Críticas por Pablo Villaça

Poster: Anomalisa
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/01/2016 30/12/2015
Distribuidora
Paramount Pictures

 

 

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Anomalisa
Anomalisa

Anomalisa

Dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson. Roteiro de Charlie Kaufman. Com as vozes de David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan.

A inventividade de Charlie Kaufman pode ser o diferencial de sua filmografia, mas sua humanidade é certamente o que a torna essencial. Em cada roteiro que escreve, o responsável por Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Sinédoque, Nova York busca investigar não apenas quem somos, mas também o que nos move, o que nos machuca e o que nos leva a buscar conexões com outras pessoas, expondo-nos ao risco de mais dores e decepções na esperança de que, no processo, também possamos sentir um pouco mais de alegria e um pouco menos de solidão. A sensibilidade de Kaufman é tamanha que, mesmo ao criar um longa protagonizado por bonecos, praticamente garante que estes estarão entre as figuras mais humanas que veremos no Cinema este ano.

Para isso, o roteirista/diretor não precisa de uma história complexa ou mesmo longa: em seus breves 90 minutos, Anomalisa acompanha Michael Stone (Thewlis), um escritor cujo livro de autoajuda voltado para o mercado de atendimento ao consumidor é um sucesso editorial e que viaja de Los Angeles para Cincinnati a fim de dar uma palestra. Triste e solitário, ele decide ligar para uma ex-namorada que mora na cidade e, quando o reencontro se revela desastroso, acaba conhecendo Lisa (Leigh), que se hospedou no mesmo hotel com o objetivo de assistir justamente à sua apresentação.

Co-dirigido por Duke Johnson (responsável pelo excelente episódio em stop motion da série Community), Anomalisa conta com uma animação tecnicamente soberba: já nos primeiros momentos, quando vemos Michael no avião, é possível ver seu tórax se movendo sutilmente enquanto ele respira e, pouco depois, ao entrar em um carro, seu corpo sacode de maneira realista em resposta aos solavancos e curvas do caminho. Aliás, ao longo da projeção, são detalhes sutis como estes que quase levam o espectador a esquecer estar acompanhando bonecos: aqui, uma personagem se levanta abruptamente e puxa a bolsa que ficou presa na cadeira; ali, outra balança a cabeça silenciosamente antes de começar a cantar uma música, como se estivesse se lembrando da melodia e do ritmo a fim de recitar os primeiros versos. É um trabalho delicado e cuidadoso que expõe o carinho da equipe de animadores e também seu talento.

O mesmo, vale dizer, se aplica ao design de produção, já que os cenários impressionam pelo naturalismo (o extenso corredor do hotel e o quarto de Michael são particularmente memoráveis) e os figurinos comunicam infinidades sobre os personagens (reparem a blusa com estampa de flores de Lisa, que denuncia seus gostos simples, e também a forma como Bella, a ex de Michael, usa várias camadas de roupa, como se quisesse se proteger deste). Além disso, o visual dos personagens foge de qualquer estilização ou perfeição estética: o protagonista é um homem com um princípio de barriga, flácido e com “pneuzinhos”, ao passo que Lisa é baixinha e também revela dobrinhas de gordura que a tornam... real. Enquanto isso, a excepcional fotografia de Joe Passarelli é esteticamente elegante sem deixar de ser evocativa – e é especialmente notável como ele altera levemente a temperatura da luz do quarto de Michael, saltando da frieza inicial (quando ele se sente só) a um calor agradável (quando ele se encontra com Lisa), expondo assim, sem a necessidade de diálogos, os sentimentos do sujeito. Da mesma forma, é divertido reparar como as ruas se encontram molhadas durante a noite, simulando algo que um diretor de fotografia provavelmente faria caso estivesse rodando em locações reais, e perceber o virtuosismo de um plano-sequência que se inicia no saguão do hotel, passa por um elevador, continua no corredor de um outro andar e finalmente termina no quarto.

Todo este apuro técnico, claro, surge a serviço de uma história que gira em torno de um homem sufocado pela solidão e que, como o típico personagem kaufmaniano, convive de forma combativa com os próprios sentimentos. Impaciente ao conversar com a esposa e com o filho que ficaram em Los Angeles, Michael parece olhar o mundo sem qualquer esperança de voltar a experimentar alguma conexão com quem quer que seja – e, não à toa, ao passar por um casal no corredor, ele ouve apenas uma sucessão de “fuck you!” que parece resumir sua percepção acerca dos relacionamentos amorosos.

E a percepção de Michael é, no fim das contas, o que move a narrativa. Desde o princípio da projeção, quando nos isolamos com ele dos sons caóticos do aeroporto enquanto ouvimos a música que ele também escuta em seu iPod, Kaufman deixa claro que nossa visão de todos os eventos será moldada pela subjetividade do protagonista – algo que é fundamental para compreendermos por que todas as vozes que escutamos durante o filme (com exceção daquelas que pertencem ao casal principal) são idênticas, sendo criadas pelo excelente Tom Noonan, e também por que todos os rostos (de novo: excluindo o casal) parecem pequenas variações de um mesmo molde: para Michael, todas as pessoas são igualmente desinteressantes, insignificantes e aborrecidas. Assim, quando finalmente ele encontra alguém que o encanta, ela surge com rosto e voz que a distinguem, sugerindo uma idealização romântica imediata.

O fascinante, contudo, é que – como discuti acima – Lisa não tem nada de fisicamente excepcional, exibindo inclusive uma cicatriz que deforma ligeiramente o lado direito de seu rosto, que, de forma tocante, ela mantém coberto pelo cabelo. Insegura e vulnerável, a garota comove com sua franqueza ao falar sobre suas fragilidades emocionais e também ao se expor de forma tão ingênua (e esperançosa) aos avanços de Michael – e o instante no qual canta um trecho de “Girls Just Want to Have Fun” é provavelmente o mais belo de um filme repleto de belos momentos (e o fato de Kaufman e Johnson o amarrarem com uma piada acaba por torná-lo ainda mais memorável). Assim, por que ela desperta uma resposta tão intensa no sujeito?

Esta é uma pergunta que o próprio Michael não sabe responder – algo que constatamos ao notar sua expressão que oscila entre a surpresa, a fascinação e o desejo (sim, falei de “expressão” ao discutir um boneco; Anomalisa é bom assim). Por outro lado, é claro que ele não saberia explicar, já que é um homem com óbvios problemas emocionais: ao dizer que “perde todas as pessoas”, por exemplo, ele se mostra cego para o fato de que é ele quem as afasta graças ao seu desinteresse crônico. Egocêntrico a ponto de sonhar que todos os habitantes do planeta vivem em sua função, Michael enxerga Lisa como uma possibilidade surpreendente de amor apenas enquanto a idealiza; a partir do instante em que a “possui” (sim, ele é o tipo de indivíduo que provavelmente usaria este verbo ao falar de uma mulher), o interesse se desfaz e as irritações que experimenta em suas interações cotidianas voltam a se manifestar à medida que a garota se transforma em apenas mais um rosto comum.

E aqui reside a sensibilidade de Kaufman: na compreensão de que todos buscamos aquela “anomalia”, aquela ligação única que, por um motivo fortuito qualquer, torna alguém especial e fundamental em nossas vidas – mas que inevitavelmente perderá seu status de “novo” ao se tornar parte destas. O segredo, claro, é conseguir preservar o encanto que despertava como “anomalia” mesmo depois de se tornar prazerosamente cotidiana. Um segredo que, ignorado por Michael, acaba por condená-lo a observar de fora a experiência humana.

29 de Janeiro de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.