Construir uma boa trama envolvendo golpistas não é tarefa simples: além de ter que atrair a simpatia do público para personagens obviamente mal intencionados, o roteiro deve ser hábil ao conceber o golpe em si. Se não acreditamos em sua eficiência, não acreditamos no filme. Assim, para cada Golpe de Mestre ou Nove Rainhas, há uma dúzia de Doce Trapaça, Confidence - O Golpe PerfeitoQuanto Mais Grana MelhorDoze Homens e Outro Segredo (e Treze), O Golpe do Baú e por aí afora.

E é por isso que é notável como o dramaturgo/roteirista/diretor David Mamet solidificou sua carreira ao realizar ao menos duas grandes obras do gênero: Jogo de Emoções e A Trapaça. Aliás, é possível até mesmo identificar as sementes de seu talento para este tipo de personagem em um trabalho anterior, O Sucesso a Qualquer Preço, cujos vendedores desesperados claramente empregavam estratégias elaboradas em seu cotidiano (embora a versão para cinema seja de 1992, a peça original estreou em 1983, precedendo Jogo de Emoções em quatro anos, portanto).

Neste Trapaça, que Mamet escreveu e dirigiu em 1997, o espectador é atirado num universo no qual a desconfiança deve estar sempre presente e que é ancorado não só por um excelente Campbell Scott, que transforma a inteligência de seu personagem em desvantagem, mas também por uma performance surpreendente de Steve Martin, que até então havia se arriscado em papéis sérios em apenas três ocasiões: no triste musical Dinheiro do Céu (1981); no drama de múltiplas narrativas, claramente influenciado por Robert Altman, Grand Canyon - Ansiedade de uma Geração (1991); e no frágil Uma Virada do Destino (1994), que também roteirizou. Aqui, Martin cria um personagem cujo carisma mantém o público incerto acerca de suas intenções, mesmo que nos julguemos capazes de prevê-las.

E o desfecho... bom, estou curioso para ver o que acham. (E sintam-se livres para deixar comentários no espaço abaixo com suas interpretações.) 

Clique na imagem abaixo para assistir.

Um grande abraço e bons filmes!

Outras edições da coluna:

Episódio #02: Tyke: Elephant Outlaw
Episódio Piloto: 21 longas para começar.
 

  • Jorge em 11/01/2017 às 01:41

    Gostei do filme, mas perdeu pontos comigo no final. O ritmo do filme é fluido, as atuações são boas, Campbell Scott está maravilhoso, Rebecca Pidgeon muito bem e Steve Martin adequado. Mas o filme peca pelas reviravoltas demasiadas, que acabam prejudicando o ótimo clima de suspense e desconfiança entre os personagens. Menos reviravoltas improváveis e mais simplicidade da trama teriam produzido resultados melhores, já que a empatia com os personagens funciona uma maravilha. Do jeito que ficou, é um bom divertimento apenas.

 

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Colunista:

Pablo Villaça

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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