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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/05/2021 30/05/2021 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Netflix
Duração do filme
87 minuto(s)

Direção

Bo Burnham

Roteiro

Bo Burnham

Produção

Josh Senior

Fotografia

Bo Burnham

Música

Bo Burnham

Montagem

Bo Burnham

Inside
Inside

Dirigido, roteirizado e estrelado por Bo Burnham.

Há o quarto escuro, pequeno, e há o tempo. O quarto é literal, mas também uma metáfora pronta de nossas mentes, de nossas prisões particulares guardadas por neurose, autoquestionamento, autodesprezo e impulsos suicidas. É ao mesmo tempo um espaço de criação do qual devemos extrair ideias, reflexões e Arte. Naquele canto do aposento há um piano para tocarmos as músicas que compomos com cada decisão; no lado oposto, um refletor para atirarmos luz sobre nossos medos. No fundo, um projetor para que relembremos alegrias e decepções que deixaram marcas profundas; na frente, uma porta que se recusa a ceder aos esforços para que abra e nos liberte.


E o tempo... bom, o tempo é a eternidade de nossas vidas breves, que doem enquanto duram e ainda assim parecem curtas demais. Eu queria viver mais. Eu queria viver menos.

Não é fácil conciliar ideias tão contraditórias: como é possível que eu pense tanto em suicídio e simultaneamente entre em pânico ao sentir uma pontada estranha no peito? Como posso me sentir tão incapaz de ser feliz e, apesar disso, sentir uma profunda alegria ao conversar com meus filhos ou apenas ao observá-los existindo? Eu quero me matar. Eu quero sobreviver.

Pode parecer estranho, mas o que me impulsiona a colocar estes conflitos em palavras é um especial de comédia, uma obra magnífica escrita, fotografada, montada, protagonizada e dirigida por um humorista que extrai graça de suas vulnerabilidades e daquelas que enxerga nas pessoas ao seu redor: Bo Burnham. Realizado durante a pandemia, enquanto Burnham se encontrava preso em casa enquanto um coronavírus matava seus compatriotas norte-americanos livremente graças à inação de um presidente ignorante (parece familiar?), este ensaio cômico é constituído de passagens curtas que o trazem em números musicais satíricos, sequências autocontidas que refletem aspectos da comunicação contemporânea (vloggers, instagrammers) e monólogos melancólicos sobre o fazer do próprio longa, além de uma homenagem ao holandês Hans Teeuwen, uma de suas principais inspirações.

Não que a comédia não possa conter dor; ao contrário, ao longo das décadas, muitos dos mais expressivos comediantes stand-up revelaram fortes angústias em seus textos: de Richard Pryor a Gary Gulman, passando por Bill Hicks, Robin Williams, Patton Oswalt, Mitch Hedberg, Aparna Nancherla, Hannah Gadsby e Chico Anysio, a depressão é bem mais frequente na carreira de cômicos do que muitos poderiam imaginar – e Bo Burnham jamais evitou abordar o assunto quando este se encaixava de alguma forma em seus espetáculos. A diferença, talvez, é que aqui, por se ver livre da obrigação de provocar o riso de seus espectadores a cada trinta segundos, ele se permite experimentar com a forma e o ritmo de seu especial, criando uma estrutura que, mesmo parecendo saltar de um lado a outro sem rima ou razão, se torna surpreendentemente coesa e eficaz.

A ideia de rodar um especial de comédia em casa não é nova, claro (Maria Bamford - outra comediante brilhante cuja depressão é parte integral de sua persona -, por exemplo, gravou seu The Special Special Special! na sala de casa tendo apenas os pais como plateia); a diferença é que Burnham concebe Inside com o propósito de transcender o espaço caseiro, não de salientar o absurdo de um show de humor confinado ao seu lar. Para alcançar este objetivo, ele emprega projeções, montagens e mudanças bruscas de luz, adotando uma estilização nesta última que faz jus ao cuidado com que sempre criou a luz de seus espetáculos no palco (a música final de Make Happy, seu especial anterior, traz um dos momentos esteticamente mais impressionantes que já vi em uma performance de stand-up, empregando a contraluz como uma ferramenta inesquecível).

Outra característica recorrente na trajetória de Burnham, por sinal, ganha aqui novos contornos: a metalinguagem. Se em Words, Words, Words e em what. (além do já citado Make Happy) o rapaz comentava seu processo criativo no monólogo em si, desta vez ele surge – numa paródia de vídeos similares – reagindo a uma música que ele mesmo compôs, enquanto, em outra canção, seus versos passam a criticar os que vieram nas estrofes anteriores, como se refletissem em tempo real as dúvidas do sujeito ao escrevê-los.

Esta tendência a desconstruir a própria desconstrução, a expor como fraude os próprios esforços para soar como um homem branco consciente de seus privilégios e da arrogância em se apresentar como “salvador”, é outra marca registrada de Burnham: em “Lower Your Expectations”, música presente em Make Happy, ele ridiculariza a suposta profundidade de sua letra ao cantar que “Todos merecemos amor / Esta é a melhor parte de estar vivo / E eu saberia disso / Pois acabei de completar 25 anos”. De modo similar, Inside exterioriza sua insegurança como artista e sua relação complicada com os espectadores, o embate entre seu impulso criativo e a necessidade de se manter íntegro a estes ao mesmo tempo em que tenta produzir algo que agrade aos fãs.

Mas o principal tema de Inside é mesmo a dor do processo artístico, a necessidade de rasgar-se para apresentar suas vísceras emocionais a um público que deseja primordialmente rir e se divertir – e não é à toa que ele eventualmente termina nu e totalmente exposto ao nosso olhar. Assim, o título representa não apenas o limitado espaço físico imposto pela pandemia, mas o interior do próprio realizador, que é forçado a buscar em si tudo que gostaria de deixar intocado – um mergulho que ele quer evitar, mas que, por outro lado, acaba se tornando sua boia de salvação em um período tão assustador e angustiante.

É compreensível, portanto, que a ideia de finalizar a obra se torne assustadora e que voltar ao mundo “real” se apresente quase como um pesadelo.

Sim, eu ri durante o especial de Bo Burnham, mas chorei na mesma proporção. Porque vi ali refletido como busco a morte há décadas. E também como desejo lutar pela vida por outras tantas que ainda virão.

02 de Junho de 2021

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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