Críticas por Pablo Villaça

Poster: Creed: Nascido para Lutar
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
14/01/2016 25/11/2015
Distribuidora
Warner

 

 

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Creed: Nascido para Lutar
Creed

Creed: Nascido para Lutar

Dirigido por Ryan Coogler. Roteiro de Ryan Coogler e Aaron Covington. Com: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Andre Ward, Ritchie Coster, Graham Mc Tavish.

Foi em 1976 – há 40 anos, portanto – que Rocky Balboa (Stallone) entrou no imaginário coletivo de cinéfilos de todo o mundo. Precocemente fracassado em seus sonhos de boxeador, Rocky trabalhava como cobrador para um gângster local, flertava desajeitadamente com a tímida Adrian (irmã de seu amigo alcoólatra Paulie) e se via frustrado por não ser levado a sério pelo treinador Mickey. Desde então, vimos o herói se tornar campeão dos pesos-pesados, apanhar de Clubber Lang, testemunhar o massacre do adversário-depois-melhor-amigo Apollo nas mãos de Drago, vingá-lo em plena União Soviética (o que foi aquilo?!), treinar um jovem e depois ser obrigado a enfrentá-lo e, finalmente, retornar ao ringue já quase idoso para combater Mason Dixon. Sim, foram muitas lutas, desafios e perdas que inevitavelmente despertaram um profundo carinho pelo personagem – e, portanto, é interessante perceber como a decisão tomada neste novo capítulo de sua história é inesperada: aqui, Rocky se torna um coadjuvante em seu próprio universo, cedendo o protagonismo a um personagem novo, Adonis Creed (Jordan).

Como o nome e o sobrenome claramente indicam, Adonis – ou Donnie, como prefere ser chamado – é filho de Apollo e fruto de um relacionamento extraconjugal que o ex-campeão manteve com uma fã. Órfão e sozinho no mundo, ele acaba sendo adotado por Mary Anne (Rashad), viúva de seu pai, tornando-se executivo de uma empresa em Los Angeles. Atraído pelo mundo do boxe, porém, ele se dedica a combates amadores em ringues improvisados até finalmente decidir se tornar profissional – um objetivo que o leva a buscar a ajuda do velho e relutante Rocky. Mas por que Adonis se mostra tão determinado a se entregar a um esporte violento e obviamente perigoso? Apenas por apreço pelo ringue? Como forma de extravasar a raiva acumulada ao longo dos anos? Vontade de provar ser superior ao pai que não conheceu, saindo de sua sombra?

Um pouco de tudo, sem dúvida, embora esta última motivação acabe se apresentando mais forte que as demais graças a uma cena incrivelmente evocativa, ainda no primeiro ato da narrativa, que traz o rapaz assistindo a uma luta de Apollo projetada na parede e finalmente se aproximando da imagem para executar alguns movimentos que, graças ao enquadramento preciso, parecem colocá-lo em um confronto com o pai falecido. Esta passagem, aliás, é atípica na série, que, por mais eficiente que seja (e gosto particularmente do original e de Rocky Balboa), nunca se notabilizou muito por construir simbolismos visualmente sofisticados.

E é aqui que entra a genialidade de entregar o comando do projeto ao jovem cineasta Ryan Coogler, que havia acabado de estrear na direção com o excelente Fruitvale Station (no qual já trabalhara com Michael B. Jordan): trazendo energia e ambição renovadas a uma franquia com quatro décadas de existência, Coogler demonstra sua ambição narrativa ao encenar – com a ajuda da excelente diretora de fotografia Maryse Alberti - a primeira grande luta de Adonis em um único e longo plano que nos atira no ringue ao lado do rapaz, aproximando, afastando e girando sua câmera de acordo com o foco de cada golpe e ressaltando, com isso, a brutalidade do embate. Da mesma maneira, em um momento anterior, Coogler e Alberti já haviam levado o público a perceber a força de um soco sobre um lutador ao levarem a câmera a cair junto com o atleta, enfocando não só a velocidade e o impacto da queda como o efeito em seu rosto.  

Há, claro, algumas firulas visuais descartáveis ao longo da projeção (como os cartões que exibem estatísticas dos boxeadores na tela), mas estas são mais do que compensadas por outras decisões narrativas admiráveis – e o design de produção, em especial, se destaca tantos em suas sutilezas (como o posicionamento das fotos na parede do restaurante de Rocky e dos cartazes com os nomes de antigos lutadores no vestiário) quanto em seus aspectos mais óbvios (como a modernização da velha academia de Mickey). Além disso, os figurinos fazem um belo trabalho ao usarem referências aos longas anteriores como forma de salientar o desenvolvimento emocional de Adonis, que usa um moletom cinza similar ao de Balboa durante o treinamento e calções igualmente significativos em sua luta final.

Adonis, aliás, é um protagonista que faz jus ao peso emocional que Rocky exibia no original: humilde (mesmo que explosivo) e normalmente sensato, ele é vivido por Michael B. Jordan como um jovem seguro como lutador (notem como ele já começa a tirar as luvas, em sua primeira luta, ao perceber que nocauteou o oponente), mas inteligente o bastante para saber que esta segurança não deve iludi-lo quanto às suas limitações (e seu nervosismo antes de outro combate funciona simultaneamente como alívio cômico e uma maneira de humanizá-lo ainda mais). Sensível, ele encontra em Bianca (Thompson) um apoio emocional tão importante quanto o que Adrian oferecia a Rocky – e a relação do casal é retratada pelo roteiro de Coogler e Aaron Covington sem artifícios dramáticos tolos: quando eles brigam, por exemplo, a discussão parece realmente ter o propósito de levá-los a um entendimento, permitindo que ambos expressem seus pontos de vista. Além disso, é notável como Bianca jamais é retratada apenas como “a namorada do herói”, sendo uma mulher independente e com seus próprios projetos e obstáculos.

Para completar, há, claro, o Rocky de Sylvester Stallone: ator cujo talento já defendi não só ao escrever sobre Rocky Balboa, mas também ao discutir obras como Cop Land, Daylight e mesmo a fraca refilmagem O Implacável, ele poderia interpretar o boxeador no piloto automático, mas consegue sugerir novamente a complexidade emocional do sujeito e também sua natureza amável através de cenas que outros intérpretes teriam dificuldade de vender ao público. Observem, por exemplo, como ele pega a cadeira que mantém próxima ao túmulo de sua esposa e notem a naturalidade do gesto, como se já o tivesse executado milhares de vezes ao longo dos últimos anos – e percebam, também, como nos leva a aceitar, através de seus modos surpreendentemente doces e vulneráveis, que Rocky é realmente o tipo de pessoa que conversaria com as lápides que marcam os nomes de pessoas amadas (num instante que Stallone também emprega para demonstrar a súbita percepção do personagem acerca da própria solidão). Homem de filosofias simples, mas que ressoam em Adonis justamente por isso (“O homem no espelho é seu maior oponente”), Balboa é atencioso o bastante para se preocupar com a condição de um oponente derrotado e também humano o suficiente para, ao receber uma notícia difícil, mostrar-se abalado, triste e... amedrontado.

Ancorado na dinâmica entre Adonis e Rocky, que, claro, não demoram a estabelecer uma relação que remete à de pai e filho, Creed usa o original como inspiração óbvia em sua própria estrutura (até mesmo ao recuperar a ideia do campeão que oferece uma chance única a um lutador desconhecido), o que tira um pouco de seu frescor; por outro lado, sua delicadeza ao lidar com os personagens é tamanha que o investimento emocional do espectador jamais deixa de ser recompensado. E, assim, quando os acordes do tema agora clássico de Bill Conti são incorporados à música do compositor Ludwig Göransson, torna-se difícil resistir às memórias que trazem e à forma como estas são ecoadas na nova trama.

Com isso, a aposta dos realizadores de transformar o velho protagonista em coadjuvante e eleger um personagem novo ao posto de centro da narrativa acaba se revelando acertada, o que talvez nos leve a ignorar a magnitude do risco assumido pela série, já que relegar Rocky ao segundo plano seria como produzir um novo Star Wars e deixar Luke de lado para se concentrar em heróis dos quais jamais ouvíramos fal...

É, 2015 certamente foi um ano interessante para velhas franquias.

13 de Janeiro de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.