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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/02/2020 01/11/2019 5 / 5 4 / 5
Distribuidora
Vitrine Filmes

Você Não Estava Aqui
Sorry We Missed You

Dirigido por Ken Loach. Roteiro de Paul Laverty. Com: Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone, Katie Proctor, Ross Brewster, Charlie Richmond, Micky McGregor, Alfie Dobson.

Em certo momento de Você Não Estava Aqui, novo trabalho do britânico Ken Loach, vemos de passagem um homem passeando com seu cachorro de três patas – uma imagem já vista algumas vezes na filmografia do diretor e que resume perfeitamente boa parte dos personagens que este costuma retratar: homens e mulheres que, diante de todas as dificuldades, seguem adiante mesmo conscientes de que provavelmente passarão toda a vida enfrentando os mesmos obstáculos.


Verdadeiro mestre em retratar o drama do proletariado contemporâneo (seu último longa, Eu, Daniel Blake, venceu a Palma de Ouro em Cannes há dois anos), Loach aqui volta seu compassivo olhar para a família Turner: Ricky (Hitchen), Abbie (Honeywood) e os filhos Seb (Stone) e Liza Jane (Proctor). Desempregado há algum tempo, Ricky acaba de acertar um contrato com a empresa de entregas gerenciada pelo pragmático Maloney (Brewster), um desses empregadores que insistem em dizer coisas como “você não trabalha para nós, mas conosco” – uma frase ao mesmo tempo condescendente e maldosa, já que o que significa de fato é que, como autônomo (ou, em bom português, “pêjota”), o “funcionário” terá todas as obrigações, mas nenhum dos direitos que deveria. O mesmo se aplica a Abbie, que, cuidadora de idosos, recebe pelas várias visitas que faz diariamente, mas não pelo tempo gasto nestas ou durante o deslocamento entre clientes (palavra que detesta, por sinal). “Você trabalha de 7h30 às 21h?”, se espanta uma das velhinhas atendidas pela mulher, completando: “O que aconteceu com as oitos horas por dia?”.

Representantes de milhões de pessoas que labutam apenas para sobreviver (“melhorar de vida” é o sonho sempre distante que usam para não enlouquecer), Ricky e Abbie mal podem passar tempo com os filhos, que, claro, não demoram a exibir as consequências da ausência dos pais. Isto, porém, não é algo que desperte a compaixão de seus patrões, sendo mais fácil encontrar solidariedade numa estranha em um ponto de ônibus do que nos indivíduos que lucram com seu suor – o que é sintetizado num monólogo de Maloney que, temo, provavelmente despertará a admiração de uma parcela dos espectadores que deveria reconhecer neste a verbalização da exploração à qual são submetidos diariamente.

Para gente como o casal Turner, no entanto, a lógica capitalista é uma realidade tão absorvida que o máximo que podem fazer é ensaiar um protesto que não seja sério a ponto de lhes custar o emprego. Não que lhes falte consciência de estarem em um jogo com cartas marcadas, já que sabem, por experiência própria, que quando a elite econômica brinca com o sistema financeiro quem acaba pagando são os miseráveis na ponta, que perdem suas casas, as economias e quaisquer perspectivas de uma velhice confortável. Ainda mais perversa, porém, é a percepção de que seus filhos tampouco podem esperar algo melhor, já que, num sistema como aquele em que vivem (e que, temo, será o nosso), frequentar uma universidade é contrair uma dívida para quase toda a vida – e o pior: sem a promessa de um futuro profissional, posto que o mercado de trabalho se encolhe a cada ano em função da automatização e do crescimento da demanda por novos empregos (principalmente quando a aposentadoria se converte em utopia).

Em meio a toda esta reflexão (e também para torná-la eficaz pela identificação), Ken Loach concebe personagens cuja humanidade salta da tela e que são vividos por um elenco essencialmente de estreantes talentosíssimos que não demoram a levar o espectador a amar aquela pequena família – a ponto de torcermos para que o filme não tenha conflitos dramáticos, já que desejamos testemunhar só a felicidade destas pessoas. Neste sentido, alguns dos instantes mais tocantes do filme são aqueles que surgem de gestos de afeto (e confesso ter chorado copiosamente diante de uma conversa cheia de doçura entre Ricky e a filha enquanto lancham).

Mas por mais que aqueles atores e atrizes brilhem (e como brilham), não há como negar que por trás destes há a sensibilidade de Loach e sua ternura para com a classe trabalhadora – e sua natureza humanista é exposta de modo claro quando, numa cena situada em um hospital, o diretor não resiste ao impulso de lançar seu olhar para os demais homens e mulheres que esperam horas por um atendimento.

Neste aspecto, Loach me faz lembrar do saudoso mestre Eduardo Coutinho. E o Cinema – não; o mundo! – precisa de mais pessoas como estes dois magníficos artistas.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019.

16 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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