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Invocação do Mal 2

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por James Wan. Roteiro de Carey Hayes, Chad Hayes, James Wan e David Leslie Johnson. Com: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, Simon Delaney, Bob Adrian, Bonnie Aarons e Franka Potente.

Filmes de gênero tendem a atrair diretores preguiçosos. Seguros de que conseguirão ao menos repetir as mesmas convenções já testadas em produções infinitamente superiores, estes realizadores se contentam com o bê-á-bá e com o clichê, criando obras genéricas que mesmo em seus melhores momentos remetem apenas a outras melhores. Assim, quando algo como Invocação do Mal 2 (ou como seu antecessor – não confundir com Annabelle -, Corrente do Mal, A Bruxa ou O Babadook) surpreende pela eficácia com que traz vida nova à linguagem – mesmo que não necessariamente por sua originalidade -, a sensação de qualquer cinéfilo é a de estar diante do tipo de filme que despertou sua paixão pela Arte em primeiro lugar.

Baseado em uma história real (assim como O Hobbit, imagino), esta continuação traz o casal Lorraine e Ed Warren (Farmiga e Wilson) investigando os eventos supostamente sobrenaturais ocorridos numa vizinhança humilde de Londres entre 1977 e 1979 e que envolviam a jovem Janet Hodgson (Wolfe), uma de quatro irmãos criados pela humilde Peggy (O’Connor). Alegando ouvir vozes estranhas e testemunhar móveis movendo-se sozinhos (o “alegando” fica por conta da realidade; no longa, tudo ocorre diante da câmera), Janet é atormentada pelo espírito de um homem que morreu no local e que parece divertir-se ao assustá-la, ao feri-la e mesmo ao mudar o canal de tevê para - oh, Deus, isso é horrível demais para descrever - para que exiba um discurso de Margaret Thatcher (sim, ele é extremamente cruel).

Mais uma vez caprichando na recriação de época e usando-a para ajudar a criar a atmosfera angustiante e sombria da narrativa, Invocação do Mal 2 estabelece o lar dos Hodgson como um espaço humilde por fora e devastado por dentro, ressaltando a sujeira e as rachaduras nas paredes, o esgarçamento dos móveis e, claro, as cores tristes que dominam o lugar e que se contrapõem com a residência infinitamente mais agradável dos Warren (que, no entanto, logo exibe corredores estreitíssimos e aposentos opressivos quando necessário). Aqui e ali, o filme não resiste a fazer piadinhas óbvias com a tecnologia do período (ao segurar uma imensa câmera, Ed comenta: “É tão pequena e leve!”), mas estes elementos são compensados por outros mais sutis, como o suporte da janela da cozinha que remete a um crucifixo. Da mesma maneira, os figurinos podem ocasionalmente apelar para a caricatura (como o terno engomadinho e os óculos do esnobe debatedor que questiona os Warren), mas, na maior parte do tempo, costura uma lógica admirável – como, por exemplo, ao trazer certo(a) personagem usando roupas vermelhas que vão perdendo a cor e se tornando marrons à medida que sua realidade se transforma (e, não à toa, reparem na cor do cobertor que o(a) envolve em sua última cena).

Esta oscilação entre acertos fabulosos e tropeços pontuais ocorre também na seleção musical: se o interlúdio que enfoca Ed cantando uma canção de Elvis Presley para a família Hodgson permite um respiro na narrativa, tornando aquelas pessoas mais próximas do espectador, a escolha de “I Started a Joke” para acompanhar outra sequência é simplesmente desastrosa, convertendo em piada (duh) o que deveria ser uma passagem melancólica. Ainda assim, é preciso reconhecer os esforços da obra para humanizar os personagens ao incluir breves instantes mais intimistas como aquele em que Maurice Grosse (McBurney) fala sobre a filha – e se o amor avassalador de Ed e Lorraine soa um tanto artificial, isto é equilibrado pelo carisma de Patrick Wilson e Vera Farmiga. Para completar, a performance da jovem Madison Wolfe, como Janet, impressiona pela combinação de vulnerabilidade e ameaça, remetendo, em seus melhores momentos, à de Linda Blair em O Exorcista. (Eu disse “em certos momentos”.)

Investindo na concepção de imagens icônicas de terror desde o primeiro plano, que traz as janelas inconfundíveis da casa de Horror em Amityville, o diretor James Wan (Jogos Mortais, Invocação do Mal, Velozes & Furiosos 7) usa sem parcimônia os inquietantes ângulos holandeses (inclinados) e também as sombras duras que ocultam de forma quase impossível os rostos deformados e assustadores dos espíritos e demônios que torturam os heróis (e o garotinho de olhos completamente brancos visto rapidamente na introdução é um de meus “favoritos”). Além disso, Wan sabe que a atmosfera é mais importante do que sustos ocasionais para deixar o público preso à poltrona e, assim, mantém o céu sobre a casa da família Hodgson sempre nublado, abrindo-o apenas quando se torna apropriado para seus propósitos.

Ok, o cineasta por vezes não resiste às possibilidades do digital ao criar movimentos de câmera que falham por chamarem a atenção para si mesmos (quantas vezes teremos que ver um plano no qual “atravessamos” uma janela enquanto um efeito sonoro tolo pontua a travessia?) e, da mesma maneira, um dos espíritos vistos aqui é artificial demais em sua natureza de animação, mas na maior parte do tempo Wan demonstra uma disciplina admirável, construindo seus sustos com calma e inteligência. É notável, por exemplo, como ele nos posiciona junto aos personagens em dois momentos nos quais estes se encontram sentados no chão, tornando os arredores grandiosos e ameaçadores, e também como emprega a câmera subjetiva em determinado ponto para gerar suspense quando o personagem em questão está com a visão comprometida.

E mesmo que o diretor abuse dos planos nos quais a câmera oscila entre algum humano e certo ponto do cenário, indo e voltando enquanto nos preparamos para que finalmente revele algo, o fato é que este recurso jamais deixa de funcionar – ainda que nos julguemos capazes de antecipar o que virá. Além disso, há ao menos um plano em Invocação do Mal 2 que posso classificar como “brilhante” sem hesitação: aquele no qual vemos Ed em close enquanto, às suas costas, ao fundo e desfocada pela pequena profundidade de campo, Janet parece estar incorporando o espírito maligno que assombra sua casa e cuja aparência podemos apenas adivinhar.

Eficiente como exercício de gênero, esta continuação é um daqueles filmes de terror que conseguem causar um efeito muito mais duradouro do que os sustos pontuais: aqueles arrepios na nuca que voltam quando simplesmente nos lembramos das imagens que os provocaram.

15 de Junho de 2016

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Surpreende pela eficácia com que traz vida nova à linguagem do gênero.

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Avaliações dos Usuários

Danilo Calazans
Danilo Calazans15 de jun. de 2016

Sou grande fã da maneira como enxerga os filmes, Pablo. Gostei muito do texto, mas gostei menos do filme, inferior ao primeiro e possivelmente a nova "Atividade Paranormal" do cinema. Fiz uma análise também: http://www.loucosporfilmes.net/2016/06/critica-invocacao-do-mal-2.html#.V2HjjLsrLIV