Críticas por Pablo Villaça

Poster: Animais Fantásticos e Onde Habitam
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/11/2016 18/11/2016
Distribuidora
Warner

 

 


Animais Fantásticos e Onde Habitam
Fantastic Beasts and Where to Find Them

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Dirigido por David Yates. Roteiro de J.K. Rowling. Com: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler, Alison Sudol, Colin Farrell, Carmen Ejogo, Samantha Morton, Ezra Miller, Jon Voight, Ronan Raftery, Josh Cowdery, Faith Wood-Blagrove, Jenn Murray, Ron Perlman e Johnny Depp.

Parece que foi ontem. Sentado no chão do saguão do cinema, eu aguardava, ao lado de dúzias de fãs bem mais jovens do que eu, a abertura da sala na qual o primeiro capítulo da série Harry Potter seria exibido. Era novembro de 2001 e, ao longo dos dez anos seguintes, o rico universo concebido pela escritora J.K. Rowling se expandiria consideravelmente, apresentando-nos a uma galeria de personagens multifacetados que viveriam uma história cada vez mais sombria até um desfecho catártico que amarrava com segurança todas as pontas da narrativa. A sensação era agridoce: por um lado, uma longa jornada havia se completado e tentar prolongá-la poderia torná-la frágil; por outro, era triste ter que abandonar aquele mundo e seus habitantes.

Pois o problema foi resolvido com este Animais Fantásticos e Onde Habitam, que, ambientado sete décadas antes do nascimento de Potter e em outro continente, nos transporta novamente para a fértil imaginação de Rowling ao começar uma nova trama independente daquela que já conhecíamos – e foi somente ao ouvir os primeiros acordes do tema composto por John Williams (aqui substituído por James Newton Howard) que percebi como estava com saudade de visitá-la.

Roteirizado pela própria escritora (seu primeiro esforço na área), o longa acompanha o magizoólogo britânico Newt Scamander (Redmayne) em sua primeira visita a Nova York, em 1926. Carregando uma mala que humilha a bolsa de Mary Poppins em sua dimensão interna, o bruxo transporta ali uma infinidade de animais resgatados ao redor do planeta e que, depois de uma troca acidental de bagagens com o humano Jacob Kowalski (Fogler), acabam fugindo e se espalhando pela cidade. Acompanhado por Jacob, pela auror (uma espécie de investigadora mágica) Tina (Waterston) e pela irmã desta, Queenie (Sudol), Scamander tenta encontrar os bichos – uma tarefa que se complica em função dos misteriosos ataques que vêm ocorrendo na região e que podem ou não estar ligados ao cruel mago Gellert Grindelwald.

Dirigido pelo mesmo David Yates que comandou os quatro últimos capítulos da franquia original, Animais Fantásticos conta desde o princípio com a mesma atmosfera sombria daqueles filmes, envolvendo todos os seus personagens em figurinos escuros ou acinzentados que combinam com o céu constantemente nublado e a fotografia dessaturada e triste de Philippe Rousselot – e se os habitantes desta Nova York parecem sempre melancólicos, o tom se torna definitivamente deprimente quando conhecemos a amarga Mary Lou Barebone (Morton), uma religiosa que prega a necessidade de uma “segunda Salem” a fim de livrar o mundo dos bruxos nos quais ninguém mais acredita, já que estes se esforçam para evitar que os humanos se tornem cientes de sua existência. Sempre acompanhada dos três filhos adotivos que, como ela, se vestem como se saídos diretamente do século 17, Mary Lou ocupa com a família uma pequena igreja de madeira na qual costuma servir refeições para as crianças da região a fim de monitorá-las quanto a qualquer influência sobrenatural – falhando em perceber, curiosamente, como dois de seus filhos adotivos, Credence (Miller) e Modesty (Wood-Blagrove), vêm exibindo um comportamento atípico.

O primeiro, em especial, é encarnado por Ezra Miller como um jovem cuja postura corporal sugere uma tentativa constante de manter-se invisível para os que o cercam, como se soubesse que qualquer atenção que viesse a receber resultaria em dor e decepção – e eu não me espantaria caso o personagem protagonizasse sua própria história sob o título Precisamos Falar Sobre o Credence, já que seu intérprete cria uma figura tão incômoda quanto o estudante que viveu naquele trabalho com Tilda Swinton (embora Creedence, ao contrário de Kevin, desperte apenas pena). Em contrapartida, Eddie Redmayne, um ator que costuma me incomodar pela artificialidade de suas composições (como discuti ao escrever sobre A Teoria de Tudo e A Garota Dinamarquesa), aqui encontra o papel perfeito para seu estilo, já que, por estar em um mundo fantástico, pode conceber Newt com maneirismos óbvios que vão desde sua dificuldade em encarar seus interlocutores até o gaguejar pontual, passando por aquele que é o elemento mais importante de sua performance: o olhar puro, impossivelmente inocente e sempre encantado que Scamander lança para tudo ao seu redor (e os cabelos levemente despenteados e a gravata borboleta completam com perfeição sua figura jovial e pouco acostumada em interagir com outras pessoas).

Aliás, o elenco de Animais Fantásticos segue a linha de seus predecessores (ou “sucessores”, como queiram), escalando atores para os quais dificilmente imaginaríamos alternativas: Katherine Waterston, por exemplo, vive Tina com modos tímidos e inseguros que escondem uma inesperada coragem, enquanto Dan Fogler evita converter Jacob na caricatura do gordinho engraçado, servindo pontualmente como alívio cômico, mas jamais permitindo que isto defina seu personagem, que enfrenta seus próprios dilemas e percorre seu próprio arco dramático. E se Alison Sudol encarna Queenie como uma jovem com imensa capacidade de empatia e sorriso constante, Colin Farrell transforma Graves num homem de expressão cerrada e modos determinados que exalam competência.

Mas o aspecto mais fascinante da produção é mesmo a maneira como constrói um universo que, oculto sob a superfície do nosso, soa verossímil apesar de sua natureza mágica, já que traz uma infinidade de pequenos detalhes que nos fazem vê-lo como um lugar realmente há muito habitado e com uma cultura e uma lógica próprias: faz sentido, por exemplo, que eles tenham uma versão dos nossos engraxates, mas que ali se dedicam a polir varinhas, e é claro que a burocracia governamental da sociedade bruxa opera sozinha, contando com máquinas de escrever que datilografam sem ajuda e com memorandos que brigam sobre as mesas enquanto voam em direção aos departamentos apropriados (e o melhor é que Yates não se detém sobre estes elementos, exibindo-os quase que de passagem enquanto acompanhamos o caminhar dos personagens). Para completar, é magnífico o conceito dos diversos ecossistemas contidos na maleta de Scamander e que parecem ser divididos por telas que conseguem ser simultaneamente bi e tridimensionais. (A propósito: a conversão para o 3D é eficiente, embora não imprescindível.)

O que nos traz finalmente às criaturas do título e que comprovam a inventividade de J.K. Rowling ao mesmo tempo em que trazem uma importante leveza para a história graças ao charme dos animais – como aquele que soa como um ornitorrinco cleptomaníaco, outro que lembra um rinoceronte cuja cabeça parece estar cheia de lava e, claro, uma simpática plantinha que surge como um cruzamento entre Groot e uma folha de capim. Estes seres, vale apontar, são trazidos à vida com uma competência técnica impecável pelos animadores, que também acertam ao criar um emaranhado cinza e ondulante para caracterizar o ser destrutivo da trama e que só posso descrever como sendo a representação física de um embrulho no estômago.

E há, como não poderia deixar de ser (já que Rowling tem um fraco por alegorias), os elementos temáticos subjacentes às tramas desenvolvidas pelo filme: se o fundamentalismo religioso e suas consequências devastadoras estão presentes na figura de Mary Lou, a mistura deletéria da política com a grande imprensa pode ser observada através da relação entre o magnata da mídia vivido por Jon Voight e a pré-campanha de seu filho à presidência. No entanto, a preocupação mais patente da roteirista é mesmo a preservação ambiental, cuja importância é representada pelas ações e obsessões do protagonista, originando também uma analogia entre os ovos cujas cascas são feitas de prata, sendo destruídos por caçadores por seu valor, e (por exemplo) o marfim das presas dos elefantes. Além disso, Rowling faz uma crítica (pouco) velada ao conservadorismo norte-americano ao conceber os políticos bruxos do país como figuras que insistem em leis que, entre outras coisas, exigem a segregação. (Tolerância e aceitação das diferenças sempre foram temas preciosos para a escritora.)

Diferente da série Harry Potter por jamais se concentrar em personagens infantis ou adolescentes, Animais Fantásticos e Onde Habitam é um filme que, mesmo tendo o cuidado de contar uma história com começo, meio e fim, é inteligente o bastante para deixar pequenas pontas para explorar nas continuações e bom o suficiente para que desejemos vê-las o mais rapidamente possível.

Como é bom estar de volta.

16 de Novembro de 2016

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Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.