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Anomalisa

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Charlie Kaufman e Duke Johnson. Roteiro de Charlie Kaufman. Com as vozes de David Thewlis, Jennifer Jason Leigh e Tom Noonan.

A inventividade de Charlie Kaufman pode ser o diferencial de sua filmografia, mas sua humanidade é certamente o que a torna essencial. Em cada roteiro que escreve, o responsável por Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Sinédoque, Nova York busca investigar não apenas quem somos, mas também o que nos move, o que nos machuca e o que nos leva a buscar conexões com outras pessoas, expondo-nos ao risco de mais dores e decepções na esperança de que, no processo, também possamos sentir um pouco mais de alegria e um pouco menos de solidão. A sensibilidade de Kaufman é tamanha que, mesmo ao criar um longa protagonizado por bonecos, praticamente garante que estes estarão entre as figuras mais humanas que veremos no Cinema este ano.

Para isso, o roteirista/diretor não precisa de uma história complexa ou mesmo longa: em seus breves 90 minutos, Anomalisa acompanha Michael Stone (Thewlis), um escritor cujo livro de autoajuda voltado para o mercado de atendimento ao consumidor é um sucesso editorial e que viaja de Los Angeles para Cincinnati a fim de dar uma palestra. Triste e solitário, ele decide ligar para uma ex-namorada que mora na cidade e, quando o reencontro se revela desastroso, acaba conhecendo Lisa (Leigh), que se hospedou no mesmo hotel com o objetivo de assistir justamente à sua apresentação.

Co-dirigido por Duke Johnson (responsável pelo excelente episódio em stop motion da série Community), Anomalisa conta com uma animação tecnicamente soberba: já nos primeiros momentos, quando vemos Michael no avião, é possível ver seu tórax se movendo sutilmente enquanto ele respira e, pouco depois, ao entrar em um carro, seu corpo sacode de maneira realista em resposta aos solavancos e curvas do caminho. Aliás, ao longo da projeção, são detalhes sutis como estes que quase levam o espectador a esquecer estar acompanhando bonecos: aqui, uma personagem se levanta abruptamente e puxa a bolsa que ficou presa na cadeira; ali, outra balança a cabeça silenciosamente antes de começar a cantar uma música, como se estivesse se lembrando da melodia e do ritmo a fim de recitar os primeiros versos. É um trabalho delicado e cuidadoso que expõe o carinho da equipe de animadores e também seu talento.

O mesmo, vale dizer, se aplica ao design de produção, já que os cenários impressionam pelo naturalismo (o extenso corredor do hotel e o quarto de Michael são particularmente memoráveis) e os figurinos comunicam infinidades sobre os personagens (reparem a blusa com estampa de flores de Lisa, que denuncia seus gostos simples, e também a forma como Bella, a ex de Michael, usa várias camadas de roupa, como se quisesse se proteger deste). Além disso, o visual dos personagens foge de qualquer estilização ou perfeição estética: o protagonista é um homem com um princípio de barriga, flácido e com “pneuzinhos”, ao passo que Lisa é baixinha e também revela dobrinhas de gordura que a tornam... real. Enquanto isso, a excepcional fotografia de Joe Passarelli é esteticamente elegante sem deixar de ser evocativa – e é especialmente notável como ele altera levemente a temperatura da luz do quarto de Michael, saltando da frieza inicial (quando ele se sente só) a um calor agradável (quando ele se encontra com Lisa), expondo assim, sem a necessidade de diálogos, os sentimentos do sujeito. Da mesma forma, é divertido reparar como as ruas se encontram molhadas durante a noite, simulando algo que um diretor de fotografia provavelmente faria caso estivesse rodando em locações reais, e perceber o virtuosismo de um plano-sequência que se inicia no saguão do hotel, passa por um elevador, continua no corredor de um outro andar e finalmente termina no quarto.

Todo este apuro técnico, claro, surge a serviço de uma história que gira em torno de um homem sufocado pela solidão e que, como o típico personagem kaufmaniano, convive de forma combativa com os próprios sentimentos. Impaciente ao conversar com a esposa e com o filho que ficaram em Los Angeles, Michael parece olhar o mundo sem qualquer esperança de voltar a experimentar alguma conexão com quem quer que seja – e, não à toa, ao passar por um casal no corredor, ele ouve apenas uma sucessão de “fuck you!” que parece resumir sua percepção acerca dos relacionamentos amorosos.

E a percepção de Michael é, no fim das contas, o que move a narrativa. Desde o princípio da projeção, quando nos isolamos com ele dos sons caóticos do aeroporto enquanto ouvimos a música que ele também escuta em seu iPod, Kaufman deixa claro que nossa visão de todos os eventos será moldada pela subjetividade do protagonista – algo que é fundamental para compreendermos por que todas as vozes que escutamos durante o filme (com exceção daquelas que pertencem ao casal principal) são idênticas, sendo criadas pelo excelente Tom Noonan, e também por que todos os rostos (de novo: excluindo o casal) parecem pequenas variações de um mesmo molde: para Michael, todas as pessoas são igualmente desinteressantes, insignificantes e aborrecidas. Assim, quando finalmente ele encontra alguém que o encanta, ela surge com rosto e voz que a distinguem, sugerindo uma idealização romântica imediata.

O fascinante, contudo, é que – como discuti acima – Lisa não tem nada de fisicamente excepcional, exibindo inclusive uma cicatriz que deforma ligeiramente o lado direito de seu rosto, que, de forma tocante, ela mantém coberto pelo cabelo. Insegura e vulnerável, a garota comove com sua franqueza ao falar sobre suas fragilidades emocionais e também ao se expor de forma tão ingênua (e esperançosa) aos avanços de Michael – e o instante no qual canta um trecho de “Girls Just Want to Have Fun” é provavelmente o mais belo de um filme repleto de belos momentos (e o fato de Kaufman e Johnson o amarrarem com uma piada acaba por torná-lo ainda mais memorável). Assim, por que ela desperta uma resposta tão intensa no sujeito?

Esta é uma pergunta que o próprio Michael não sabe responder – algo que constatamos ao notar sua expressão que oscila entre a surpresa, a fascinação e o desejo (sim, falei de “expressão” ao discutir um boneco; Anomalisa é bom assim). Por outro lado, é claro que ele não saberia explicar, já que é um homem com óbvios problemas emocionais: ao dizer que “perde todas as pessoas”, por exemplo, ele se mostra cego para o fato de que é ele quem as afasta graças ao seu desinteresse crônico. Egocêntrico a ponto de sonhar que todos os habitantes do planeta vivem em sua função, Michael enxerga Lisa como uma possibilidade surpreendente de amor apenas enquanto a idealiza; a partir do instante em que a “possui” (sim, ele é o tipo de indivíduo que provavelmente usaria este verbo ao falar de uma mulher), o interesse se desfaz e as irritações que experimenta em suas interações cotidianas voltam a se manifestar à medida que a garota se transforma em apenas mais um rosto comum.

E aqui reside a sensibilidade de Kaufman: na compreensão de que todos buscamos aquela “anomalia”, aquela ligação única que, por um motivo fortuito qualquer, torna alguém especial e fundamental em nossas vidas – mas que inevitavelmente perderá seu status de “novo” ao se tornar parte destas. O segredo, claro, é conseguir preservar o encanto que despertava como “anomalia” mesmo depois de se tornar prazerosamente cotidiana. Um segredo que, ignorado por Michael, acaba por condená-lo a observar de fora a experiência humana.

29 de Janeiro de 2016

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

A inventividade de Charlie Kaufman pode ser o diferencial de sua filmografia, mas sua humanidade é certamente o que a torna essencial.

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Avaliações dos Usuários

Cecilia
Cecilia9 de out. de 2017

Uma curiosidade: o hotel em que boa parte da trama se desenvolve chama-se Fregoli, numa clara alusão à síndrome de mesmo nome - e que seria, possivelmente, o motivo pelo qual o protagonista enxerga e ouve (quase) todas as pessoas ao seu redor como se fossem sempre o mesmo indivíduo. Neste link, há uma breve descrição da síndrome em questão: http://www.infoescola.com/doencas/sindrome-de-fregoli/

Patrícia Paiva
Patrícia Paiva 1 de mar. de 2016

Que filme lindo e humanizado. A crítica me fez pensar o que eu constatei logo quando Michael toma café com Lisa, digo, a instabilidade e insatisfação constante, própria de algumas pessoas, principalmente com problemas emocionais, no qual estão extremamente encantadas num determinado momento, prontas a largar a vida por uma nova perspectiva, sendo que segundos depois, um desencanto invade o peito, e o simples estalar de dentes de alguém leva todo o mundo de fantasias abaixo. E o pior, o problema não é do outro, é consigo mesmo. A voz de Lisa variando do masculino ao feminino no final é um excelente indicador do desencanto. É maravilhosa mesmo a cena dela cantando a Cyndi Lauper com uma voz doce, natural e sem artifícios. O quanto sua simplicidade, histórias e "anomalia" seduziu Michael, ou a cena de sexo que parecida com a de qualquer mortal. Anomalisa é de fato um filme sensível e que tem muito a nos dizer, como esta ótima crítica ressaltou, sobre o que nos move, o que nos leva a relacionar com outras pessoas e o que nos leva a solidão. Ah, fiquei estarrecida com o capricho e cuidado dos detalhes nesse filme, confesso que ficava prestando a atenção até no cartão chave para abrir portas no bolso de Michael, os movimentos, enfim, esqueci mesmo que se tratavam de bonecos.

Iuri Palma
Iuri Palma19 de fev. de 2016

Uma das melhores coisas de ler as críticas do Pablo é tipo " mas é exatamente isto o que eu pensei !!", e esta análise do Anomalisa fecha 100 % com esta sensação. O filme é simplesmente magnífico, com uma riqueza humana ímpar. Aq

Pablo Pantoja
Pablo Pantoja31 de jan. de 2016

Nossa Pablo, nos primeiros minutos do filme achei muito bizarro as vozes todas masculinas e os rostos parecidos! Mas sabia que teria que ter uma justificativa... quando a voz da Lisa apareceu me sentir aliviado junto com o protagonista. Personagens falhos numa história com muita sensibilidade. Afinal de contas, todos procuramos uma Anomalisa! XD

Gustavo Vasconcellos Linares
Gustavo Vasconcellos Linares31 de jan. de 2016

Sempre quis ler sua análise sobre Adaptação e a metalinguagem do roteiro!! Lembro quando o filme lançou, acho que foi perto de quando você ficou doente e passou pela sua cirurgia (se não me engano), mas nunca teve uma crítica sua... Jovens Clássicos?! =D