Críticas por Pablo Villaça

Poster: Capitão América: Guerra Civil
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
28/04/2016 06/05/2016
Distribuidora
Disney

 

 


Capitão América: Guerra Civil
Captain America: Civil War

Capitão América: Guerra Civil

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo. Roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely. Com: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Don Cheadle, Paul Bettany, Chadwick Boseman, Anthony Mackie, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Tom Holland, Marisa Tomei, Emily VanCamp, Daniel Brühl, William Hurt, Martin Freeman, John Kani, John Slattery, Alfre Woodard, Jim Rash, Hope Davis.

Entre hangares e aviões, uma dúzia de indivíduos dotados de superpoderes avançam uns contra os outros. Golpes potentes são disparados, objetos são arremessados apenas com o uso de gestos, combatentes voadores se engalfinham no ar e destroços acabam espalhados por todos os lados. Por si só, a ideia de super-heróis se enfrentando numa batalha desesperada já desperta interesse, obviamente, mas o que torna esta sequência – presente em Capitão América: Guerra Civil – tão impactante e dramática é o fato de compreendermos as motivações dos personagens envolvidos e nos preocuparmos com estes. Sem isto, o embate central do longa seria mera pirotecnia.

Claro que, para compreender completamente o que leva cada um a estar ali, é preciso assistir a uma penca de filmes produzidos pela Marvel ao longo dos últimos dez anos – a maioria deles eficiente, mas longe de alcançar o brilhantismo. Sim, o primeiro Homem de Ferro seguia como o melhor do grupo, ao passo que o terceiro apresentava-se como o pior, mas entre estes a qualidade artística se mantinha estável no nível “ok, gostei, mas não creio que um dia sentirei o impulso irresistível de revê-los” (estou falando de Homem de Ferro 2, Thor, Thor 2, Os Vingadores, Os Vingadores: Era de Ultron, Homem-Formiga, Capitão América: O Primeiro Vingador e Capitão América: O Soldado Invernal). Ainda assim, ao ver Guerra Civil, fiquei grato por ter acompanhado os capítulos anteriores, já que isto permitiu que, ao reencontrar aqueles personagens atirados uns contra os outros, suas reações ressoassem com mais vigor graças a tudo que viera antes, conferindo maior peso à narrativa.

Ao mesmo tempo, este trabalho dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo e roteirizado por Christopher Markus e Stephen McFeely jamais esquece que é, afinal de contas, uma fantasia protagonizada por seres essencialmente mágicos (imaginem se os poderes de Harry Potter viessem não de sua varinha, mas da picada de uma aranha radioativa) – e, assim, mesmo com toda a seriedade de sua trama, o longa jamais abandona uma certa (e importante) leveza mais do que apropriada a uma história envolvendo indivíduos que se vestem com uniformes coloridos e trocam piadinhas em meio a lutas sangrentas. Neste sentido, os irmãos Russo compreendem algo que aparentemente escapou a Zack Snyder em seu Batman vs Superman: ser “sério” não significa não ter vida. Com isso, percebemos e sentimos a dor de Tony Stark (Downey Jr.) e da Feiticeira Escarlate (Olsen) sem que seja necessário que a fotografia invista num filtro cinza que remova praticamente todas as cores durante toda a projeção.

(Aqui cabe uma observação, já que apenas recentemente descobri haver uma rivalidade imensa entre fãs da DC e da Marvel: como não tenho o hábito de ler HQs, não faço qualquer distinção entre os dois universos em termos de preferência pessoal – e elogiei fartamente a trilogia comandada por Christopher Nolan, por exemplo. Assim sendo, deixem de lado quaisquer teorias de conspiração; podem me chamar de “o isentão dos filmes de super-heróis”.)

Adotando o senso de humor de maneira bem mais eficaz do que em Os Vingadores, que investia insistentemente em piadinhas bobas em momentos nos quais deveria estar focado em outras prioridades narrativas, Guerra Civil emprega o humor de forma pontual e precisa, usando as tiradas de forma orgânica, provocando um riso que funciona como alívio cômico em vez de como motor da trama e seguindo em frente sem sacrificar a seriedade da história. Além disso, o filme tampouco força a mão ao tentar comunicar elementos mais dramáticos, realizando a tarefa visualmente e de forma sutil, por exemplo, ao ilustrar a tentativa de Visão (Bettany) de se ajustar a uma existência mais humana ao vestir pulôveres cinza-azulados que soam absurdos em seu corpo colorido ou ao trazer Stark sentado a certa distância da mesa na qual os Vingadores se reúnem para ouvir o parecer do Secretário de Estado Thaddeus Ross (Hurt), demonstrando, com isso, a típica natureza rebelde que irá se contrapor à sua decisão de submeter o grupo ao controle da ONU. Para completar, em diversos instantes a obra descarta qualquer diálogo para pontuar a decepção ou a apreensão de um personagem com relação às atitudes de outro, optando, em vez disso, por tentar apresentá-las através dos olhares e da expressão corporal do elenco competente.

Neste aspecto, vale apontar, cada intérprete acaba ganhando a oportunidade de desenvolver aspectos interessantes da personalidade do herói que vive: Chris Evans, por exemplo, ilustra o apego emocional do Capitão América a Bucky/Soldado Invernal (Stan), que se torna ainda maior por este ser o último remanescente de sua época original. Da mesma forma, esta amizade obviamente acaba por cegá-lo para outros fatos que deveriam ser considerados antes de qualquer atitude impensada, o que o leva a adotar uma postura arrogante – e, sim, autoritária – que torna o autocontrole de Stark ainda mais surpreendente. Robert Downey Jr., por sinal, finalmente volta a ter a oportunidade de demonstrar sua versatilidade como ator depois de passar a última década preso aos maneirismos de Stark – e, aqui, ele consegue evocar muitíssimo bem as dúvidas do bilionário e principalmente sua dor em um momento-chave da projeção. Por outro lado, Scarlett Johansson se destaca pela fisicalidade da Viúva Negra, que, ao seu próprio modo, se estabelece como – e me perdoem a expressão, mas não há outra mais apropriada – a mais foda entre todos, já que, mesmo sem qualquer superpoder, jamais se submete ao papel de “mocinha em perigo”, enfrentando os inimigos com a mesma segurança que o Superman teria ao confrontar batedores de carteira.

(“Como você se atreve a fazer uma comparação usando personagens de universos diferentes?!?!” Shhh, acalme-se: já falei que sou isentão.) (Se você estiver lendo este texto em 2030 e não compreender o que quero dizer com “isentão”, uma rápida explicação: no surreal período de 2015-2016, este termo passou a ser usado para se referir pejorativamente a qualquer pessoa racional que tente ponderar os fatos em vez de se entregar a discursos baseados em agressividade e subjetividade.)

Mas, claro, Stark, Capitão América e Viúva Negra são apenas três dos vários personagens presentes em Guerra Civil e, assim, em vez de analisar um por um, prefiro destacar mais três deles: o Pantera Negra, que é encarnado por Chadwick Boseman com uma formalidade mais do que apropriada que o posiciona como o mais sério e “adulto” dos heróis; o Homem-Aranha de Tom Holland, cujo espírito apropriadamente juvenil rivaliza apenas com sua empolgação diante do novo mundo que descobre graças aos seus poderes (e que já prometem torná-lo a melhor versão cinematográfica de Peter Parker); e, finalmente, o Homem-Formiga, que, graças ao timing cômico de Paul Rudd, praticamente rouba todas as cenas das quais participa.

Impecável também na condução das sequências de ação, Guerra Civil demonstra uma clara evolução por parte dos irmãos Russo, que coreografam bem a longa perseguição envolvendo carros e motos no segundo ato, o confronto que discuti no início deste texto (e durante a qual sempre compreendemos como cada superpoder é empregado em conjunção ou em resposta aos demais) e, principalmente, a luta que ocorre no clímax e que, além de brutal, encontra tempo para enfocar as reações emocionais dos três homens envolvidos. (Em contrapartida, se tropeçaram com a ponta desnecessária de Danny Pudi em Soldado Invernal, desta vez a ponte com Community - da qual participaram como diretores de alguns episódios – é feita através da ponta também desnecessária de Jim Rash.)

Dramaticamente complexo ao criar conflitos nos quais todos agem por motivos nobres e que jamais facilitam o posicionamento do espectador através de alguma revelação que dê mais razão a este ou aquele personagem, Guerra Civil é memorável justamente ao demonstrar que, muitas vezes, não há um lado “certo” ou “errado” em uma guerra, apenas visões diferentes que deveriam ter sido conciliadas através do diálogo em vez de apelar para confrontos que só trarão mais dores e complicarão tudo (e, neste aspecto, é fascinante que até mesmo a motivação do vilão vivido por Daniel Brühl seja compreensível – e, para mim, a mais dolorosa).

Certamente se estabelecendo como o melhor entre todos os longas produzidos pela Marvel até agora, Capitão América: Guerra Civil é divertido sem ser inconsequente, sério a respeito de seus temas sem ser artificialmente sombrio e – não menos importante - um belo espetáculo de ação sem jamais sacrificar o desenvolvimento de seus personagens.

Observação: há cenas adicionais durante e após os créditos finais.

28 de Abril de 2016

Assista também ao videocast sobre o filme (SEM spoilers):

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.