo diminuto produzia um vozeirão arrebatador. Foi musa de Vincente Minnelli, carregou a MGM nas costas na década de 40, foi parceira de Gene Kelly e Fred Astaire (que a descreveram como uma “dançarina nata”) e uma apoiadora entusiasmada de causas sociais progressistas. Ou, como prefere retratá-la a cinebiografia Judy, apenas uma vítima dos abusos de Louis B. Mayer, uma noiva serial, uma profissional instável e irresponsável, uma mãe dedicada e, em última análise, uma mártir da Arte.


Escrito por Tom Edge a partir de uma peça teatral de Peter Quilter, o roteiro desta bomba consegue a proeza de ser uma hagiografia que torna a protagonista insuportável, apelando para um maniqueísmo constante que expõe os piores clichês deste subgênero cada vez mais pavoroso que é o das cinebiografias. Aqui, o intuito é o de recontar apenas os últimos meses da vida de Garland (Zellweger), que, falida e sem perspectivas em Hollywood depois de anos de comportamento errático, aceita realizar uma série de shows em Londres – algo que o filme intercala com flashbacks que a trazem ainda adolescente (Shaw) e sendo massacrada pelo ritmo impiedoso de trabalho imposto por Mayer (Cordery), que a cerca de pessoas cuja única função parece ser torturá-la, drogá-la e impedi-la de comer. Decidida a recuperar a guarda dos filhos Lorna e Joey (Ramsey e Lloyd), que se encontram sob a tutela do ex-marido Sid Luft (Sewell), a atriz e cantora enfrenta o alcoolismo e a dependência de estimulantes e soníferos, dificultando a vida do empresário Bernard Delfont (Gambon) e da produtora executiva Rosalyn Wilder (Buckley), que tentam garantir sua presença no palco todas as noites.

Sem perder um minuto sequer de projeção para começar a berrar no ouvido do espectador sua mensagem de “ELA SÓ QUERIA SER UMA GAROTA NORMAL E ESTES MONSTROS A DESTRUÍRAM!”, Judy chega a converter Mayer num quase gigante, escalando um ator de 1,95 m para encarnar o executivo que media 1,67 m e enquadrando-o apenas através de ângulos baixos que o deixam ainda maior diante da jovem Garland, assegurando também que todas as suas falas sejam cruéis – e, para garantir nossa antipatia, o sujeito chega a olhar para a câmera enquanto, praticamente rompendo a quarta parede, insulta o espectador. O que o longa não aborda, por outro lado, é o papel da mãe da protagonista, que foi a responsável por torná-la viciada em estimulantes e remédios para emagrecer, forçando-a a trabalhar desde os dois anos de idade. Louis B. Mayer pode ter matado a alma de Judy Garland, mas foi a mãe desta quem a amarrou e sedou para o abate.

Do mesmo modo, Mickey Deans (Wittrock), quinto e último marido da estrela, ganha contornos malignos ao longo da projeção, desaparecendo a partir de certo ponto enquanto a esposa sugere, em uma conversa, que desistiu do casamento – algo também contrário à realidade, já que, mesmo sendo um indivíduo de caráter no mínimo ambíguo, nada indica que Deans tenha sido um marido agressivo e explorador (em sua entrevista final, Garland chegou a dizer que ele a fazia feliz “pela primeira vez na vida”). Sim, toda história “baseada em fatos reais” toma liberdades factuais, mas o que Judy faz é criar vilões que levem o público a encarar a personagem-título como uma vítima de coração puro e ingênua demais para o mundo cínico que habitava.

Ora, o talento de Judy Garland era inquestionável, mas não a retidão de suas atitudes. A tentativa de apresentá-la como mãe perfeita e amorosa, por exemplo, leva o filme a ignorar incidentes como aquele no qual atirou uma faca no filho caçula, ao passo que os esforços de Sid Luft de assegurar estabilidade para as crianças são vistos como algo reprovável, não sendo à toa que seja interpretado por Rufus Sewell, que construiu sua carreira encarnando vilões (dito isso, Luft, sim, foi um marido abusivo, tendo agredido a esposa em diversas ocasiões – algo que, ironicamente, o roteiro ignora, concentrando-se em suas preocupações paternas como fonte de vilania).

Ao mesmo tempo, Judy espera que aceitemos o comportamento hostil da protagonista como um mero sintoma de seu sofrimento, ignorando os problemas que causa aos que a cercam – e quando Rosalyn e o pianista Burt Rhodes (Pierreson) a presenteiam com um bolo, a única reação possível por parte do espectador é de espanto: por que diabos eles lamentariam a partida de uma pessoa que fez o possível para atrapalhar seu trabalho, atrasando-se para os espetáculos (quando não faltava) ou subindo embriagada no palco? A resposta: porque o filme é sobre ela, oras. Se os outros quiserem nossa simpatia, que estrelem seus próprios longas.

No entanto, o mais lamentável é que em nenhum momento percebemos qualquer prazer por parte de Garland diante de sua Arte. Sim, quando ela abre a boca, sua voz surge (na maioria das vezes) potente e encantadora, mas a impressão é a de que isto é um mero condicionamento depois de décadas obrigada a entreter plateias de todos os tipos – e mesmo o instante em que manifesta o desejo de se despedir apropriadamente do público depois de um fiasco soa insincero. Para piorar, o diretor Rupert Goold demonstra não ter assistido a A Vida É Dura: A História de Dewey Cox e repete todos os clichês que aquela comédia se encarregou de inutilizar para todo o sempre, chegando a incluir uma cena em que Judy cai no palco, é alvo de objetos atirados pela plateia e, claro, tem sua apresentação prejudicada também pelo ruído irritante da microfonia – uma muleta narrativa que sempre me diverte por significar que até os equipamentos eletrônicos perceberam a falta de condições do músico. Ainda assim, a coisa se torna ainda mais ridícula graças a um monólogo confessional pavoroso em sua performance final e que, por sua vez, é superado em estupidez pelo coral espontâneo que se forma na plateia. Ah, sim: e se você gostou da cena imbecil em Bohemian Rhapsody – outra prova que as cinebiografias têm que acabar - que traz Freddie Mercury chorando ao telefone em uma cabine pública, alegre-se, pois há uma idêntica em Judy.

E já que mencionei o infomercial do Queen, vale apontar que, mesmo seguindo o exemplo de Rami Malek ao adotar sua própria prótese dentária, Renée Zellweger ao menos tem a decência de cantar as músicas presentes no filme mesmo ciente de que sua voz fica anos-luz aquém da de sua personagem (e nunca vou esquecer que o clipe exibido no Oscar antes da premiação de Malek trazia o sujeito apenas fingindo tocar piano e dublando Mercury). A atuação de Zellweger, por sinal, é tecnicamente apropriada, resgatando a dicção particular de Garland em sua tendência de embolar certas frases e se arrastar nos finais das frases, adotando um centro de gravidade que a deixa com uma postura que parece instável e mantendo os olhos sempre muito abertos (o contrário de sua tendência natural), o que a torna ainda mais fisicamente parecida com a biografada – o que é bastante facilitado também pela maquiagem de Jeremy Woodhead, obviamente. Contudo, em muitos momentos a caracterização carrega nos maneirismos e tiques de interpretação, o que a deixa artificial e irregular ao permitir que vejamos os esforços da atriz por baixo da personagem.

Irritante no exagero da trilha sonora de Gabriel Yared e involuntariamente hilário ao ter a coragem de insinuar que Judy Garland comeu bolo pela primeira vez aos 46 anos de idade, Judy é o tipo de filme que parece acreditar estar criando suspense ao deixar a música mais famosa da cantora para o final em vez de ser apenas previsível.

E posso quase enxergar o ar de orgulho e satisfação do cineasta ao decidir apresentar o título do filme com o mesmo design dos sapatinhos de rubi usados por Dorothy em O Mágico de Oz – porque tudo que Judy Garland queria era TER UM LAR. Entenderam? Entenderam?

Caso não tenham entendido, não se preocupem: Goold também inclui uma citação de O Mágico de Oz antes dos créditos finais para garantir que todos sairão do cinema sem qualquer dúvida acerca de sua mensagem. É, Judy é este tipo de filme.

30 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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