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Interestelar

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Christopher Nolan. Roteiro de Christopher e Jonathan Nolan. Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Wes Bentley, David Gyasi, Topher Grace, John Lithgow, Mackenzie Foy, Casey Affleck, William Devane, Ellen Burstyn e Michael Caine.

Sou um admirador confesso de Christopher Nolan. De Following a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, admirei todos os seus trabalhos até hoje – e três de seus filmes me levaram, inclusive, a escrever textos divididos em duas partes a fim de analisá-los com mais cuidado (O Grande Truque, Batman Begins e A Origem). Amnésia me levou a brincar com a estrutura de minha crítica e O Cavaleiro das Trevas permanece, para mim, como um dos melhores exemplares do subgênero “filme de super-herói”. Se realmente há “nolanzetes”, creio que sou um deles.

E é por isso que é tão frustrante ter que apontar que Interestelar, seu novo filme, é uma obra inquestionavelmente problemática. Sim, ali estão as ideias ambiciosas do cineasta e as ótimas sequências em montagem paralela que caracterizam seus trabalhos; em contrapartida, seus pontos fracos surgem com força total, desde a dificuldade recorrente para organizar a ação no espaço até os diálogos frágeis e repletos de exposição. Para piorar, se seus longas costumam primar pelos ótimos desfechos, aqui o terceiro ato representa sua maior fragilidade, revelando-se desastroso e artificial.

Co-escrito por Nolan ao lado de seu irmão (e parceiro habitual) Jonathan, o roteiro nos apresenta a Cooper (McConaughey), que vive ao lado dos filhos e do sogro (Lithgow) em uma fazenda numa Terra que obviamente passou por algum tipo de catástrofe. Constantemente lutando contra pragas que insistem em destruir todas as plantações, a população do planeta se vê cercada por tempestades de areia e pela ameaça de fome – e é neste contexto que o protagonista acaba descobrindo que a NASA (ou o que resta desta) planeja enviar uma expedição em busca de outros planetas que possam abrigar nossa espécie. Dividido por ter que deixar os filhos para trás – especialmente a pequena Murph (Foy) -, Cooper acaba partindo na jornada que inclui a dra. Brand (Hathaway) e os especialistas Doyle (Bentley) e Romilly (Gyasi).

Não é, claro, a mais original das premissas, mas Nolan ao menos faz o possível para ancorá-la num universo suficientemente realista para que compreendamos que as leis da física quântica são levadas a sério e impactam as decisões dos personagens – bem como a Teoria da Relatividade de Einstein e suas implicações na passagem do tempo. Neste aspecto, aliás, Interestelar lembra bastante o jovem clássico Contato, embora bem menos sutil e coeso. Além disso, os irmãos Nolan sempre tiveram um problema grave com exposição em seus roteiros e, assim, o primeiro ato do longa é repleto de longos diálogos que tentam explicar a natureza das pragas que acometem o planeta, as mensagens enviadas através da gravidade, os planos desenvolvidos pelo cientista vivido por Michael Caine, os obstáculos que este ainda enfrenta, as possíveis soluções e assim por diante.

Povoado por personagens unidimensionais (as exceções ficam por conta do protagonista e do Dr. Mann, cujo intérprete manterei em segredo), Interestelar ainda exibe o velho problema de Christopher Nolan em articular movimento na mise-en-scène – e, talvez para evitar que isto fique óbvio, o cineasta mantêm seus quadros constantemente fechados mesmo quando está acompanhando ações intensas como o pouso problemático de uma nave. Porém, isto serve apenas para impedir que o espectador compreenda exatamente o que está acontecendo, representando um problema em vez de uma solução. Da mesma forma, esta insistência em planos fechados impede até mesmo que a constituição dos robôs TARS e CASE fique clara para o público durante a maior parte do tempo, o que é frustrante.

Enquanto isso, o diretor investe em uma salada de frutas temática que, mesmo merecendo aplausos pela ambição, é superficial demais para se tornar eficiente. Buscando introduzir discussões existenciais, filosóficas e científicas sem jamais desenvolvê-las com o cuidado necessário, Nolan ainda comete o erro grave de tentar introduzir o Amor (com letra maiúscula mesmo) como fator determinante na trama – e ouvir os personagens discutindo seus sentimentos soa sempre artificial, como se estivéssemos acompanhando um androide enquanto este analisa o conceito do afeto. Aliás, é curioso notar como Interestelar insiste em criar cenas de forte conteúdo emocional que acabam apenas lutando com a natureza fria, racional, da narrativa, num embate com resultados bastante irregulares.

Ainda assim, o filme é particularmente bem sucedido ao criar um mundo futurístico que, vitimado pelo colapso produzido pela superpopulação, vive sob um manto constante de poeira e medo da fome. Além disso, o segundo ato, que traz a jornada empreendida pelos heróis, é fascinante ao introduzir o tempo como um recurso dramático e ao nos apresentar a planetas hostis à sua própria maneira, ganhando pontos também graças à complexidade com que o Dr. Mann (de novo: não revelarei o ator, mas faz um trabalho excepcional) é retratado, já que surge como um homem fragilizado pelo instinto de sobrevivência, mas que jamais se sente confortável diante das próprias ações. Vale apontar, diga-se de passagem, que ao final do segundo ato Nolan demonstra seu conhecido talento para a montagem paralela, criando um clima de tensão sem que consigamos exatamente perceber de onde surge nossa inquietação, já que o diretor sugere, através dos cortes e da trilha, que algo está para acontecer sem permitir que decifremos o quê.

A trilha de Hans Zimmer, aliás, é uma de suas melhores, investindo em acordes de órgão que ao mesmo tempo sugerem o sacro e o clássico, remetendo a 2001 e a Solaris. Por outro lado, a mixagem é claramente problemática, tornando vários diálogos ininteligíveis (em diversos momentos, a legenda traduz falas que mal podemos ouvir) enquanto são sufocados pelos efeitos sonoros. Além disso, a voz do robô TARS se confunde constantemente com as dos personagens humanos, já que nada a diferencia dos demais, num tropeço óbvio do design de som. Ainda assim, é interessante reparar como Nolan faz questão da verossimilhança científica ao usar o silêncio como elemento recorrente das cenas que se passam no espaço – e, em certo momento, o choque de determinado acontecimento é ressaltado quando entramos em uma nave e subitamente o caos sonoro toma conta da trilha.

Portanto, é uma pena que o excelente segundo ato acabe sucumbindo ao desastre representado pelo terceiro e final: apostando numa reviravolta que Matthew McConaughey quase consegue vender graças à intensidade admirável de sua performance, Interestelar aposta todas as fichas numa saída absurda que trai o realismo no qual o filme insistira até então, criando um deus ex quantum que tenta usar um paradoxo temporal que pode até ser plausível do ponto de vista cientifico (eu não saberia dizer, já que não sou especialista em física quântica), mas que definitivamente falha em seus aspectos dramáticos e narrativos. Para piorar, o roteiro jamais consegue explicar como (e não leia o restante deste parágrafo caso não tenha visto o longa) como Murph consegue perceber tão facilmente que o “fantasma” era seu pai ou como Cooper consegue “programar” o relógio com uma infinidade de dados obtidos por TARS ao observar o buraco negro (suponho que as informações consumiriam horas e horas e horas de “transcrição” para o binário). Isto para não mencionar o paradoxo criado e que não consegue explicar como a dra. Brand poderia coexistir com o mundo idílico construído pelos terráqueos expatriados.

De todo modo, ainda há o segundo ato que, ocupando a maior duração da projeção, jamais deixa de fazer jus ao restante da filmografia de Christopher Nolan. E é uma pena que isto não se aplique também ao terceiro.

06 de Novembro de 2014

Videocast sobre o filme (sem spoilers):

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

Um grupo de exploradores faz uso de um buraco negro recém-descoberto para superar as limitações de uma viagem espacial humana e conquistar as grandes distâncias relacionadas a uma viagem interestelar.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário26 de fev. de 2023

Filme muito fraco e entediante. Cenas lentas de conversação sem propósito para a trama, buracos no enredo, explicações sem a mínima lógica necessária para o telespectador "entrar" na fantasia, soluções improvável e sem explicação suficiente para um desfecho aceitável. Não gostei de nada e não entendo como em vários sites teve tão boas avaliações...

User
Usuário30 de jul. de 2019

Peraí que vou ali escrever um monte de merda apelativa só por que sei lá que diabos eu não gostei do filme.

Felipe Everson
Felipe Everson6 de abr. de 2019

Tridimensionalidade não é sinônimo de qualidade, Tiago. Por vezes, uma obra escolhe um protagonista para deixar mais redondo com um elenco de apoio plano para cada coadjuvante se ocupar de apenas revelar o suficiente sobre este protagonista (A Chegada, por exemplo) ao passo que outras obra focam num grupo de duas ou mais tridimensionalidades para explorar melhor suas dinâmicas sociais (O Parque dos Dinossauros, por exemplo). São propostas diferentes que dependem da execução para serem boas ou não. Uma não é necessariamente melhor do que a outra. SPOILERS de "A Chegada" (2016) e "Interestelar" (2014) O "deus ex par romântico", na verdade, é necessário para ressaltar que o relacionamento não funcionará e ele a abandonará no futuro por ambos saberem quão cedo a filha deles morrerá. A âncora emocional do filme é o fruto do relacionamento deles e o plot twist é que o físico é o pai da garota. Deixar o relacionamento no ar é que deixaria o personagem do físico plano, pois, apesar de ele ser meramente funcional ao longo do filme, sua ausência nos flashfowards (ou a revelação desta) é que encerra o arco dramático no filme. Ou seja, o plot twist romântico torna este personagem inesperadamente tridimensional em função de sua ausência em momentos-chave da trama. A conveniência de não ver o marido nas visões depende da sua suspensão de descrença. É verossímil para o arco narrativo, apesar de conveniente. Se ela enxergasse o marido, contudo, a proposta do filme seria outra e o arco (externo) dos alienígenas seria, inclusive, supérfluo à estória. Os diálogos expositivos em "Interestelar" poderiam facilmente ser convertidos em 'pista e recompensa' (set up and pay off), caso fossem colocados na trama entre o pai e a filha, desenvolvendo melhor o relacionamento entre ambos e transformando o obstáculo temático da professora num clímax do 1° ato, apesar de a virada vir depois. As explicações que vc diz não estarem no filme não estão porque são desnecessárias, mas explicações dentro da obra são necessárias(!), porém estão estruturadas de maneira bem preguiçosa. Se não fossem necessárias, pior que um erro de estrutura, seriam também um erro de conteúdo que o roteirista, a direção e o montador teriam deixado passar. Seria muito feio! Não, os diálogos expositivos dentro do filme são erros dos roteiristas e do diretor. Há duas perguntas na crítica. Uma que não exige exposição, mas sim lógica que o filme falha em estabelecer num evento e a outra que precisa sim de exposição para que a solução adotada não tivesse soado tão artificial. A primeira envolve a motivação entre o pai e a filha, algum elemento que ele, por meio daquela linguagem, pudesse transmitir como assinatura à sua filha. Não houve. A segunda envolve quê padrão ele teria usado para condensar um dado muitíssimo provavelmente extenso naquele relógio. Um diálogo expositivo que teria tornado aquele momento mais verossímil. Um deus ex machina pode sim se relacionar às premissas do filme. É pior quando não o faz, mas continua sendo o que é por ser uma solução fácil e inorgânica. O paradoxo temporal de humanos do futuro ajudando os do presente indica que o problema do filme nunca foi um problema, o que arruína o tom de urgência no filme. Em comparação, "A Chegada" resolve esse dilema deixando a urgência como apenas metade da experiência. A outra metade é de contemplação e mistério, o que ainda permite em retrospecto adequar a urgência a essa visão mais contemplativa da obra. O clímax do general tem duas justificativas lógicas para ela não se lembrar da crise dos alienígenas durante o flashfoward. Primeiro que a situação com a filha dela pode a ter fragilizado, fazendo-a esquecer dos eventos alienígenas. Segundo, a própria protagonista se habitou tanto com a linguagem que aprendeu que atrofiou sua iniciativa como cognição, o qu já é um debate extra-filme, mas uma possibilidade interessante para uma sequência. -Os alienígenas vivenciarem o tempo de forma linear e, ainda assim, conseguirem se comunicar com os terráqueos do presente apenas prova quão avançados eles estão mais do que a gente. São alienígenas, caramba! Seu próprio conceito narrativo indica que são diferentes da gente, seja na anatomia, na lógica, nos sentimentos ou nas ciências e tecnologias. Não é um furo, exige suspensão de descrença típica à arte da narrativa. -"Se os aliens podem ver o futuro (como fica implícito quando eles dizem que precisarão dos humanos em 3 mil anos), eles já deveriam conhecer a linguagem humana." Falso. A lógica interna de cada período humano envolve inconsistências. Não teria como necessariamente conhecerem a linguagem e a utilidade dos humanos simultaneamente. O primeiro aspecto poderia ter se perdido com o tempo. É uma das diferenças entre as ciências humanas e as exatas. - "Pelo menos, as pessoas que estavam trabalhando com a língua ao redor do mundo já deviam estar passando pelas mesmas coisas que ela." As consequências poderiam ser completamente diversas das que a protagonista está passando como encarceramento pela sociedade, sendo tratadas como loucas; suicídio pela inabilidade de lidar com a nova linguagem; o não-aprendizado em função de serem incompetentes e beneficiadas com cargos importantes por regimes desonestos e/ou burros. A natureza humana é bem diversa, Tiago. -" Se ela conhece as coisas presentes do futuro, ela sabe coisas do presente no passado. O que significa que ela é onisciente. Ela devria saber tudo desde o início do filme." A personagem não tem domínio sobre essa linguagem ainda. A linguagem narrativa do filme e o aspecto da linguagem dentro dessa narrativa inicialmente se confundem com o objetivo de confundirem o espectador e exigir uma retrospectiva a propósito de diferenciar a linguagem "externa" da "interna" -- o que é um nível de metalinguagem genial para uma proposta artística sobre linguagem. Interestelar não é melhor que A Chegada, pois não incorpora organicamente à trama sua ciência. Não o suficiente, além de sustentar sua premissa numa filosofia muito frágil (a do Amor) sem dar o devido desenvolvimento científico ao conceito que entra de forma abrupta na trama (no ponto central), quando deveria ser muito, mas muito mais desenvolvido na personagem da Dra. Brand que acaba se tornando uma mocinha genérica que funciona excessivamente como obstáculo à trama sem a chance de defender sua filosofia. Um tremendo desserviço à performance da Anne Hathaway. Sobre a trilha de "A Chegada", reassistirei o filme para verificar sua reclamação.

Tiago
Tiago29 de nov. de 2016

Curioso como alguns aspectos de Interstellar você viu como negativos, mas os mesmos elementos em A Chegada passaram batido por você. A começar pela unidimensionalidade dos personagens. Quem, além da linguista em A Chegada, tem alguma dimensão? O físico que a ajuda é um coadjuvante que não tem nenhum drama, nenhum dilema, nenhum background. E pra piorar, criam um "deus ex par romantico", colocando ele numa cena final se declarando à linguista, dizendo que mais maravilhoso do que ter conhecido os aliens foi conhece-la. O Nolan é expositivo? Sim, mas pra que o diretor coloca uma fala dessas, sendo que ele podia ter colocado só um indício de um sentimento que iria se desenvolver num momento futuro (já que o filme não trabalhou uma relação romantica entre os dois. Mal mal eles trocam intimidades, e a linguista em nenhum momento demonstra interesse nele). O Nolan explica sim, mas é a natureza do filme: blockbuster. Sinceramente, Denis Villeneuve explica o mesmo tanto em A Chegada. Num "sonho", o físico fala sobre a hipótese Sapir-Whorf. No fim do filme, a linguista volta a falar sobre ela, pra deixar bem explicado pro publico o pq dela ver o futuro. Nas visões da linguista, vemos ela falar pra filha perguntar algo que ela quer ao pai que é físico. No fim do filme, na cena do físico com a linguista, a linguista fala em off que foi naquele momento que a filha começou a existir. Ainda assim, pra quem ainda não entendeu que o cara é o marido dela no futuro, o diretor coloca uma cena "revelando" o pai da menina: o físico. E a linguista olha pra ele como se fosse algo revelado a ela só ali. Convenientemente pro roteiro, de forma absurda a linguista não vê o marido nas visões. Sem contar a narração em off do físico explicando o trabalho deles. Inclusive o da tradução dos símbolos. O que não se explica em A Chegada é porque não tem explicação. É um filme mais irreal. O filme não tem uma engenharia por trás. Não segue regras: as coisas acontecem por conveniência de roteiro. Vc viu o Nolan explicando sobre World Tubes? Um conceito físico de Relatividade Restrita por trás do mecanismo que permitiu que ele enviasse sinais gravitacionais através dos objetos no hipercubo tesseract? No livro do Kip Thorne sobre o filme vc vê muita teoria que o filme usa, mas não vemos a explicação na tela. Vc vê ele explicando de forma didática como a Terra foi parar naquele estado? Ficamos sabendo que o problema na Terra é a praga (lembrando que praga é um termo geral pra patogenos, seja ele fungos, virus, bacterias). É dito no filme que quem nao morresse de fome morreria asfixiado, mas nao explicam essa questão: Uma série de patógenos que atacam cloroplastos surgem, e começam a infectar grandes áreas da biosfera da Terra. Fotossíntese gradualmente chega a um impasse em poucas décadas. Produção de O2 se encerra, e a vida vegetal em decomposição converte alguns O2 existentes em CO2, aquecendo o planeta. A reviravolta dos oceanos ocorre globalmente, possivelmente desencadeada pelo aquecimento do novo excesso de CO2. Sedimentos do fundo do mar contendo milênios de matéria orgânica degradados são trazidos para a superfície e são expostos ao ar. O2 é convertido em CO2 no processo de decomposição, deixando a maior parte da vida animal na superfície da Terra mortos ou por falta de oxigênio ou envenenamento CO2. Essa explicação é dada no livro do Kip Thorne sobre o filme e eles chegaram nesse cenário numa reunião com vários especialistas da área que consideraram o cenário improvável, porém plausível. Mas não vemos no filme essa explicação. Cade o didatismo? E diferente de A Chegada, temos uma explicação baseada em ciência, ela só não nos foi mostrada, No início, voce reclama do excesso de exposição e no fim reclama que o roteiro não explica certos pontos do filme. O terceiro ato de Interstellar seria um deus ex machina caso ela tivesse ignorado as premissas do filme, o que não aconteceu. A solução é construída e faz parte da temática do filme (distorções espaço temporais), ainda que apresentada num plot twist. Em Interstellar, o Cooper envia informações a si mesmo do futuro (e isso é possível pq ele está no hiperespaço, "fora" da nossa malha espaço temporal e consegue enviar sinais gravitacionais que, como o filme colocou como premissa, são a única coisa capaz de viajar no tempo). Em A Chegada, a linguista recebe informações de si mesma do futuro. e isso é possível pq... bem, porque é! Pq ela aprendeu uma língua e o aprendizado da língua a fez perceber o tempo como os usuários dessa língua apesar de possuirem um organismo e aparato sensorial muito diferente do nosso. A trilha de A Chegada também é usada de forma problematica em algumas cenas. Chegou ao ponto de se confundir com os sons da chegada dos aliens à camara de interação. E era o primeiro momento em que veríamos os aliens. A trilha bagunçou o impacto da bizarrice que eram os sons deles. A Chegada trai as premissas que cria e se vale de loops temporais, assim como Interstellar, pra dar solução ao problema. A diferença é que em Interestelar o loop acontece com uma justificativa fantasiosa, mas de física teórica: o Cooper estava numa estrutura no hiperespaço. Já em A Chegada o loop acontece na nossa grade espaço temporal e ainda é mal executado: Ela tem uma visão no futuro, onde ela encontra o general chines na ONU. Ele diz que só foi até lá para encontra-la e explica que fez isso pq ela ligou pra ele no passado. Ela faz expressão de surpresa e incompreensão. Ela diz que não sabe o número dele e ele mostra a ela (podemos até interpretar que ela estava tentando fazer com que ele mostrasse o número). E depois diz que ela disse algo a ele, e ela continua sem entender e pergunta o quê, então ele sussura no ouvido dela. Se é um loop, ela sempre soube o número dele. Ela nunca poderia ter dito que não sabe o número dele no futuro, pq ela já ligou pra ele no passado. E se ela ligou, ela sabia o número. A informação que causa conseqüências no futuro veio do futuro ao presente. Um evento acaba se tornando a causa disso. O que causa o paradoxo bootstrap, um paradoxo de viagem no tempo. A Chegada consegue ter mais furos que Interstellar: - Os alienígenas supostamente vivenciam o tempo de forma não-linear (algo que só é possível se estivessem fora de nossa malha espaço-tempo). No entanto, eles podem se comunicar com os seres humanos, o que só é possível em uma linearidade temporal e na compreensão da mesma. - Se os aliens podem ver o futuro (como fica implícito quando eles dizem que precisarão dos humanos em 3 mil anos), eles já deveriam conhecer a linguagem humana (da mesma forma que a linguista o faz acessando o futuro). E conhecendo a língua humana, seria mais fácil eles explicarem a linguagem deles e não daria margem pros humanos acharem que eles queriam fornecer armas ou coisa do tipo, o que acabou causando a desunião dos governos que até então estavam unidos na cooperação dos pesquisadores das várias partes do mundo. A nossa dificuldade de comunicação foi causada pelo furo no roteiro de que os aliens não conhecem a linguagem humana. - Todos os seres humanos no presente já deveriam ter visões do futuro como ela. Uma vez que todos nós aprenderemos a linguagem alien no futuro e estamos experimentando um tempo não-linear. Pelo menos, as pessoas que estavam trabalhando com a língua ao redor do mundo já deviam estar passando pelas mesmas coisas que ela. - Se ela conhece as coisas presentes do futuro, ela sabe coisas do presente no passado. O que significa que ela é onisciente. Ela devria saber tudo desde o início do filme. Se ela é capaz de experimentar o tempo de forma não linear, ela pode ser imortal: escolher experimentar momentos de diferentes estágios de sua vida para sempre. Se todos os momentos se fundem em apenas uma coisa, isto significa ou que eles são eternos ou que eles não existem, uma vez que se fundirão com o momento em que ela morre. - A base militar detecta alguem de dentro falando com a China, num clima de profunda instabilidade envolvendo manobras militares, e não deixam de matar a linguista, pq o físico faz escudo humano. Teria aproveitado mais A Chegada se já não tivesse visto muita coisa que foi usada em outros filmes que gosto: - Alienígenas mandando uma mensagem pra Terra e governos confundindo a mensagem com uma arma: Contato. - Protagonista resolvendo o problema do filme através de informações vindas do futuro: Interstellar. - População reagindo de formas distintas à descoberta dos aliens (cena com uma multidão acampada próximo ao local, reação de grupos religiosos etc): Contato. - Alienígenas que possuem um entendimento do tempo diferente de nós: Interstellar. - Protagonista solteira e uma das melhores da sua area e que dedica sua vida ao trabalho: Contato. - Existência de um loop espaço-tempo essencial pra resolução do problema: Interstellar - Drama pessoal (relação forte com um familiar) é um dos pilares do protagonista: Contato/Interstellar. Ambos os filmes trazem questões interessantes: A comunicação é uma questão de A Chegada, assim como o tempo é uma questão em Interstellar. Interstellar é melhor que Arrival em quase todos os aspectos. O único aspecto que pode ser inferior é no quesito "arte"; no uso de enquadramentos e edição mais experimentais. E digo isso tb assumindo que é uma avaliaçao bem subjetiva. Visualmente, é muito mais impactante e bonito Interstellar que A Chegada. Ele consegue passar um senso de maravilha/admiração que em A Chegada não consege alcançar. E o Nolan tem sofisticação tb. A explicação sobre o Amor é uma teoria do personagem, nao necessariamente a verdade (o livro do Kip Thorne sobre o filme explica os acontecimentos sem falar em amor). A propria Brand fala que o sentimento dela pode interferir na capacidade de raciocínio dela. Mas mesmo nesse aspecto, Chegada se parece com ele: o que importa é o amor. Em Interstelar, diante do exterminio da espécie humana e da informação de que existem "alienígenas", o protagonista se volta pro amor dele pela filha e a necessidade de estar junto. Em A Chegada, diante da informação de que existem alienígenas e do absurdo de podermos ver o futuro, a protagonista se volta pro amor dela pela filha e a necessidade de estarem juntas. (ela pode ver o futuro, mas não vemos ela falando no final sobre catastrofes pelo mundo que poderiam ser evitadas. O que importa é o amor pela filha). O aspecto mais importante pros protagonistas não é sobre alienígenas e salvar o planeta (Interstellar uma catastrofe ambiental; A Chegada uma possível guerra mundial), mas algo mais pessoal. Interstellar é sobre a forma que usamos nosso tempo, sobre aproveitar os momentos com as pessoas que amamos e A Chegada é sobre aproveitar esses momentos, mesmo sabendo que eles acabam. O paradoxo da Brand... eu não entendi a que vc se referiu. Os humanos do presente que resgataram o Cooper na Estação iriam até o planeta que ela achou, onde ela começou a montar a base que seria o plano B da missão.