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AmarElo - É Tudo pra Ontem

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Fred Ouro Preto. Roteirizado, narrado e protagonizado por Leandro Roque de Oliveira (Emicida).

Quando os créditos finais de AmarElo – É Tudo pra Ontem se encerraram (e este é um filme que merece ser visto até que o último nome deixe a tela), pela primeira vez me perguntei quantos anos teria seu idealizador e protagonista, o músico Emicida, já que os 90 minutos anteriores haviam exibido uma obra cujas solidez e maturidade pareciam resultar de décadas e décadas de observações e experiências acumuladas. Mas não, a aparência jovial do artista correspondia de fato aos seus 35 anos (e apenas 15 de carreira!).

Talvez a rapidez com que o Brasil vem se desfazendo esteja acelerando o ritmo de nosso envelhecimento e da maturação de nossos poetas.

Há mais do que isso, porém – e creio que o verdadeiro diferencial (além do talento) seja a determinação de Emicida de compreender o contexto que o produziu e que passa pelo horror da escravidão, da lentidão em aboli-la no país, da nossa incapacidade de lidar com suas consequências e da perversidade com que não só condenamos grande parte da população negra à miséria como ainda a punimos por isso, barrando oportunidades e assassinando seus jovens. Ao reconhecer como sua história se iniciou não em 1985, quando nasceu, mas quando os europeus arrancaram mais de cinco milhões de africanos de seu continente e os trouxeram à força para o Brasil para que servissem de mão-de-obra nas plantações, o músico eleva sua produção ao apontar com humildade e sensibilidade como está de pé sobre os ombros daqueles que, com sua luta ou com sua morte, abriram os caminhos que hoje ele percorre e – o mais triste – segue sendo forçado a desbravar.

Construído em torno da apresentação do show-título no opulento Theatro Municipal de São Paulo, AmarElo salta entre as performances no palco, gravações de estúdio, registros caseiros do rapper (incluindo de suas duas filhas pequenas) e – naquele que se torna o principal fio condutor da narrativa – as histórias da comunidade negra no Brasil e as de alguns de seus principais representantes. Com isso, o filme expõe como bem antes de surgirem movimentos ativistas organizados no país, a luta era realizada pelas conquistas de ex-escravos como Tebas, que se tornou arquiteto em São Paulo, e Luis Gama, que conseguiu alforriar centenas de pessoas através de meios judiciais. Em outras palavras, indivíduos que demonstraram, através de seus feitos, o que deveria ser óbvio para qualquer um: a própria humanidade e, consequentemente, o horror inato ao conceito de serem tratados como propriedade alheia.

Com uma montagem dinâmica que envolve o espectador enquanto ressalta a importância cultural e social do hip-hop (e, em específico, do rap) através de uma brilhante pesquisa de imagens e do uso de ilustrações e animações, o documentário resgata registros de grupos como Os Oito Batutas (que trazia Pixinguinha em sua formação) e Os Originais do Samba (que tornou Mussum conhecido), além de intelectuais como o teatrólogo Abdias do Nascimento (criador do Teatro Experimental do Negro) e da filósofa Lélia Gonzalez, que inspirava a admiração de ícones como Angela Davis (que aparece brevemente ressaltando a relevância da brasileira). Estes, no entanto, são apenas algumas das dezenas de nomes listados pelo longa – vários dos quais, admito com imenso embaraço, eu desconhecia. O que comprova não só minha ignorância, pela qual me responsabilizo e me vejo compelido a corrigir, como o fracasso do Brasil em preservar sua memória – isto quando não busca ativamente apagar elementos que escancaram seus pecados.

Mas se faço AmarElo soar como um filme amargo ou raivoso, permitam-me corrigir a impressão, pois se há algo que define a narrativa é, acima de tudo, o afeto. Figura generosa e cuja postura de modo geral parece valorizar a comunhão e a troca de vivências e aprendizados, Emicida impregna a experiência de amor por aqueles que o influenciaram e/ou inspiraram, como o músico Wilson das Neves, a cantora Leci Brandão e a genial atriz Ruth de Souza, que, sejamos francos, só não atingiu o mesmo reconhecimento alcançado por sua fabulosa colega Fernanda Montenegro em função da cor de sua pele. (Montenegro, por sinal, tem uma participação linda no longa e no show.) Feliz por poder ter conseguido trabalhar com Wilson das Neves, por exemplo, e homenageá-lo ainda em vida, Emicida e o diretor Fred Ouro Preto incluem uma passagem na qual o veterano é levado ao desfile de uma coleção de roupas criada pelo rapper (que também é estilista!) e reverenciado em público. “Que maravilha poder entregar flores a quem você admira enquanto eles ainda podem sentir o cheiro delas”, comemora o cantor em sua narração em uma das falas mais lindas e verdadeiras da obra.

Aliás, outra pessoa homenageada nesta mesma ocasião é dona Jacira, mãe de Emicida, e que ele reconhece como uma inspiração tão essencial em sua vida quanto Nelson Mandela, comprovando como todos somos resultados do que aprendemos não só no mundo exterior e na História, como no lar, a partir dos exemplos daqueles que amamos e trazem para nosso cotidiano as lições que eles próprios acumularam também fora e dentro de casa.

Ciente da importância de compreendermos como a luta por uma sociedade justa passa obrigatoriamente pela defesa dos direitos daqueles que fazem parte de grupos distintos do nosso, o cantor emprega este seu filme-manifesto como vitrine para outras minorias históricas como mulheres, indígenas e a comunidade LGBTQ+, culminando numa performance emocionante da música que dá título ao show ao lado de Majur e Pabllo Vittar.

Encontrando tempo ainda para apontar o simbolismo no fato de uma das primeiras vítimas fatais da Covid-19 no Brasil ter sido uma empregada doméstica que contraiu o vírus da patroa que havia voltado recentemente da Europa, AmarElo é um filme cuja força não sacrifica sua ternura e que confirma o próprio Emicida como dono de ombros gigantes sobre os quais gerações futuras poderão se erguer e alçar voo.

11 de Dezembro de 2020

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário5 de jan. de 2021

Aaaa, que crítica maravilhosa!

User
Usuário18 de dez. de 2020

Maravilha de crítica, Pablo! Esse Doc me fez chorar, me tocou de forma profunda, em razão de minha história e relação com as raízes da cultura negra na década de 80 no Rio de Janeiro. Sua crítica pontua todos os aspectos relevantes do filme, e achei delicado você reconhecer que desconhece algumas referências. Seu texto me parece sempre excelente. Grande abraço. Vera Queiroz

User
Usuário12 de dez. de 2020

Que texto maravilhoso, que análise linda e fiel! Emicida deve ler essa crítica e certamente vai se emocionar com as palavras e fidelidade de sentimentos postas nelas! Parabéns e obrigada!!!