Críticas por Pablo Villaça

Poster: Um Cadáver para Sobreviver
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/12/2016 01/07/2016
Distribuidora

 

 


Um Cadáver para Sobreviver
Swiss Army Man

Um Cadáver para Sobreviver

Dirigido e roteirizado por Dan Kwan e Daniel Scheinert. Com: Paul Dano, Daniel Radcliffe, Mary Elizabeth Winstead, Antonia Ribero, Timothy Eulich, Richard Gross, Marika Casteel, Andy Hull e Shane Carruth.

O peido como metáfora de auto aceitação.

Taí uma frase que nunca imaginei que iria escrever um dia – muito menos como introdução de uma crítica sobre um filme que me encantou tanto. Porém, é exatamente este tipo de proeza que os diretores estreantes Dan Kwan e Daniel Scheinert realizam em Um Cadáver para Sobreviver. Empregando mais efeitos sonoros de flatulência do que qualquer longa estrelado por Adam Sandler, esta obra surpreendente transforma cada peido em um passo rumo ao crescimento de seu protagonista, em um esforço para se abrir para o próximo, não se levar tão a sério e abraçar as próprias idiossincrasias.

Se ao ler o parágrafo acima você imediatamente reprovou o mau gosto do conceito, provavelmente não conseguirá ir além da sequência pré-créditos do filme, que, também escrito pelos Daniels (como assinam o projeto), nos apresenta a Hank (Dano), um jovem que aparentemente encontra-se há anos preso em uma ilha deserta e que, prestes a se matar, vê um corpo ser arrastado para a praia. Frustrado pelo cadáver quando esperava encontrar um companheiro, o rapaz acaba descobrindo que o corpo (Radcliffe) pode ajudá-lo de várias maneiras inesperadas, funcionando como uma espécie de canivete suíço - como aponta o título original. A partir daí, Hank e Manny (como passa a chamar o outro) iniciam uma jornada em busca da civilização enquanto sonham com a bela garota (Winstead) pela qual se encontram apaixonados.

O uso do plural nesta descrição não é acaso: vivido (e reconheço a ironia do verbo) por Daniel Radcliffe, Manny está longe de ser uma figura passiva, ganhando personalidade à medida que a dupla avança em sua viagem e revelando-se uma espécie de “Wilson” (o companheiro de Tom Hanks em Náufrago) ao servir como um elemento no qual Hank pode projetar suas inseguranças, seus questionamentos e mesmo seus traumas. Aliás, mais do que isso: inocente como um recém-nascido, Manny desconhece as convenções sociais mais básicas, o que obriga o amigo a educá-lo ainda que, como logo percebemos, também não saiba muito sobre como lidar com elas – e é formidável como Radcliffe consegue tornar um cadáver tão doce em sua ingenuidade. Por outro lado, Paul Dano é eficiente ao ilustrar o arco de Hank, que começa a enfrentar suas fragilidades particulares provavelmente pela primeira vez na vida - e é este contraste que faz deste filme uma experiência tão instigante: se Manny revela uma vida interior presa em um corpo morto, Hank é um ser biologicamente vivo que abriga uma alma morta.

Remetendo aos ótimos Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia e Três Enterros, que também adotavam a estrutura de road movie para abordar uma longa viagem feita por um homem e um defunto (ou parte de um), Um Cadáver para Sobreviver é uma obra que reconhece a imensa necessidade que temos de nos comunicar e de estabelecer ligações com alguém – ou, no mínimo, com algo – que nos permita forjar algum tipo de elo emocional. Assim, não é surpresa que logo o filme assuma uma atmosfera que flerta constantemente com a fantasia, se tornando consideravelmente mais interessante ao deixar claro que cada etapa da jornada representa algo muito maior do que um deslocamento geográfico: não é à toa, por exemplo, que Hank sai de uma ilhota e passa a caminhar por uma densa floresta, já que isto reflete seu isolamento inicial e a difícil trajetória psicológica que inicia a seguir enquanto busca o objetivo de retornar à civilização (leia-se: a expressar o que sente para Sarah, sua musa distante).

Mas se as discussões temáticas podem surpreender depois de um tempo, o refinamento técnico da produção já se mostra presente desde os primeiros segundos de projeção: fotografado com inteligência por Larkin Seiple, que usa maravilhosamente bem a câmera lenta e brinca com a saturação das cores de acordo com o estado de espírito de Hank (e Manny), Swiss Army Man traz também um design de produção inventivo que se faz mais e mais brilhante à medida que os dois amigos se entregam às recriações de passagens da vida do protagonista, usando elementos que encontram na mata para construir um restaurante, o interior de um ônibus e assim por diante. Além disso, se a edição de efeitos sonoros acerta nos ruídos emitidos por Manny (não só os gases, mas os estalos grotescos de suas articulações), a ótima trilha composta por Andy Hull e Robert McDowell aposta em harmonias a capella que poderiam ter sido, no extremo, executadas pelos próprios personagens e que incorporam a metalinguagem para refletir o processo mental de Hank, que é, em última análise, o criador da narrativa.  

Eficaz em seu estranho e sombrio senso de humor, Um Cadáver para Sobreviver geralmente faz rir enquanto o subtexto da piada oferece uma outra leitura: se o pênis de Manny passa a atuar como bússola, por exemplo, não menos revelador é o fato de que aponta para onde Sarah se encontra, o que ressalta como a garota se tornou literalmente o norte de Hank. Aliás, é justamente por empregar tão bem o simbolismo que o filme desaponta um pouco em seus minutos finais, que (sem revelar nada importante), num esforço para justificar tudo o que vimos de um ponto de vista congruente com a “realidade”, desmonta um pouco o efeito da fantasia que viera antes.

De todo modo, é fascinante testemunhar como a obra é hábil ao justapor grandes temas a um tipo de gag que normalmente consideraríamos apenas juvenil, comprovando que algo pode ser simultaneamente ridículo e profundo – e não é sempre que vemos uma vida sendo salva por um cadáver.

Não sei de onde os Daniels vieram, mas espero que não sumam tão cedo e que logo voltem com outro filme. Qualquer artista que nos faça refletir a partir de um peido merece espaço e também nossa atenção.

22 de Dezembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.