Críticas por Pablo Villaça

Poster: Esquadrão Suicida
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
04/08/2016 05/08/2016
Distribuidora
Warner

 

 

Publicidade


Esquadrão Suicida
Suicide Squad

Esquadrão Suicida

Dirigido e roteirizado por David Ayer. Com: Will Smith, Margot Robbie, Viola Davis, Jared Leto, Common, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Cara Delevingne, Joel Kinnaman, David Harbour, Ike Barinholtz, Alain Chanoine, Adam Beach, Karen Fukuhara, Scott Eastwood, Ezra Miller e Ben Affleck.

(Não há spoilers importantes acerca da trama, mas se você é daqueles que consideram qualquer detalhe como uma grande revelação, sugiro que volte a este texto após assistir ao filme.)

Durante os primeiros segundos de Esquadrão Suicida, quando as vinhetas das empresas produtoras surgiram na tela redesenhadas para incluir um brilho verde-esmeralda vilanesco, senti que poderia estar prestes a assistir a um filme de “super-heróis” (ou de “anti-super-heróis”) interessante e disposto a abraçar o lado sombrio de seus personagens. Até, claro, o longa imediatamente se entregar a um medley desajeitado que parecia mais interessado em garantir boas vendas no iTunes do que em qualquer outra coisa – e o quão niilista pode ser um projeto disposto a subordinar a narrativa a interesses financeiros? Algo como Deadpool não acontece todos os dias.

Supostamente empregadas para introduzir cada um dos principais elementos do roteiro escrito pelo cineasta David Ayer, as canções saltam do óbvio (“Sympathy for the Devil”? Sério?) ao inexplicável (“The House of the Rising Sun”), colando artificialmente uma montagem que traz a implacável Amanda Waller (Davis) convencendo seus superiores a permitirem a criação de uma força-tarefa composta por alguns dos piores vilões depositados pelo Batman em suas celas: além do Pistoleiro (Smith), há também Arlequina (Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney fantasiado de Tom Hardy), Crocodilo (Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Hernandez) e Amarra (Beach). A mais poderosa de todos, porém, é Magia, uma entidade antiga que ocasionalmente controla o corpo de June Moone (Delevingne). Algo, porém, sai errado – pois é, quem poderia imaginar? – e o plano de Waller se torna uma destas profecias auto realizadas ao criar exatamente o tipo de problema que foi concebido para enfrentar. (Um detalhe que nenhum de seus superiores parece apontar.)

Transformando todo o primeiro ato em uma série de cenas carregadas da mais pura exposição, Esquadrão Suicida nem mesmo se preocupa com todos os integrantes da equipe-título, dedicando algum tempinho maior às origens de Pistoleiro e Arlequina e relegando os demais a explicações que soam acidentalmente hilárias de tão casuais (a existência de Magia é justificada com um “Moone abriu uma coisa que não deveria”, enquanto Amarra é apresentado simplesmente como um sujeito que “escala qualquer estrutura”). O mais espantoso é que, mesmo depois da longa e ineficaz introdução, o roteiro ainda vê a necessidade de incluir novos detalhes ou mesmo novas figuras já quase na metade do filme, parando a narrativa bruscamente para que vejamos um flashback (dispensável e nada esclarecedor) sobre Katana (Fukuhara) ou outro apenas para reforçar a atração de Arlequina pelo Coringa (Leto).

Estes problemas, porém, nem são tão graves quando comparados ao sentimentalismo barato recorrente do roteiro, que trai a natureza brutal dos personagens que supostamente deveria abraçar para investir em diálogos terríveis que procuram demonstrar como eles rapidamente se apegam uns aos outros, passando a se considerar até mesmo uma “família” – e quando em outro ponto a história parou para que Katana pudesse chorar diante da espada que carrega há anos, o pretexto utilizado é tão ridículo que só nos resta rir.

Infelizmente, Ayer (responsável pelo fraco Tempos de Violência, pelo bom Os Reis da Rua e pelo ótimo Marcados para Morrer) só consegue piorar seu péssimo roteiro ao dirigi-lo com uma incompetência inegável. Confundindo caos com energia, ele roda as sequências de ação como uma combinação deselegante de planos-detalhe rápidos e confusos de vidros partindo e armas sendo disparadas com closes de reações de seus atores que, de tão genéricas, poderiam ter saído de qualquer outra sequência. Além disso, o cineasta nem mesmo se preocupa em disfarçar como o pelotão comandado por Flag (Kinnaman) surge ou desaparece de acordo com as necessidades imediatas da trama e como o visual grotesco dos monstros criados pela vilã tem o propósito de permitir que estes sejam massacrados sem que isto comprometa a classificação indicativa do filme.

A mesma cara-de-pau do diretor ressurge na exploração dos corpos de suas atrizes, que, ao contrário dos homens (cobertos por várias camadas de roupas da cabeça aos pés), se metem em brigas e tiroteios (à noite e sob a chuva) usando shorts mínimos e blusas/vestidos justos e decotados, ressaltando suas formas – e a última vez em que vi a bunda de uma atriz receber mais destaque do que a de Margot Robbie em uma superprodução, o diretor se chamava Michael Bay. Arlequina, por sinal, é a típica personagem feminina que os homens que atacaram As Caça-Fantasmas certamente vão apontar como um exemplo de “mulher forte e independente”, ignorando convenientemente o fato de ela ser totalmente subordinada ao Coringa (chegando a usar uma coleira à la Luma de Oliveira com o nome de seu “dono”), levar um soco do Batman (Affleck) e – o mais ofensivo – ter seu maior sonho exposto como sendo o de levar uma vida de dona de casa suburbana normal ao lado de dois filhos e do marido psicopata. Uma mulher “independente” do jeitinho que machistas gostam, portanto.

Robbie, diga-se de passagem, compõe a vilã como uma criatura que sabe ser insana (isto não a tornaria sã por definição?), acha isto hilário e faz questão de lembrar o espectador acerca de sua insanidade praticamente em todas as suas falas (a loucura, aliás, é seu “superpoder”). Enquanto isso, o bom Adewale Akinnuoye-Agbaje surge irreconhecível sob camadas e camadas de (excelente) maquiagem, mal abrindo a boca ao longo da projeção, ao passo que Will Smith, como o Pistoleiro, ao menos parece levar o projeto a sério mesmo sabotado pelo roteiro. Já Viola Davis faz um quase milagre ao evitar que Waller se transforme na caricatura completa criada por Ayer, conferindo credibilidade a ações tremendamente implausíveis.

O que nos traz ao Coringa de Jared Leto.

Se ao discutir a versão vivida por Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas escrevi que esta exalava “instabilidade e perigo”, o máximo que posso dizer sobre a de Leto é que soa como uma daquelas imitações mal feitas por alguém que jura estar fazendo um trabalho perfeito. Claramente inspirando-se na composição vocal de Ledger (chegando ao ponto de repetir certas inflexões e a tendência de deixar que os finais das palavras se prolonguem um pouco mais do que o esperado), o ator transforma o Coringa em uma coleção de tiques e maneirismos artificiais cuja obviedade pode ser representada perfeitamente pelo “damaged” (danificado, estragado) que traz tatuado na testa, como se temesse não deixar suficientemente clara sua psicose. E pior: para Leto, a marcante risada do vilão não é uma ação, mas uma muleta, já que insiste em incluí-la em praticamente todas as suas cenas, sejam estas justificadas de alguma maneira ou não. Se o Coringa de Ledger ria quando achava algo divertido (mesmo que este algo fosse grotesco), o de Jared Leto ri apenas porque isto o deixa mais Coringa.

Para finalizar o desastre, a Magia de Cara Delevingne, embora inicialmente apresentada através de uma transformação interessante (sua mão parece surgir do verso da de sua “hospedeira”), logo se converte numa das figuras mais ridículas do filme – e seus movimentos a partir do instante em que assume a forma de Gozer o Gozeriano (digam se o terceiro ato de Esquadrão Suicida não saiu dOs Caça-Fantasmas original) parecem inspirados pela dança da Elaine de Seinfeld.

Ainda assim, para que não pareça que detestei tudo nesta produção, confesso que o plano que traz o Coringa e a Arlequina abraçados em um tanque repleto de ácido enquanto suas cores se misturam no líquido é esteticamente belíssimo.

Isto é, até o Coringa decidir gargalhar pela enésima vez.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais.

04 de Agosto de 2016

A lista com mais de 80 críticas sobre adaptações de HQ pode ser lida aqui.

Assista também ao videocast (sem spoilers) sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.