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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/07/2016 15/07/2016 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Sony
Duração do filme
116 minuto(s)

As Caça-Fantasmas
Ghostbusters

Dirigido por Paul Feig. Roteiro de Paul Feig e Katie Dippold. Com: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Leslie Jones, Kate McKinnon, Chris Hemsworth, Neil Casey, Andy Garcia, Cecily Strong, Ed Begley Jr., Zach Woods, Charles Dance, Karan Soni, Nate Corddry, Toby Huss, Michael McDonald, Michael Kenneth Williams, Matt Walsh, Steve Higgins.

Há alguns anos, decidi que iria parar de acompanhar notícias sobre filmes ainda em produção, já que a ideia de assistir a uma obra sem fazer a menor ideia do que esperar me agradava. De modo geral, a estratégia tem dado certo, embora, em alguns casos, seja absolutamente impossível escapar de notícias relacionadas a determinados projetos – e um destes, claro, foi Caça-Fantasmas, graças à revolta de certos fãs ao descobrirem que a nova versão seria protagonizada por mulheres. “Vão arruinar minha infância!”, protestavam. Curiosamente, lembro-me de quando assisti a Os Caça-Fantasmas 2, na adolescência, e constatei, desapontado, como era uma continuação medíocre que claramente tinha apenas interesses econômicos como prioridade. Será que eu poderia dizer, então, que Os Caça-Fantasmas 2 arruinou minha infância?


Pois acalmem-se: o longa dirigido por Paul Feig não só faz jus ao excelente original como supera – e muito – sua sequência de 1989. Ignorando os eventos ocorridos nos dois filmes anteriores, Caça-Fantasmas (por que o medo de incluir o artigo “As”, Sony Brasil, se os anteriores traziam “Os”?) é, a rigor, um reboot do universo concebido por Dan Aykroyd e Harold Ramis que, agora, se concentra nas cientistas Erin Gilbert (Wiig) e Abby Yates (McCarthy), antigas amigas que, coautoras de um livro sobre paranormalidade, romperam quando a primeira decidiu renegar o trabalho por querer construir uma carreira respeitável no meio acadêmico. Porém, quando aparições começam a aterrorizar cidadãos por toda Nova York, as duas voltam a trabalhar juntas, sendo agora acompanhadas pela engenheira Jillian Holtzmann (McKinnon) e pela ex-funcionária do metrô Patty Tolan (Jones).

A ideia de reiniciar a série, aliás, coloca o roteiro de Feig e Katie Dippold em uma situação curiosa: embora o novo longa só exista, obviamente, graças ao original, ele deve se estabelecer de forma independente, homenageando sua inspiração (caso contrário, os fãs enlouqueceriam de vez) enquanto deixa claro seu próprio caminho. Pois bem: ainda que seja bem-sucedido neste último propósito, As Caça-Fantasmas acaba falhando no primeiro justamente ao exagerar nas referências. Sim, é bacana ouvir o velho tema de Ray Parker Jr. saltando das caixas de som enquanto vemos Nova York em planos aéreos – e é eficiente, a ideia de ir reconstruindo a mitologia da franquia aos poucos ao mostrar a logomarca piscando aqui, um verso da canção icônica sendo ouvido ali e a melodia desta aparecendo acolá. Por outro lado, ao sentir-se obrigada a incluir pontas de praticamente todos os envolvidos no filme de 84, esta nova produção acaba inchando e criando cenas não só completamente desnecessárias (e, portanto, descartáveis) como também sem qualquer graça – e a pior delas é justamente aquela que provavelmente também seria a mais antecipada.

Por sorte, estes equívocos são pontuais (há um trocadilho aqui?), já que a maior parte da narrativa é dedicada às novas personagens, que não só se mostram consideravelmente diferentes dos originais como ainda estabelecem uma dinâmica própria e eficaz: se a relação entre Erin e Abby ocupam o centro emocional da narrativa, os modos expansivos de Patty e seu conhecimento acerca da cidade funcionam como piada própria e justificativa para sua inclusão no grupo – e se Kristen Wiig e Melissa McCarthy divertem, mesmo que mais contidas do que de hábito (especialmente esta última), Leslie Jones exibe uma presença intensa e forte. No entanto, por melhores que as três sejam, o destaque absoluto fica por conta de Kate McKinnon, que compõe Holtzmann como uma representação física da pura insanidade. Lendo minhas anotações feitas durante a projeção, aliás, encontrei uma penca de variações de “Holtzmann louca”, “Holtzmann está sempre drogada?” e “Holtzmann WTF?!”, sendo notável como McKinnon consegue roubar a cena mesmo quando se encontra calada e ao fundo, já que parece estar sempre prestes a fazer algo absurdo. Para completar o elenco principal, Chris Hemsworth surpreende com seu timing cômico ao encarnar a caricatura da beldade estúpida, sendo responsável por algumas das melhores tiradas do longa (e minhas favoritas, sem entregar nada, são aquelas envolvendo duas fotos e o que ele faz quando não quer escutar algo).

Considerando o elenco, diga-se de passagem, não poderia haver escolha mais apropriada para conduzir o projeto do que Paul Feig, um diretor que, depois de torturar as plateias com o pavoroso Menores Desacompanhados, finalmente encontrou a própria voz cômica (no Cinema, pois na TV já era um veterano) ao se especializar em histórias protagonizadas por mulheres e iniciar sua parceria com McCarthy, começando com o hilário Missão: Madrinha de Casamento e passando pelos também eficientes As Bem-Armadas e A Espiã que Sabia de Menos. Além de conseguir extrair uma ótima química de seus elencos e explorar com inteligência a improvisação (mas sem perder o foco como Adam McKay ocasionalmente faz ao dirigir Will Ferrell), Feig ainda elabora relativamente bem as sequências de ação, evitando complicá-las desnecessariamente e permitindo que o espectador as acompanhe com facilidade. Contudo, talvez sua grande sacada em As Caça-Fantasmas seja a maneira brilhante como utiliza a linguagem 3D, usando o letterbox (aquelas faixas escuras acima e abaixo do quadro) para permitir que elementos pareçam escapar não só da tela, mas do próprio universo do filme.

Mantendo a coerência com os dois primeiros longas ao resgatar sua lógica visual (mesmo existindo independentemente), o design de produção de Jefferson Sage introduz suas próprias novidades (como as várias armas criadas por Holtzmann) ao mesmo tempo em que respeita os elementos já estabelecidos, como os padrões dos figurinos e de objetos de cena, o estilo do quartel-general das heroínas e os esquemas de cores dos efeitos sobrenaturais (com a apropriada dominância do verde-esmeralda, sempre associado a destruição e ameaça) e dos feixes de prótons. Para completar, Feig e sua equipe adotam uma estética realmente assustadora na concepção de seus fantasmas (com a exceção de um velho amigo), o que se revela um acerto.

Divertido ao ironizar ocasionalmente a misoginia daqueles que protestaram contra a refilmagem, As Caça-Fantasmas não só inclui piadas a respeito que certamente vieram do improviso das atrizes como apresenta o vilão como um nerd solitário, amargo e sexista que – claro – em certo momento acaba sendo atingido pelas heroínas em uma parte sensível de sua anatomia numa ação que, aqui, não deixa de carregar um peso simbólico óbvio. Em contrapartida, o filme traz também um número de tiradas que simplesmente não atingem o resultado esperado, além de falhar terrivelmente não só na ponta de certa figura (como já mencionei), mas ao deixar claro que esta foi rodada separadamente, sem uma interação verdadeira entre os atores em cena.

Na maior parte do tempo, porém, a obra funciona admiravelmente bem – e, ao contrário dos tais machistinhas raivosos, confesso ficar bem feliz por  saber que minha filha está crescendo em uma época na qual as princesas da Disney se viram sozinhas, jovens corajosas protagonizam séries como Jogos Vorazes e Divergente (qualidade à parte), a principal jedi de Star Wars é uma mulher e os espíritos maldosos do mundo agora devem temer quatro divertidas e valentes caçadoras de fantasmas.

Observação: há cenas adicionais durante e após os créditos finais.

12 de Julho de 2016

Veja também o videocast (sem spoilers) sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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