Críticas por Pablo Villaça

Poster: Cinema Novo
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/10/2016 17/05/2016
Distribuidora
Vitrine Filmes

Direção

Eryk Rocha

Roteiro

Eryk Rocha

Montagem

Renato Valone

 

 


Cinema Novo
Cinema Novo

Cinema Novo

Dirigido por Eryk Rocha.

Em certo momento de Cinema Novo, documentário sobre o movimento homônimo, o cineasta Leon Hirszman surge em uma entrevista concedida na década de 80 explicando que um dos maiores problemas do Cinema brasileiro residia na distribuição/exibição. Infelizmente, esta é uma das muitas declarações presentes no filme que, feitas há décadas, poderiam ter sido ditas hoje.

Aliás, em muitos casos, as comparações são desfavoráveis aos nossos dias: se antes havia uma distribuidora como a DiFilme, por exemplo, que cuidava de boa parte dos longas nacionais, dedicando-se ao máximo a cada um, hoje a situação é a de cada um por si: se diversas besteiras produzidas pela Globo Filmes alcançam centenas de telas, preciosidades vistas em festivais jamais chegam a encontrar os olhos do público (um exemplo que me vem à mente é o magnífico A Despedida, que vi em Gramado em 2014 e só veio a entrar no circuito – em pouquíssimas salas – em junho de 2016). Parte da culpa, claro, também pode ser atribuída aos espectadores, já que não são poucos os que abraçam um preconceito absurdo contra nossas produções – e o próprio Cinema Novo só passou a ser mais respeitado e visto no Brasil depois de ter vencido prêmios em Cannes, Berlim e ser ovacionado pelas críticas francesa e italiana.

A triste ironia é que, de todas as correntes da História do nosso Cinema, o movimento que surgiu no início da década de 60 e perseverou até a de 70 foi certamente aquele que mais se preocupava em representar nosso povo e nossa cultura, dando espaço político a quem não tinha espaço algum, criando personagens que falavam e viviam como brasileiros e buscando fazer tudo isso enquanto desenvolvia uma linguagem cinematográfica nova, vibrante e nossa, mesmo que nenhum de seus integrantes negasse a influência de autores estabelecidos (de acordo com o longa, havia uma forte e amigável divisão entre aqueles que seguiam Roberto Rossellini, John Ford e Sergei Eisenstein).

Contando com uma excepcional pesquisa de arquivo, esta obra dirigida pelo filho de Glauber traz registros de entrevistas fascinantes em áudio e também em vídeo com figuras como Hirszman, Glauber, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cézar Saraceni, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Ruy Guerra, entre outros – e é igualmente bacana perceber a reverência destes cineastas por aqueles que consideravam seus precursores, como Humberto Mauro e Mário Peixoto. Além disso, o filme comprova como aqueles cineastas eram não apenas companheiros de movimento, mas também colaboradores, apoiadores e amigos, muitas vezes alternando o uso da moviola para montarem as obras uns dos outros.

Porém, Eryk Rocha vai além e também transforma seu projeto em um ensaio visual sobre a riqueza e a força das imagens criadas pelo Cinema Novo, criando ligações, através da montagem, que constroem raccords e novos sentidos entre diversos filmes, como ao levar personagens de produções diferentes reagindo ao mesmo som ou ao trazer a explosão de um barranco que transforma o movimento de queda da terra no nascimento de Macunaíma – um jogo de relações espaciais e semânticas que fazem jus ao clássico curta experimental A Movie, de Bruce Conner (um daqueles títulos seminais que, lamentavelmente, poucos cinéfilos conhecem).

Como se não bastasse, Cinema Novo conta com uma triste coincidência histórica, já que, ao discutir o contexto político daquela escola, naturalmente lembra do golpe de 64 e as condições que o tornaram possível, desde o pavor da burguesia diante da “ameaça comunista” (que já era ridículo na década de 60 e soa como pura estupidez em 2016) até a tentativa dos fascistas de se apresentarem apenas como um regime liberal a fim de evitarem a caracterização de “golpe”. Aliás, quando Rocha inclui um registro de um encontro de vários expoentes do Cinema Novo e logo depois corta para os rostos de várias pessoas comuns, a mensagem política é clara: aqueles eram reflexo destes e estes eram a motivação daqueles.

Com as pontas amarradas em uma rima elegante que traz uma montagem com vários personagens de diversos longas correndo em diversas cenas, este excelente documentário parece estar ressaltando para o espectador como o país e seu Cinema seguem disparados mesmo diante de todos os problemas, pois não podemos parar jamais. Afinal, como alguém diz durante o filme, “se você perde a democracia e a liberdade, perde a capacidade de fazer poesia”.

E sem poesia a vida perde a cor.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

17 de Maio de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.