Críticas por Pablo Villaça

Poster: Snowden: Herói ou Traidor
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/11/2016 16/09/2016
Distribuidora
Disney

 

 


Snowden: Herói ou Traidor
Snowden

Snowden: Herói ou Traidor

Dirigido por Oliver Stone. Roteiro de Oliver Stone e Kieran Fitzgerald. Com: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Zachary Quinto, Melissa Leo, Tom Wilkinson, Joely Richardson, Nicholas Rowe, Timothy Olyphant, Bhasker Patel, Scott Eastwood, Keith Stanfield, Logan Marshall-Green, Ben Chaplin, Ben Schnetzer, Rhys Ifans e Nicolas Cage.

Quando os primeiros artigos detalhando as revelações feitas por Edward Snowden foram publicados, minha primeira reação, confesso, foi de quase indiferença. “Então o governo norte-americano vem espionando conversas particulares? Qual é a novidade?”, pensei, já resignado – e isto é o mais triste – à realidade de que um mundo todo conectado pela Internet certamente implica em alguma perda de privacidade. Além disso, por que eu deveria me preocupar se não tinha nada a esconder, não planejava qualquer ato ilegal e nem possuía ligações reais com nenhum indivíduo poderoso?

Aos poucos, porém, à medida que a verdadeira dimensão das ações da NSA (Agência de Segurança Nacional) se tornava clara, constatei o erro primário de minha racionalização: eu não precisava ter algo a esconder para ser monitorado. Na realidade, bastaria empregar, mesmo que casualmente ou por brincadeira, algumas palavras-chave em um tweet, um e-mail ou mesmo uma mensagem inbox no Facebook para cair nos resultados do rastreamento automático da agência, que, a partir daí, poderia facilmente vasculhar vídeos, posts, e-mails particulares ou mesmo acionar  webcams (sem acender a luz que indicaria seu funcionamento) não só meus, mas de toda a minha família e círculo de amigos. E também da família e do círculo de amigos destes. O que poderia ser considerado um absurdo mais apropriado a uma ficção distópica havia se tornado o cotidiano dos serviços de espionagem dos Estados Unidos.

Como é mesmo a velha frase? “Não é paranoia se eles realmente estão atrás de você.”

E o que descobrimos em 2013 é que de fato estão.

Escrito pelo diretor Oliver Stone ao lado de Kieran Fitzgerald, Snowden se baseia em dois livros (um jornalístico, outro “ficcional”) para recontar não apenas a trajetória do personagem-título (Gordon-Levitt), mas principalmente seu incômodo crescente diante dos abusos que testemunhou durante o período em que trabalhou na CIA e na NSA e que o levariam a entregar milhares de arquivos ao jornalista Glenn Greenwald (Quinto) e à documentarista Laura Poitras (Leo). Aliás, a decisão de estruturar a narrativa em torno dos vários encontros entre os três (e que foram retratados no ótimo documentário de Poitras, Citizenfour) é lógica e eficaz, servindo para ancorar os flashbacks que, iniciando em 2004, acompanham Snowden desde sua breve passagem pelo Exército até o presente, ilustrando sua conversão de jovem conservador fã de Ayn Rand, crítico da “mídia liberal” e avesso à ideia de criticar seu país em um “traidor” (do ponto de vista legal) consciente de que os valores de seu país não são necessariamente os dos que o controlam.

Trata-se de uma história feita sob encomenda para as sensibilidades particulares de um cineasta como Oliver Stone, que construiu sua carreira realizando obras com um forte viés político que frequentemente questionam o establishment e desafiam as percepções do cidadão comum acerca das altas esferas nas quais as decisões que nos impactam são tomadas – sejam estas econômicas (Wall Street e sua continuação), políticas (JFK, W., Nixon) ou mesmo midiáticas (Assassinos por Natureza). Acostumado a questionar o poder estabelecido, Stone não vê a questão central deste seu novo filme como ligada a um partido específico, mas a um sistema inerentemente corrompido, o que lhe permite apontar o dedo não só para Bush (como alguns poderiam esperar), mas também para Obama, Hillary e todos que vendem a ideia de que sacrificar a liberdade por “segurança” é um bom negócio. Aliás, mais do que isso: Snowden é uma obra que ostensivamente denuncia como a ameaça do “terrorismo” é usada como uma desculpa conveniente para permitir que os governantes usem os serviços de vigilância como forma de controle econômico, político e social, espionando líderes de outras nações e de grandes corporações estrangeiras a fim de encontrar espaços que permitam a expansão dos interesses norte-americanos.

Mas o longa é também um estudo moral sobre as motivações de um jovem que tinha todas as razões para permanecer quieto e, mesmo assim, atirou tudo para o alto a fim de seguir o que a consciência lhe ditava. Perfeitamente ciente das consequências de seus atos, Edward Snowden sabia estar abrindo mão de seu país, de sua liberdade e possivelmente de sua vida, o que não o impediu de se juntar a figuras como Mark Felt (o “Garganta Profunda”), Daniel Ellsberg e Chelsea Manning na lista de indivíduos que expuseram segredos em prol do bem comum. Este idealismo, aliás, é algo que Joseph Gordon-Levitt evoca com talento ao compor sua versão de Snowden, replicando a cadência de fala e as inflexões calmas que sugerem a racionalidade admirável do sujeito (e é impressionante como o ator captura com exatidão a voz de Snowden e sua postura corporal, bastando assistir a Citizenfour para perceber como até o modo como ele senta na cama é uma cópia precisa do personagem real). Além disso, Gordon-Levitt desenvolve uma dinâmica eficaz com a competente Shailene Woodey, forjando um centro emocional fundamental para que constatemos tudo que ele se dispôs a sacrificar em nome do que julgava correto.

Enquanto isso, Oliver Stone se mostra bem mais contido do que o habitual ao conceber sua estratégia narrativa; sim, há momentos nos quais ele faz cortes em sequência, zooms rápidos, inclui planos-detalhe inesperados que revelam elementos do cenário (como reflexos partidos ou a superfície de máquinas de criptografia) ou mesmo intercala imagens de outras fontes diegéticas (como as fotos de Lindsay, personagem de Woodley, ou os registros em vídeo de Poitras), mas estas firulas estéticas exibem uma disciplina notável. Este controle, vale apontar, é parte também do excelente trabalho do veterano Anthony Dod Mantle, que pontualmente altera a textura da fotografia para indicar pontos de vista diversos (como, de novo, o de Poitras) ou o estado emocional dos personagens (como ao saturar a paleta e empregar flares para apontar a alegria momentânea do herói). Da mesma forma, é interessante observar como aqui e ali Stone e Mantle incluem planos que parecem observar Snowden à distância, insinuando seu receio de estar sob monitoramento.

Neste sentido, aliás, o diretor cria dois planos memoráveis que igualmente salientam esta atmosfera angustiante de vigilância: em um, nos aproximamos da lente de uma webcam até esta parecer se transformar em um olho; em outro, as conexões entre vários indivíduos espionados são ilustradas como redes que, ao se espalharem, também formam uma íris, completando a bela rima visual. Outra decisão brilhante do cineasta e de seu diretor de fotografia reside na maneira como enfocam um ataque de drone no Oriente Médio: primeiro, acompanhamos a explosão através do monitor remoto, em uma imagem com baixa resolução, alto contraste e em preto e branco; em seguida, revemos o mesmo evento em cores e dominando toda a tela, expondo o que facilmente escolhemos ignorar – que investidas como aquela são brutais, têm consequências reais e custam vidas.

Este, claro, é o prazer de acompanhar o trabalho de um diretor talentoso e experiente: perceber como pequenas decisões nos movem quase inconscientemente. Notem, por exemplo, a cena em que o engenheiro vivido por Nicolas Cage (em modo “ser humano”) diz ter sido segregado ao protestar contra uma decisão e percebam como, naquele exato momento, a câmera se move, atirando o ator para o canto esquerdo do quadro, mais fraco, ilustrando precisamente o fato de ele ter sido jogado para o escanteio. Já mais tarde, quando Snowden conversa com seu mentor, que questiona suas atitudes, Stone retrata o superior (Ifans) como uma presença gigantesca em uma tela que domina a sala, evocando a imagem icônica do Big Brother de 1984 (e tampouco é coincidência que este personagem – fictício – se chame O’Brien, completando a referência ao remeter ao agente da Polícia do Pensamento do livro de Orwell).

Impecável também em seu design de produção (gosto particularmente de como a oficina do personagem de Cage é apresentada como um lugar antiquado, remetendo aos seus valores ideológicos tradicionais e agora ultrapassados), Snowden conta ainda com uma trilha sonora fabulosa de Craig Armstrong e Adam Peters, que chegam a incorporar sutis ruídos de modems antigos em certas passagens que trazem o protagonista ansioso em função de suas descobertas, substituindo-os pelo assobio de pássaros em outro ponto da narrativa no qual o rapaz se encontra mais relaxado.

Ainda assim, méritos narrativos à parte, Snowden se converte num dos filmes mais importantes de 2016 ao escancarar como as agências de Inteligência norte-americanas há muito deixaram de fazer uma coleta passiva de dados, construindo uma rede de vigilância tão onipresente que, em certo ponto, a única forma encontrada pelo herói para se comunicar é através da linguagem de sinais, num exagero artístico que fortalece a denúncia nada exagerada do longa.

Pois o fato é que, promessas à parte, o governo de Obama pouco fez para desmantelar a estrutura criada pela NSA, transformando em decisão política o que deveria ser uma determinação judicial talvez por acreditar (e estou sendo generoso) que, em última análise, saberia agir com alguma responsabilidade ao lidar com o maior aparato de espionagem já idealizado por um país.

E que em poucas semanas, vale lembrar, irá se encontrar nas pequenas e inescrupulosas mãos do recém-eleito presidente Donald Trump.

Agora respirem fundo.

12 de Novembro de 2016

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Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.