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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/03/2022 04/03/2022 3 / 5 4 / 5
Distribuidora
Warner
Duração do filme
175 minuto(s)

The Batman
The Batman

Dirigido por Matt Reeves. Roteiro de Matt Reeves e Peter Craig. Com: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Colin Farrell, Jeffrey Wright, Peter Sarsgaard, Barry Keoghan, Rupert Penry-Jones, Alex Ferns, Con O´Neill, Jayme Lawson, Andy Serkis e John Turturro.

The Batman é um bom filme que se julga fantástico. Entregando-se a uma autoindulgência originada da crença aparente de que uma longa duração é sinal de ambição artística, este trabalho de Matt Reeves emprega nada menos do que 175 minutos para contar uma história que ainda deixa várias pontas soltas, investe tempo em personagens sem função narrativa clara (ou simplesmente redundantes) e que se inspira tanto nos dois excepcionais longas que David Fincher dirigiu sobre serial killers que chego a ficar espantado que não tenha adotado o título The Ba7man.


Escrito por Peter Craig (Herança de Sangue e as duas partes finais de Jogos Vorazes) ao lado do diretor Matt Reeves, o roteiro deste novo filme solo do Homem-Morcego encontra Bruce Wayne (Pattinson) em seu segundo ano de atividade como o super-herói: encarando suas atividades como parte de um projeto para tentar limpar Gotham City, Batman mantém uma parceria com o tenente James Gordon (Wright) apesar da reprovação dos colegas deste – que, no entanto, não podem fechar os olhos para os dotes investigativos do vigilante mascarado. Assim, quando várias autoridades da cidade começam a ser mortas por um serial killer que deixa mensagens cifradas nos locais dos crimes, a dupla inicia uma investigação que acaba levando-os a conhecer figuras como Selina Kyle/Mulher-Gato (Kravitz) e os gângsteres Carmine Falcone (Turturro) e Oswald Cobblepot/Pinguim (Farrell), que talvez possam fornecer pistas que identifiquem o tal Charada (Dano).

A esta altura do campeonato, não é surpreendente a decisão do designer de produção James Chinlund de representar Gotham City como um pesadelo gótico com ruas sujas e povoadas por criminosos, viciados em drogas e miséria, mas aqui esta determinação em manter as cores afastadas daquele universo é elevada a um novo patamar – a ponto de um pequeno objeto de cena rosa na casa de Selina chamar a atenção ao surgir por um segundo em quadro. Enquanto isso, a batcaverna deixa de lado toda a modernidade dos capítulos anteriores, quando aparecia como um espaço tomado por equipamentos, plataformas móveis e múltiplos níveis, para ser retratada de modo mais simples como uma estação subterrânea de metrô convertida para os propósitos do herói, o que faz sentido quando consideramos que este ainda se encontra no início de sua carreira.

Seguindo a mesma abordagem, a fotografia de Greig Fraser é talvez a mais escura de todos os filmes protagonizados pelo ícone da DC: raramente vemos uma cena ambientada durante o dia, ao passo que as cenas noturnas – sejam estas internas ou externas – são carregadas de sombras duras, luzes com alcance limitado e composições de quadro que ressaltam os espaços sombrios em torno dos personagens. Além disso, Fraser constantemente adota uma profundidade de campo reduzida ou mesmo planos levemente desfocados, usando ainda recursos como fumaça ou a chuva constante para limitar a visão do espectador – ilustrando, assim, o mundo opressivo e claustrofóbico habitado por aquelas pessoas.

Não é à toa, portanto, que o Bruce Wayne de Robert Pattinson surge como um jovem pálido e com compleição doentia e que parece caminhar sempre encurvado, contrastando com a versão musculosa e saudável de Christian Bale. Soando deprimido e pessimista, Wayne fala pouco e com voz baixa, mantendo um distanciamento emocional até mesmo de seu leal mordomo/figura paterna Alfred (que Andy Serkis encarna com um misto de afeto e impaciência) – e nas poucas ocasiões em que vemos o bilionário sem seu uniforme, ele demonstra pragmatismo ao trocar os ternos e smokings por boné e mochila, o que lhe permite caminhar incógnito pela cidade, mas sempre pronto para vestir a máscara quando necessário. Do mesmo, a chamativa batmoto dos longas de Christopher Nolan cede lugar a uma versão comum, discreta, enquanto o batmóvel descarta o design estilizado para apresentar-se como um veículo que parece de metal reforçado e que Reeves apresenta como se fosse uma criatura monstruosa saída de uma caverna para amedrontar os vilões.

E já que mencionei os antagonistas, preciso apontar o brilhantismo da maquiagem de Colin Farrell, que o transforma numa figura irreconhecível que ele enriquece com maneirismos claramente inspirados em Robert De Niro (em sua versão de Al Capone, em particular). Infelizmente, seu Pinguim, por mais hipnótico que seja, não desempenha função alguma na trama além de corrigir um erro de tradução – e até a competente perseguição que o envolve é prontamente ignorada ao chegar ao fim, como se todo o caos e destruição provocados fossem irrelevantes. Por outro lado, John Turturro, carismático como de costume, faz o que pode com Falcone, que, mesmo desenvolvido com pobreza, ao menos tem propósito para existir na história, enquanto Jeffrey Wright fica preso a um Jim Gordon burocrático e sem vida. E se Peter Sarsgaard entra em cena apenas por tempo suficiente para comprovar que sua família deveria se manter longe de Gotham City (ele é marido de Maggie Gyllenhaal, que interpretou Rachel Dawes em O Cavaleiro das Trevas), Zoë Kravitz vai na contramão ao criar uma versão da Mulher-Gato bem mais convincente que a de Anne Hathaway em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, equilibrando a sensualidade característica da personagem com uma fisicalidade que realmente parece torná-la tão eficaz em combate quanto o próprio Batman.

O que nos traz ao Charada de Paul Dano, que evoca uma mistura de Jigsaw, Coringa e o John Doe de Se7en – três figuras perigosas que, paradoxalmente, representam uma combinação pouco ameaçadora na composição do ator. Oscilando entre gargalhadas descontroladas em um momento e um tom de voz sóbrio e quase sussurrado em outro, o vilão surge frágil desde o primeiro instante, quando grita ao atacar o prefeito e perde o fôlego ao fim da luta (detalhes que a princípio podem ser interessantes por torná-lo mais humano, mas que perdem o sentido à medida que ele se converte em uma figura cada vez mais caricatural). E ainda que isto possa soar como um elogio (e é num aspecto moral, embora não artístico), Paul Dano não é Kevin Spacey – e a cena em que conversa com o protagonista acaba parecendo uma cópia amadora da discussão entre Joe Doe e os detetives de Brad Pitt e Morgan Freeman na obra de Fincher, especialmente quando diz que todos “irão se lembrar” do que fez.

Carregado de cenas expositivas (em algum momento, praticamente todos os personagens do filme se entregam a monólogos para explicar elementos da trama), o roteiro ainda peca pelo uso preguiçoso da narração em off, que mesmo começando bem (ao abordar como o símbolo do morcego se tornou uma fonte de pavor para criminosos, compensando o fato de o herói não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo), aos poucos se torna redundante até concluir com uma série de frases de efeito que parecem muito uma exigência do estúdio para deixar o desfecho mais mastigado para o público e que foge totalmente do tom pesado construído nas quase três horas que o antecederam. Para piorar, The Batman padece do mesmo mal de obras como O Retorno do Rei, que trazem vários finais em vez de criar uma estrutura que leve inexoravelmente a uma conclusão marcante (Peter Jackson ao menos tinha a desculpa de estar encerrando uma trilogia, enquanto The Batman está iniciando sua própria).

De todo modo, não deixa de ser intrigante perceber como, ao seu próprio modo, as produções solo estreladas pelo Homem-Morcego acabam por refletir preocupações de suas respectivas épocas: se os filmes de Tim Burton ainda ecoavam o escapismo leve, descompromissado, que marcou o cinema hollywoodiano da década de 80, a trilogia de Nolan continha um comentário inequívoco sobre os anos Bush e o Estado de vigilância e paranoia criado por este após o 11 de Setembro. Já este filme de Matt Reeves reflete os conflitos cada vez mais frequentes resultantes do aumento da desigualdade econômica ao redor do planeta (“Você vem falar de ‘escolhas’? Dá para ver que você cresceu rico”, diz a Mulher-Gato para Batman em certo instante da narrativa, sem saber o quão certa está.), mas também o modo como a Internet e as redes sociais propiciaram a reunião e o crescimento de homens inseguros e frustrados, geralmente brancos e heterossexuais, que encontram na violência uma vingança contra o que estupidamente acreditam ser um mundo determinado a mantê-los oprimidos – e até mesmo certa catástrofe que ocorre no clímax tem reflexos em ocorrências que se tornaram regulares nos últimos anos em função da crise ambiental.

O lamentável é que, por razões puramente comerciais, Reeves é forçado a diluir as consequências de tudo que ocorre em seu longa, já que jamais pode deixar evidentes as (muitas) mortes resultantes dos incidentes que inclui na trama – em particular, os do terceiro ato. E é uma pena, também, que uma narrativa já tão inchada ainda se preocupe mais com o “fan service” e em introduzir novos vilões (“novos”) do que em tentar atingir alguma coesão em sua frouxa conclusão.

Tentando se estabelecer como um passo corajoso em nova direção, The Batman é, sob sua superfície escura e prolixa, um filme que pouco se arrisca e muito se repete.

28 de Fevereiro de 2022

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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