Críticas por Pablo Villaça

Poster: Rogue One: Uma História Star Wars
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
15/12/2016 16/12/2016
Distribuidora
Disney

 

 


Rogue One: Uma História Star Wars
Rogue One: A Star Wars Story

Rogue One: Uma História Star Wars

Dirigido por Gareth Edwards. Roteiro de Chris Weitz e Tony Gilroy. Com: Felicity Jones, Diego Luna, Donnie Yen, Jiang Wen, Riz Ahmed, Ben Mendelsohn, Jimmy Smits, Genevieve O’Reilly, Ben Daniels, Valene Kane, Warwick Davis, Mads Mikkelsen, Forest Whitaker e as vozes de Alan Tudyk e James Earl Jones.

Em certo momento de Rogue One, o veterano rebelde Saw Gerrera questiona se a jovem Jyn Erso, que reluta em se juntar à causa, não se importa de ver as bandeiras do Império espalhadas pela galáxia. A resposta da garota, como tantas falas comumente subestimadas na saga Star Wars, revela grandes verdades saídas de frases aparentemente triviais: “Não há problema; é só não olhar para cima”. Com isso, a protagonista não apenas fortalece seu próprio arco dramático como comenta algo maior ao apontar como a submissão à opressão é uma opção aparentemente mais fácil, mas implica em se forçar a manter a cabeça baixa, em ignorar o que se passa à sua volta e, principalmente, em deixar de sonhar.

É o tipo de subtexto que enriquece uma narrativa sem comprometê-la caso não seja percebido, já que o máximo que um espectador desatento perderá ao não reconhecer o peso do que foi dito será a constatação de que estas camadas adicionais demonstram como a Arte, em seus melhores momentos, reflete e discute o mundo que a gera.

Escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy, Rogue One é um episódio de Star Wars que não recebe a distinção de assim se identificar em seu título por não girar em torno dos dramas da família Skywalker – e, portanto, em vez de “episódio tal”, surge apenas como uma “história” ambientada no universo concebido por George Lucas ainda que seus eventos ocorram na linha do tempo que conduz A Vingança dos Sith a Uma Nova Esperança. Centrado em Jyn (Jones), cujo pai Galen (Mikkelsen) é forçado a construir uma superarma para o Império, o roteiro acompanha a personagem enquanto esta é levada a contragosto até o quartel-general da Aliança Rebelde, que precisa de sua ajuda a fim de chegar até o guerrilheiro Saw Gerrera (Whitaker), que aparentemente recebeu uma mensagem secreta enviada por Galen através do piloto Bhodi Rook (Ahmed). A partir daí, a relutante heroína ganha a companhia do rebelde Cassian Andor (Luna), do monge-guerreiro Chirrut Îmwe (Yen) e seu companheiro Baze Malbus (Wen) e do droide K-2SO (Tudyk), que foi reprogramado para ajudar aqueles que se opõem ao Império.

Como é fácil perceber, Rogue One já sai em desvantagem com relação a todos os outros longas lançados depois de Uma Nova Esperança, já que seu núcleo narrativo principal não conta com personagens com os quais já havíamos forjado relações afetivas graças a aventuras anteriores. Assim, além de ter que trazer uma trama inédita (ou “inédita”, já que também já conhecemos seu desfecho), o roteiro é obrigado a nos apresentar a várias figuras novas e a desenvolver arcos dramáticos satisfatórios para a maioria destas, o que não é tarefa simples. A boa notícia é que, mesmo com tropeços eventuais, a missão é bem executada: Jyn vai de cética individualista a uma guerrilheira da causa; Cassian lida com a culpa pelo que fez em nome da Aliança; e até mesmo Chirrut e Baze estabelecem uma dinâmica particular acerca da fé na Força, que o primeiro trata como verdadeira religião (aliás, é a primeira vez em toda a saga que realmente senti o caráter teológico da Força, já que, mesmo sem ser jedi, Chirrut é crente a ponto de ter sua oração/mantra particular).

Há, claro, confusões pontuais nestes arcos: de certo modo, é possível dizer que a motivação de Jyn é pessoal, não política, já que sua determinação no terceiro ato pode ser atribuída mais à fidelidade ao pai do que a uma consciência ideológica envolvendo a causa. Por outro lado, é bacana como os roteiristas não sentem a necessidade de forçar um romance entre Jyn e Cassian, cuja relação – hostil ou amigável – é determinada pela percepção que um tem acerca dos valores pessoais e políticos do outro, não pela atração física. Da mesma forma, é interessante como Rogue One adiciona um tom sombrio à Aliança não só ao ilustrar como são capazes de executar informantes para evitar vazamentos, mas também ao retratar Saw Gerrera (uma ótima participação de Forest Whitaker) como um extremista cujos métodos afastaram os companheiros de resistência – e sua paranoia é um toque perfeito em sua composição. E se até mesmo o vilão Krennic (Mendelsohn, de quem sou admirador desde O Homem da Máfia) ganha contornos curiosos graças à sua necessidade de ter seu papel reconhecido pelo Imperador e à sua crença real nos valores do Império, surpresa ainda maior é descobrir o sarcasmo e o cinismo eficientes de K-2SO, que, além de trazer o talentoso Alan Tudyk como sua voz, ainda é beneficiado por uma animação impecável que contrasta o andar rígido de seus pares, ainda sob o controle do Império, aos modos relaxados com que ele caminha e observa tudo ao seu redor.

Ambicioso ao espalhar sua história por vários planetas e luas, o filme cria uma galáxia que realmente parece ser habitada em vez de soar apenas como uma oportunidade para que os designers de produção possam se divertir: a fortaleza que abriga Darth Vader, por exemplo, é concebida como uma espécie de Mordor Galáctico, ao passo que o entreposto comercial construído entre dois asteroides e a cidade sagrada de Jedha são fantásticos de um ponto de vista puramente estético, mas se tornam ainda mais eficazes por trazerem ruas sujas e abarrotadas que sugerem multidões que levam suas vidas paralelamente à guerra que acompanhamos há tantos filmes. Além disso, o diretor Gareth Edwards (do ótimo Monstros e do fraco Godzilla) faz um bom trabalho ao estabelecer os contrastes visuais entre estes mundos e ao ilustrar a escala de elementos como a Estrela da Morte, cuja grandeza se torna ainda mais patente graças ao fato de primeiro vermos um destroier à sua frente.

Edwards, por sinal, ganha a oportunidade de criar uma identidade própria para seu trabalho ao mesmo tempo em que permite que este traga elementos claros do universo Star Wars: embora não empregue os clássicos letreiros iniciais ou use as recorrentes cortinas diagonais como transições de cena, por exemplo, o cineasta faz uma série de referências a personagens, diálogos e incidentes da saga, adotando também algumas de suas características visuais (como a imensa nave que ocupa o quadro nos segundos iniciais). Já as sequências de ação se mostram irregulares: se algumas passagens (como a primeira luta envolvendo Chirrut) são eficientes, outras cometem erros primários (como o suspense fracassado quando Jyn salta entre escotilhas que abrem e fecham automaticamente e que o diretor falha em introduzir com clareza antes que a personagem tenha que atravessá-las). De maneira similar, o roteiro escorrega ao exagerar na quantidade de diálogos explicativos berrados entre os heróis durante o terceiro ato, errando também ao transformar o esperado confronto com um dos vilões em um anticlímax decepcionante. E mesmo que ver Peter Cushing (ou melhor: “Peter Cushing”) de volta como Grand Moff Tarkin traga uma nostálgica satisfação, é inegável que sua natureza obviamente digital despenca no chamado “uncanny valley”, causando um estranhamento que momentaneamente nos tira do filme (o que também ocorre com outra participação que prefiro deixar como surpresa) – e nem discutirei o aspecto ético da decisão, pois isto mereceria um artigo próprio.

Mas, como observei no início deste texto, Rogue One é enriquecido por incluir subtextos políticos que refletem o contexto do mundo que o originou – e mesmo que isto não seja algo novo em Star Wars, é impossível não notar como se torna especialmente importante em 2016, quando movimentos de viés fascista ganham força em quase todo o planeta. Assim, quando vemos o Império alardear que quer apenas trazer “paz e segurança” para a Galáxia, investindo também em anúncios que pintam Saw Gerrera como um “terrorista”, é difícil ignorar o comentário sobre algumas das estratégias clássicas dos que tentam vender o autoritarismo como a solução para todos os males da sociedade. Não é à toa, diga-se de passagem, que grupos da extrema-direita norte-americana vêm defendendo boicote ao filme, alegando se tratar de “racismo contra os homens brancos”, já que (mais uma vez) é protagonizado por uma mulher e traz, em seu centro, um grupo composto por um latino, dois asiáticos e um descendente de paquistaneses enfrentando um Império liderado basicamente por supremacistas brancos.

Um Império que, como certos outros aspirantes do mundo real, conta com uma poderosíssima arma de destruição em massa – e Rogue One também merece créditos por retratar de forma assustadora os efeitos da Estrela da Morte ao enfocá-los como algo similar à colisão de um asteroide colossal cuja força se espalha como uma onda apocalíptica a partir de seu ponto de impacto. E é justamente por isso, aliás, que os esforços dos rebeldes se mostram tão urgentes, resultando numa sequência final que, ao acompanhar certa informação sendo repassada, evoca o desespero e os sacrifícios envolvidos.

O que finalmente nos traz à maior virtude de Rogue One: sua capacidade de levar o espectador a se importar profundamente com seus personagens – e arrisco-me a dizer que será impossível rever Uma Nova Esperança (cujo título agora tem motivação precisa na última fala de seu “predecessor”) sem que nos lembremos de todo o sofrimento exigido para que Leia pudesse enviar sua mensagem desesperada para Obi-Wan Kenobi. Aliás, mais do que isso: a frustração da princesa diante da passividade individualista de Han Solo no Episódio IV passa a ser também a nossa, que dividimos com ela o conhecimento do que foi exigido em nome de uma causa que também o beneficiaria – e, portanto, se torna ainda mais reconfortante ver Han se dando conta disso e se juntando à Aliança.

Pois a apatia só facilita o trabalho do Império. Não custa lembrar, certo?

15 de Dezembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.