Poster: Rogue One: Uma História Star Wars

 

 

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Banner: Rogue One: Uma História Star Wars

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
15/12/2016 16/12/2016
Disney

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Gareth Edwards. Roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy. Com: Felicity Jones, Diego Luna, Donnie Yen, Jiang Wen, Riz Ahmed, Ben Mendelsohn, Jimmy Smits, Genevieve O’Reilly, Ben Daniels, Valene Kane, Warwick Davis, Mads Mikkelsen, Forest Whitaker e as vozes de Alan Tudyk e James Earl Jones.

Em certo momento de Rogue One, o veterano rebelde Saw Gerrera questiona se a jovem Jyn Erso, que reluta em se juntar à causa, não se importa de ver as bandeiras do Império espalhadas pela galáxia. A resposta da garota, como tantas falas comumente subestimadas na saga Star Wars, revela grandes verdades saídas de frases aparentemente triviais: “Não há problema; é só não olhar para cima”. Com isso, a protagonista não apenas fortalece seu próprio arco dramático como comenta algo maior ao apontar como a submissão à opressão é uma opção aparentemente mais fácil, mas implica em se forçar a manter a cabeça baixa, em ignorar o que se passa à sua volta e, principalmente, em deixar de sonhar.

É o tipo de subtexto que enriquece uma narrativa sem comprometê-la caso não seja percebido, já que o máximo que um espectador desatento perderá ao não reconhecer o peso do que foi dito será a constatação de que estas camadas adicionais demonstram como a Arte, em seus melhores momentos, reflete e discute o mundo que a gera.

Escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy, Rogue One é um episódio de Star Wars que não recebe a distinção de assim se identificar em seu título por não girar em torno dos dramas da família Skywalker – e, portanto, em vez de “episódio tal”, surge apenas como uma “história” ambientada no universo concebido por George Lucas ainda que seus eventos ocorram na linha do tempo que conduz A Vingança dos Sith a Uma Nova Esperança. Centrado em Jyn (Jones), cujo pai Galen (Mikkelsen) é forçado a construir uma superarma para o Império, o roteiro acompanha a personagem enquanto esta é levada a contragosto até o quartel-general da Aliança Rebelde, que precisa de sua ajuda a fim de chegar até o guerrilheiro Saw Gerrera (Whitaker), que aparentemente recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen através do piloto Bhodi Rook (Ahmed). A partir daí, a relutante heroína ganha a companhia do rebelde Cassian Andor (Luna), do monge-guerreiro Chirrut Îmwe (Yen) e seu companheiro Baze Malbus (Wen) e do droide K-2SO (Tudyk), que foi reprogramado para ajudar aqueles que se opõem ao Império.

Como é fácil perceber, Rogue One já sai em desvantagem com relação a todos os outros longas lançados depois de Uma Nova Esperança, já que seu núcleo narrativo principal não conta com personagens com os quais já havíamos forjado relações afetivas graças a aventuras anteriores. Assim, além de ter que trazer uma trama inédita (ou “inédita”, já que também já conhecemos seu desfecho), o roteiro é obrigado a nos apresentar a várias figuras novas e a desenvolver arcos dramáticos satisfatórios para a maioria destas, o que não é tarefa simples. A boa notícia é que, mesmo com tropeços eventuais, a missão é bem executada: Jyn vai de cética individualista a uma guerrilheira da causa; Cassian lida com a culpa pelo que fez em nome da Aliança; e até mesmo Chirrut e Baze estabelecem uma dinâmica particular acerca da fé na Força, que o primeiro trata como verdadeira religião (aliás, é a primeira vez em toda a saga que realmente senti o caráter teológico da Força, já que, mesmo sem ser jedi, Chirrut é crente a ponto de ter sua oração/mantra particular).

Há, claro, confusões pontuais nestes arcos: de certo modo, é possível dizer que a motivação de Jyn é pessoal, não política, já que sua determinação no terceiro ato pode ser atribuída mais à fidelidade ao pai do que a uma consciência ideológica envolvendo a causa. Por outro lado, é bacana como os roteiristas não sentem a necessidade de forçar um romance entre Jyn e Cassian, cuja relação – hostil ou amigável – é determinada pela percepção que um tem acerca dos valores pessoais e políticos do outro, não pela atração física. Da mesma forma, é interessante como Rogue One adiciona um tom sombrio à Aliança não só ao ilustrar como são capazes de executar informantes para evitar vazamentos, mas também ao retratar Saw Gerrera (uma ótima participação de Forest Whitaker) como um extremista cujos métodos afastaram os companheiros de resistência – e sua paranoia é um toque perfeito em sua composição. E se até mesmo o vilão Krennic (Mendelsohn, de quem sou admirador desde O Homem da Máfia) ganha contornos curiosos graças à sua necessidade de ter seu papel reconhecido pelo Imperador e à sua crença real nos valores do Império, surpresa ainda maior é descobrir o sarcasmo e o cinismo eficientes de K-2SO, que, além de trazer o talentoso Alan Tudyk como sua voz, ainda é beneficiado por uma animação impecável que contrasta o andar rígido de seus pares, ainda sob o controle do Império, aos modos relaxados com que ele caminha e observa tudo ao seu redor.

Ambicioso ao espalhar sua história por vários planetas e luas, o filme cria uma galáxia que realmente parece ser habitada em vez de soar apenas como uma oportunidade para que os designers de produção possam se divertir: a fortaleza que abriga Darth Vader, por exemplo, é concebida como uma espécie de Mordor Galáctico, ao passo que o entreposto comercial construído entre dois asteroides e a cidade sagrada de Jedha são fantásticos de um ponto de vista puramente estético, mas se tornam ainda mais eficazes por trazerem ruas sujas e abarrotadas que sugerem multidões que levam suas vidas paralelamente à guerra que acompanhamos há tantos filmes. Além disso, o diretor Gareth Edwards (do ótimo Monstros e do fraco Godzilla) faz um bom trabalho ao estabelecer os contrastes visuais entre estes mundos e ao ilustrar a escala de elementos como a Estrela da Morte, cuja grandeza se torna ainda mais patente graças ao fato de primeiro vermos um destroier à sua frente.

Edwards, por sinal, ganha a oportunidade de criar uma identidade própria para seu trabalho ao mesmo tempo em que permite que este traga elementos claros do universo Star Wars: embora não empregue os clássicos letreiros iniciais ou use as recorrentes cortinas diagonais como transições de cena, por exemplo, o cineasta faz uma série de referências a personagens, diálogos e incidentes da saga, adotando também algumas de suas características visuais (como a imensa nave que ocupa o quadro nos segundos iniciais). Já as sequências de ação se mostram irregulares: se algumas passagens (como a primeira luta envolvendo Chirrut) são eficientes, outras cometem erros primários (como o suspense fracassado quando Jyn salta entre escotilhas que abrem e fecham automaticamente e que o diretor falha em introduzir com clareza antes que a personagem tenha que atravessá-las). De maneira similar, o roteiro escorrega ao exagerar na quantidade de diálogos explicativos berrados entre os heróis durante o terceiro ato, errando também ao transformar o esperado confronto com um dos vilões em um anticlímax decepcionante. E mesmo que ver Peter Cushing (ou melhor: “Peter Cushing”) de volta como Grand Moff Tarkin traga uma nostálgica satisfação, é inegável que sua natureza obviamente digital despenca no chamado “uncanny valley”, causando um estranhamento que momentaneamente nos tira do filme (o que também ocorre com outra participação que prefiro deixar como surpresa) – e nem discutirei o aspecto ético da decisão, pois isto mereceria um artigo próprio.

Mas, como observei no início deste texto, Rogue One é enriquecido por incluir subtextos políticos que refletem o contexto do mundo que o originou – e mesmo que isto não seja algo novo em Star Wars, é impossível não notar como se torna especialmente importante em 2016, quando movimentos de viés fascista ganham força em quase todo o planeta. Assim, quando vemos o Império alardear que quer apenas trazer “paz e segurança” para a Galáxia, investindo também em anúncios que pintam Saw Gerrera como um “terrorista”, é difícil ignorar o comentário sobre algumas das estratégias clássicas dos que tentam vender o autoritarismo como a solução para todos os males da sociedade. Não é à toa, diga-se de passagem, que grupos da extrema-direita norte-americana vêm defendendo boicote ao filme, alegando se tratar de “racismo contra os homens brancos”, já que (mais uma vez) é protagonizado por uma mulher e traz, em seu centro, um grupo composto por um latino, dois asiáticos e um descendente de paquistaneses enfrentando um Império liderado basicamente por supremacistas brancos.

Um Império que, como certos outros aspirantes do mundo real, conta com uma poderosíssima arma de destruição em massa – e Rogue One também merece créditos por retratar de forma assustadora os efeitos da Estrela da Morte ao enfocá-los como algo similar à colisão de um asteroide colossal cuja força se espalha como uma onda apocalíptica a partir de seu ponto de impacto. E é justamente por isso, aliás, que os esforços dos rebeldes se mostram tão urgentes, resultando numa sequência final que, ao acompanhar certa informação sendo repassada, evoca o desespero e os sacrifícios envolvidos.

O que finalmente nos traz à maior virtude de Rogue One: sua capacidade de levar o espectador a se importar profundamente com seus personagens – e arrisco-me a dizer que será impossível rever Uma Nova Esperança (cujo título agora tem motivação precisa na última fala de seu “predecessor”) sem que nos lembremos de todo o sofrimento exigido para que Leia pudesse enviar sua mensagem desesperada para Obi-Wan Kenobi. Aliás, mais do que isso: a frustração da princesa diante da passividade individualista de Han Solo no Episódio IV passa a ser também a nossa, que dividimos com ela o conhecimento do que foi exigido em nome de uma causa que também o beneficiaria – e, portanto, se torna ainda mais reconfortante ver Han se dando conta disso e se juntando à Aliança.

Pois a apatia só facilita o trabalho do Império. Não custa lembrar, certo?

15 de Dezembro de 2016

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Leia as demais críticas dos longas da saga Star Wars clicando aqui.

Assista também ao videocast sobre o filme:

 

Comente!

  • Humberto Pereira de Souza em 24/12/2016 às 19:10

    Spoiler Alert: Não consegui editar meu comentário anterior, mas parece que a maioria dos sites fala que realmente foi usado CGI na Leia. Uma pena, acho que só a atriz e uma boa maquiagem já teria um efeito satisfatório.

  • Humberto Pereira de Souza em 24/12/2016 às 18:33

    Spoiler Alert: Pablo, segundo o IMDb quem faz o papel da Princesa Leia é a atriz Ingvild Deila, ou seja, não foi usado CGI, apenas uma boa maquiagem e uma atriz já bem parecida com a personagem. http://www.imdb.com/name/nm6488665/?ref_=ttfc_fc_cl_t24

  • Henrique Zimmermann em 21/12/2016 às 10:20

    Gostei da crítica do Pablo, mas eu não tive uma experiência tão positiva como ele. Vai aí minha avaliação:

    Pontos positivos:
    - Tem o visual "retrô" certo dos ep. 4 e 5, o que não tinha acontecido nos demais e era um problema grave.
    - O que mais gosto nessa franquia são as cenas de batalhas com espaçonaves, e sempre elas tiveram pouco tempo em tela em favor da abracadabra dos Jedi. Esse filme não tem os hocus pocus xarope e com isso surge espaço para batalhas espaciais mais longas e elaboradas, isso foi um dos dois pontos que mais gostei no filme. E tem muito TIE fighter, que na minha opinião é a espaçonave mais bonita da franquia, gosto dela desde criança.
    - O segundo ponto que mais gostei foi a trilha do Michael Giacchino. Ele mimetizou com perfeição a trilha do Williams, parecia feita pelo autor original. O cara virou um especialista em fazer trilhas de segunda mão, e faz muito bem!
    - Bons easter eggs, notei muitos e gostei deles.
    - A cena do Vader combatendo sozinho uma infantaria foi a única cena digna dele em toda a franquia, apesar de curta. Em sete filmes só temos a expectativa de ver ele em ação. No ep. 6 ele tem um combate longo com o Luke, mas a coreografia da época era lenta e desinteressante (aliás, foi nos ep. 4, 5 e 6). É impressionante como apenas no oitavo filme ele ganhou essa cena. Povo lerdo.
    - A direção do Gareth Edwards foi a melhor da franquia. Ele já tinha mostrado que era bom no último Godzilla e nesse filme priorizou cenas escuras, atmosfera adulta e alguma criatividade de fotografia. Saiu um pouco (mas só um pouco) da atmosfera infantilóide dos outros sete filmes.
    - As piadas foram discretas e colocadas nos momentos certos, ao contrário do fiasco de humor que foi Estrela da Morte 7.
    - Gostei da forma como bolaram o dilema do Hannibal, que foi forçado a construir a Estrela da Morte, se fez indispensável e criou uma fragilidade secreta, esse foi o único ponto criativo do filme, o restante é só repetição.

    Pontos negativos:
    - Velho em CGI não estava legal, notei de cara que ele era animação e isso me saltou aos olhos o filme todo.
    - Felicity pouco expressiva nas cenas em que tinha que atuar de forma incisiva, a partir do momento em que "adere à causa".
    - Roteiro raaaaso como o de um filme de Guerra nas Estrelas, sem graça. O valor do filme está nos aspectos visuais, apenas.
    - Seria melhor se não tivessem insinuado um romance com o casal protagonista nas cenas finais. Mas Holywoodlândia não resiste.
    - Achei o comportamento e discurso do X-2 humano demais. Mas R2D2 e C3P0 também eram, então, sei lá.
    - A cara da Leia no final parece um boneco de cera daquele museu de Londres.
    - O japonês cego me irritou um tanto com aquele mantra. Típico samurai errante que bate em todos. Lugar-comum.
    - A morte do Hannibal foi piegas, parecia um episódio de Malhação.

    Concluindo: o filme é bom, perde para o Ep. 4 e para o Ep. 5. Em nível de qualidade geral, eu o colocaria empatado com o Ep. 6 (Retorno de Jedi). Se e quando me lembro dos Ewoks me dá vontade de achar esse filme melhor que o Ep. 6. O roteiro é infantil, raso, típico da franquia, o que deixa o filme atrativo apenas nos efeitos e fotografia, como são os filmes da franquia Transformers.

    Nota geral: 6,5

  • Jorge em 18/12/2016 às 14:57

  • Jorge em 18/12/2016 às 14:55

    Oi, Pablo. Adorei o filme e, após ler a sua crítica, alguns pontos me chamaram ainda mais a atenção. Um ótimo filme!
    Quero dizer que sempre acompanho seus textos após ver os filmes pois creio que assim eles são mais saborosos (os textos).
    Parabéns pelo trabalho, pra mim você é o melhor crítico de cinema da atualidade, e as suas críticas são tão bem-escritas quanto às do Rodrigo Carrero, do site Cine Repórter, que infelizmente há anos não atualiza arquivos. Vou procurar comentar mais seus textos daqui por diante. Obrigado por esses presentes que são suas análises. Um grande abraço.

  • Marcos Davi Gonçalves de Oliveira em 17/12/2016 às 17:45

    Esses representantes de minorias protagonizarem o longa só foi possível porque Guerra nas Estrelas é uma das 5 maiores franquias de todos os tempos e de sucesso garantido. Poderia ser uma transsexual, que ainda assim o sucesso suplantaria o risco. Uma atitude dessas seria impensada em se tratando de uma cinessérie de menor potencial comercial.

  • Edgar em 16/12/2016 às 02:00

    Olá Pablo, muito boa sua crítica, e realmente gostei do filme.

    Gostaria apenas de ressaltar que o "uncanny valley" realmente pode ter ocorrido com o Peter Cushing, mas a "outra participação" que você cita foi, na verdade, realizada por uma pessoa real. Pesquise no Google e acredito que terá uma grata surpresa ao saber que o diretor optou por essa solução ao invés da CG.

  • Gustavo Basso (Popices) em 16/12/2016 às 01:56

    Não esparava muito desse filme mas ele me surpreendeu positivamente. Embora canse de cenas de ação no estilo apresentadas e fique disperso durante elas o saldo final foi muito positivo. Que bom que George Lucas passou a franquia pra frente.

  • Pablo Villaça em 15/12/2016 às 23:39

    Fábio: :)

  • Fábio da Rocha Barros em 15/12/2016 às 23:09

    Olha, Pablo.
    Discordo de quase tudo que vc escreveu sobre este Rogue One. Detestei o filme.
    .
    Mas que crítica boa de se ler! Sempre será referência pra mim.

 

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