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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/02/2020 22/11/2019 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Paris

O Preço da Verdade
Dark Waters

Dirigido por Todd Haynes. Roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan. Com: Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Bill Camp, Mare Winningham, Victor Garber, William Jackson Harper, Louisa Krause, Kevin Crowley, Denise Dal Vera, Richard Hagerman, Abi Van Andel, Jim Azelvandre, Marcia Dangerfield, Bill Pullman e Tim Robbins.

A Corporação é um documentário de 2003 que deveria ser incluído em algum momento da formação dos estudantes do ensino médio. Analisando a forma como estas megaempresas se converteram em uma ameaça à vida em todo o planeta, o filme demonstra de modo didático por que CEOs e afins não se veem obrigados a seguir qualquer tipo de limitação às suas ações – como na passagem em que um dos entrevistados explica: “Frequentemente, vemos como obedecer ou não às leis é uma mera questão de custo-benefício. Se a chance de ser flagrado e os valores das multas forem menores do que seriam os custos para seguir a lei, as pessoas encaram como uma simples questão de negócios”.


Um exemplo claríssimo desta lógica pode ser encontrado no caso que deu origem a O Preço da Verdade, novo trabalho do cineasta Todd Haynes, e que envolve a DuPont, que por décadas foi a maior empresa química do planeta: alcançando um lucro de mais de um bilhão de dólares por ano com a venda de produtos relacionados ao Teflon, um material sintético escorregadio que é usado, entre outras coisas, para revestir panelas e frigideiras, a corporação norte-americana sabia há décadas que o polímero era tóxico e cancerígeno, optando ainda assim por ocultar suas pesquisas sobre o assunto a fim de não prejudicar sua receita. No final da década de 90, porém, um fazendeiro cuja propriedade ficava ao lado de uma das fábricas da DuPont decidiu processá-la depois de perder sua criação de gado (cerca de 200 animais) e concluir que a causa da morte eram os poluentes despejados no rio que irrigava suas terras. Para isso, contratou o advogado Rob Bilott (Ruffalo), que, especializado em defender empresas do ramo, aceitou o caso quase como um favor à avó, que conhecia o tal cliente, Wilbur Tennant (Camp). Nos anos seguintes, contudo, à medida que se aprofundava no processo, Bilott foi descobrindo a extensão dos crimes cometidos pela companhia e também as dificuldades para fazê-la assumir a responsabilidade por eles.

Remetendo a obras do gênero comuns na década de 70, que traziam homens simples enfrentando poderosos implacáveis (A Trama, Todos os Homens do Presidente, Três Dias do Condor, A Conversação), e também aos dramas de tribunal que se proliferaram em Hollywood na década de 90 (Questão de Honra, Filadélfia, Acima de Qualquer Suspeita, O Homem que Fazia Chover, O Reverso da Fortuna, Meu Primo Vinny, etc, etc, etc), O Preço da Verdade – até o título brasileiro genérico combina – é um ponto fora da curva na filmografia de Todd Haynes, um cineasta autoral cujas preocupações temáticas e estéticas aqui são abandonadas em prol de um projeto que soa bastante como um trabalho sob encomenda para garantir fundos para sua próxima obra pessoal. Sim, trata-se de um filme competente e a história que conta certamente é importante, mas cuja abordagem narrativa já nasce datada – e a sequência que se passa numa garagem é tão anacrônica (ainda mais para uma trama ambientada neste meio) que se torna difícil acreditar que não se trate de uma referência proposital aos longas conspiratórios setentistas.

Esta, aliás, não é a única decisão equivocada de Haynes, que permite um overacting pontual de seus ótimos atores (como na cena em que Bilott se dá conta de algo ao ler um documento e se levanta num salto, atirando-se para trás, antes de sair correndo da sala) e – ainda pior – inclui um dos maiores clichês deste tipo de filme: o da esposa que insiste em cobrar atenção do marido, tornando-se uma fonte de tensão para o herói. Vivida por Anne Hathaway, que sabe-se lá por que decidiu aceitar um papel tão ruim, Sarah Bilott é um estereótipo sexista que um diretor tão atento ao universo feminino (Carol, Longe do Paraíso, Sem Fôlego) jamais deveria ter permitido passar em branco – mesmo que tente disfarçá-lo ao trazer a personagem afirmando não ser “apenas a esposa” e questionando o marido se alguma vez havia reclamado de seu trabalho (no filme ela é e sim, havia). A negligência de Haynes é tão grande neste quesito, diga-se de passagem, que quase me esqueci de observar o ridículo plano subjetivo que ilustra o ponto de vista de uma vaca.

De modo geral, no entanto, o elenco de O Preço da Verdade faz jus às expectativas: o sempre competente Bill Camp traz raiva e inconformismo a Wilbur; Tim Robbins retrata bem a divisão de seu personagem entre o desejo de fazer a coisa certa e os interesses do escritório do qual é sócio; Victor Garber expõe a arrogância esperada de um executivo em sua posição; Mare Winningham (como Camp, uma eterna coadjuvante que sempre brilha) confere dor ao seu importante monólogo; e Bill Pullman interpreta seu advogado de cidade pequena com os modos simples e populistas de alguém que entende a mentalidade do local melhor do que qualquer outro. Finalmente, Mark Ruffalo, apesar do exagero ocasional, empresta seu carisma habitual ao protagonista, criando uma composição cuidadosa no modo como parte o cabelo, mantém uma postura encolhida, com a cabeça sempre retraída entre os ombros, que levam o espectador a subestimar a força do personagem – e gosto particularmente de sua reação chocada, física, quando alguém o insulta de maneira inesperada, indicando sua surpresa diante de uma conversa que julgava civilizada. (E é curioso vê-lo novamente envolvido com o nome DuPont depois do ótimo – e trágico - Foxcatcher.)

Esta escalada nas hostilidades, por sinal, é outro elemento que Haynes desenvolve com paciência, demonstrando como a afabilidade inicial dos representantes da DuPont era mais questão de estratégia do que de caráter, algo refletido na tentativa de desmotivar Bilott ao enterrá-lo sob milhares de páginas de documentos (o que se revelaria o erro fatal da corporação) num esforço que não levou em consideração sua persistência. Do mesmo modo, é repugnante o cinismo da companhia ao usar um comunicado supostamente bem-intencionado como arma contra os opositores – e é um crédito ao filme que todas as manobras legais das partes sejam bem explicadas e jamais resultem em uma narrativa entediante ou repetitiva.

Igualmente interessante é perceber como Haynes inclui uma introdução na qual alguns jovens nadam escondidos no rio próximo à fábrica e que remete a Tubarão – com a importante diferença que, aqui, o monstro é a própria água. Aliás, O Preço da Verdade flerta com o horror em outros momentos, como, por exemplo, ao enfocar os efeitos do polímero sobre o organismo dos animais e ao acompanhar o pânico da família Tennant diante de possíveis atacantes noturnos. A atmosfera carregada é refletida também nos ambientes repletos de sombras, da fazenda à sala na qual Bilott entrevista um executivo da DuPont, passando pelo uso de luzes fluorescentes para drenar as cores de espaços diversos. E se a recriação de época é feita com cuidado, a satisfação do diretor resulta em certos exageros, como ao insistir em mostrar um PC sendo ligado e carregando o Windows 2000 antes que o herói comece a escrever um documento. Além disso, se há drama na situação – e há -, falta urgência ao longa, que, por esta razão, precisa apelar para conflitos artificiais provocados por antagonistas desimportantes (como alguns dos sócios do escritório de Bilott).

Por outro lado, se há algo no qual O Preço da Verdade é bem sucedido, é ao demonstrar como o capitalismo desregulado resulta invariavelmente em desastre – ao menos, para aqueles que não contam com fortunas à sua disposição (ou seja: a classe média, que ama se identificar com os milionários, sofre as consequências ao lado dos miseráveis que costuma desprezar). Isto pode ser constatado repetidamente ao longo da história recente, como, para citar apenas dois exemplos, os notórios escândalos envolvendo a Monsanto e, claro, a negligência criminosa da Vale em Mariana e Brumadinho.

E também no fato de que você e eu quase certamente temos, em nossos sangues, polímeros artificiais tóxicos e potencialmente cancerígenos que jamais serão eliminados e que absorvemos graças à ação da DuPont e de diversas outras empresas da área que decidiram, num cálculo matemático, que arriscar nossas vidas fazia mais sentido financeiramente do que preservá-las.

O que me traz de volta ao documentário A Corporação, que, em determinado momento, analisa os sinais de psicopatia descritos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, usado pelos profissionais da área – entre estes sinais, estão a incapacidade de seguir normas sociais com relação a comportamentos legais, o desrespeito constante pela segurança alheia, o fracasso recorrente em honrar obrigações financeiras, a ausência de remorso e a indiferença pela vida humana.

A descrição exata do que já deveríamos há muito ter aprendido a esperar das grandes corporações.

13 de Fevereiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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