Críticas por Pablo Villaça

Poster: Batman vs Superman: A Origem da Justiça
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/03/2016 25/03/2016
Distribuidora
Warner

 

 

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Batman vs Superman: A Origem da Justiça
Batman v Superman: Dawn of Justice

Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Dirigido por Zack Snyder. Roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer. Com: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Gal Gadot, Scoot McNairy, Callan Mulvey, Mercy Graves, Kevin Costner, Carla Gugino, Michael Shannon, Jeremy Irons e Holly Hunter.

A tarefa de Batman vs Superman não é fácil: além de ter que funcionar como continuação de duas das franquias mais importantes da Warner/DC, o filme é empregado para estabelecer as bases de outras duas séries (uma estrelada pela Mulher-Maravilha; outra, pela Liga da Justiça). O resultado, portanto, era quase inevitável: em vez de se concentrar na história que está contando, o longa soa disperso, sem foco, obviamente sentindo o peso da obrigação de preparar o terreno para as próximas – e, com isso, não desempenha nenhuma das duas tarefas particularmente bem.

Escrito por Chris Terrio e David S. Goyer (veterano do gênero), este novo projeto tem início corrigindo um erro que apontei em meu texto sobre O Homem de Aço, que ignorava covardemente as consequências da destruição provocada pela batalha entre Superman (Cavill) e Zod (Shannon). Aqui, vemos o confronto a partir do ponto de vista dos “civis” – particularmente, de Bruce Wayne (Affleck), que testemunha um dos prédios de sua empresa desabando e matando provavelmente todos os ocupantes. Convencido de que Superman é um perigo para o planeta, Wayne decide neutralizá-lo, o que acaba levando-o a conhecer Lex Luthor (Eisenberg), que tem seus próprios planos obscuros. Enquanto Lois Lane (Adams) tenta compreender o que realmente aconteceu em um incidente no deserto que pode levar o Congresso norte-americano a questionar seu namorado, a misteriosa Diana (Gadot) parece conduzir uma investigação particular que pode ou não envolver Luthor.

Pois é. Só pelo breve resumo acima, já é possível perceber o inchaço na trama do filme – o que, curiosamente, não elimina a sensação de que os longos 153 minutos representam um exagero. Por outro lado, se há algo que funciona é a dinâmica entre os dois personagens-título, cujas personalidades contrastantes trazem sempre o potencial de conflito. Se Superman é um idealista, por exemplo, Batman parece mais propenso ao niilismo; se Clark Kent acredita na Humanidade, Bruce Wayne a encara como caso perdido; se o primeiro se entrega apaixonadamente a Lois, o segundo logo é visto despertando ao lado de uma parceira sexual tão pouco significativa emocionalmente que o diretor Zack Snyder faz questão de nem sequer permitir que enxerguemos seu rosto, que mantém-se oculto pelo corpo do bilionário.

Não que o herói de Henry Cavill se mostre sereno, pois é encarnado pelo ator como um ser dividido entre a consciência acerca do próprio poder, da obrigação moral que este traz (algo incutido por seu pai) e do isolamento inevitável por ele provocado. Clark não se enxerga como um deus; ao contrário, sente paixões e necessidades humanas e, assim, é com claro desconforto e mesmo certa surpresa que percebe ser visto pela maior parte dos habitantes do planeta como um ser diferente – e o distanciamento que isto desperta o leva a se sentir... como o alienígena que insiste em não ser. Enquanto isso, Affleck oferece uma interpretação de Wayne/Batman bastante distante daquela de Christian Bale, o que se mostra acertado: seu Bruce, além de mais velho, é um justiceiro exaurido por duas décadas de uma luta contra o crime que jamais chega ao fim (“Bandidos são como ervas daninhas: você arranca um e surge outro”). Cínico e com um olhar cuja frieza constante denota uma vida interior semimorta, o sujeito se tornou claramente radicalizado e, consequentemente, mais cruel, já não exibindo o cuidado do passado para não provocar mortes ao enfrentar os criminosos. Além disso, sua postura preventiva no que diz respeito ao novo inimigo (“Se houver 1% de chance de ele ser inimigo, então temos que encarar isso como certeza absoluta”) quase se transforma em um comentário político no que diz respeito à postura dos Estados Unidos no cenário mundial contemporâneo – e o “quase” é porque Snyder obviamente não tem interesse algum nisso, abandonando a analogia rapidamente.

O cineasta, por sinal, aqui se mostra bem mais irregular do que de costume (quem leu o que escrevi sobre Madrugada dos Mortos, 300, Watchmen e mesmo Sucker Punch sabe que gosto de seu trabalho): os momentos icônicos – e que Snyder reconhece como tais – são bem estabelecidos – e o instante no qual os dois super-heróis se encaram pela primeira, vestidos com seus uniformes, resulta em um plano memorável que os traz grandiosos, imponentes e poderosos. Da mesma maneira, o diretor não economiza na iconografia religiosa ao retratar Superman (algo que também ocorria em O Homem de Aço), que constantemente é visto quase como um anjo em contraluz e com a capa no lugar das asas. Aliás, devo confessar que até mesmo a morte dos pais de Bruce Wayne (pois é, gente: eu não sabia que eles haviam sido assassinados na frente do garoto! Agora resta só descobrir o que houve com o tio Ben!) traz um ou outro plano que confere alguma novidade ao evento – e gostei particularmente do plano-detalhe no qual o movimento do disparo leva o colar de Martha Wayne a arrebentar.

Infelizmente, as virtudes no trabalho de Snyder param por aí: as sequências de ação, por exemplo, representam um verdadeiro caos visual, sendo construídas através de movimentos de câmera abruptos e de uma montagem que não compreende que cortes tão rápidos e numerosos exigem ao menos alguma organização cuidadosa da mise-en-scène para que o espectador consiga acompanhar o que está acontecendo. Para piorar, a paleta cinza, escura e dessaturada não só torna o longa esteticamente desinteressante como ainda transforma a experiência em 3D pavorosa (a montagem entrecortada também atrapalha). Como se não bastasse, a necessidade de garantir uma classificação indicativa mais leve obriga o realizador a desconsiderar (mais uma vez) os efeitos da violência que retrata, concentrando-se nos tiros em vez de nos alvos e praticamente ignorando os danos colaterais das batalhas que retrata (talvez o próximo filme comece mostrando o Flash revoltado ao testemunhar tudo à distância).

Mas estes problemas empalidecem diante do fraquíssimo roteiro, que, já de imediato, merece um banho de kryptonita ao apelar para várias sequências de sonhos/alucinações/conversas internas com personagens falecidos que, além de não acrescentarem nada à narrativa, ainda criam breves e dispensáveis momentos de confusão, quebrando também o ritmo da projeção. E se o que acontece no terceiro ato (e que, claro, não vou revelar) não provocar risos involuntários ou reações de “que porra é essa?”, é porque o espectador em questão já havia sido preparado pelos quadrinhos – o que, já adianto, não é desculpa para o filme em si, que deveria fazer sentido por si só em vez de simplesmente atirar... seja-lá-o-que-for-aquilo na história.

E se Cavill e Affleck exploram bem seus personagens (mesmo limitados pelo roteiro), o mesmo não pode ser dito sobre Jesse Eisenberg, que transforma Lex Luthor em uma coleção de tiques e maneirismos que convertem o vilão numa caricatura infantil que jamais soa ameaçadora (algo que se torna pior quando percebemos que, por trás de suas motivações, há o fato de ter... apanhado do pai). Para finalizar, Gal Gadot surge em cena – e isso é o máximo que posso dizer sobre sua personagem, que parece estar em um filme próprio, apenas cruzando eventualmente com os demais enquanto cuida de seus problemas, que nada parecem ter a ver com o restante da trama. E mesmo que eu aprecie a maneira como seus vestidos de festa trazem elementos metálicos que remetem ao uniforme que usará, isto não pode ser encarado como desenvolvimento de personagem, certo?

Pecando também na alteração súbita no comportamento dos personagens a partir do terceiro ato, Batman vs Superman ainda é um daqueles filmes que tentam provocar impacto dramático mesmo que o espectador saiba perfeitamente que as consequências vistas em cena não são exatamente “imutáveis”, sabotando o próprio esforço já de antemão. Para finalizar, a sequência de ação que ocupa todo o terceiro ato é um imenso desapontamento, apelando para uma criatura digital absurdamente genérica (já vi seres idênticos àquele em uns dez filmes) que torna impossível sentirmos qualquer urgência ou sombra de “realismo” (na falta de termo melhor) durante o que deveria ser o clímax da narrativa.

Ainda assim, Batman vs Superman não deixa de funcionar ao menos como um retrato da época em que vivemos: se há uns 40 ou 50 anos um longa trazendo os dois heróis provavelmente envolveria cores e alguma leveza, aqui vemos apenas sombras e tristeza – e quando até mesmo dois dos super-heróis mais “pacifistas” do gênero se entregam à matança inconsequente, é porque o mundo anda mesmo mal.

23 de Março de 2016

Assista também ao vídeo com comentários sobre o filme (sem spoilers):

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.