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Passageiros

★☆☆☆☆1/5 estrelas
12 min

Dirigido por Morten Tyldum. Roteiro de Jon Spaihts. Com: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Julee Cerda e Andy Garcia.

(Este texto contém spoilers – que, a rigor, não deveriam sê-lo, já que ocorrem ainda no primeiro ato da trama. Porém, como a campanha publicitária por trás do projeto o apresentou de forma incrivelmente falsa, falar sobre qualquer elemento de sua pavorosa trama acaba sendo uma revelação.)

Quis o acaso que eu assistisse a Passageiros logo depois de ver a animação da Disney que estreou no mesmo dia nos cinemas brasileiros – e o contraste não poderia ter sido maior: se Moana traz uma protagonista forte, independente e que controla o próprio destino, Passageiros encara sua personagem feminina como uma mera fantasia masculina que existe basicamente como objeto de desejo, sendo constantemente retratada em vestidos com imensos decotes ou em um maiô semitransparente que usa com curiosa frequência para alguém que se encontra no espaço. Que seu nome seja Aurora, como o da passiva princesa da Disney, só não é uma coincidência ainda maior por ter sido empregado como uma referência óbvia pelo inacreditável roteiro de Jon Spaihts.

Concebido como um faz-de-conta sexista e perturbador em seus aspectos morais, o filme se passa a bordo de uma imensa espaçonave que conduz cerca de cinco mil pessoas em uma viagem de 120 anos até um planeta recém-colonizado pelos terráqueos. Porém, quando um campo de asteroides provoca uma pane no sistema da nave, um dos passageiros, Jim (Pratt), é despertado de sua hibernação e se descobre destinado a 90 anos de solidão. Depois de algum tempo, já desesperado com a situação, ele se vê atraído por Aurora (Lawrence), uma escritora ainda adormecida – e, agindo como quem escolhe uma roupa em um catálogo, o sujeito decide acordá-la. No entanto, se o príncipe de A Bela Adormecida salvava a amada ao trazê-la de volta à consciência, aqui Jim essencialmente condena a garota à morte ao prendê-la ao seu lado em uma viagem que só chegará ao fim muito depois que ambos já tiverem deixado de existir.

O problema de Passageiros, contudo, não reside em ter um protagonista tão egoísta e inconsequente – obras excepcionais podem ser construídas em torno de figuras desprezíveis (pensem em Amadeus, Cidadão Kane ou – imaginem! – A Queda, que tem Adolf “Pior Humano que Já Existiu” Hitler como seu centro dramático). Não; se há algo de errado com esta produção é que, ao contrário das demais que acabei de citar e que reconheciam a vilania de seus personagens (ou ao menos não a justificavam), este filme considera Jim um herói. Em resumo, portanto, este é um longa que parece ter sido escrito por um daqueles caras que vivem reclamando nas redes sociais que as mulheres “só gostam de homens babacas e não sabem valorizar aqueles que as tratariam como princesas”.

E o mais decepcionante é que havia potencial aqui. O primeiro ato, por exemplo, é hábil ao nos apresentar aos conceitos básicos da trama e ao estabelecer a solidão enlouquecedora experimentada por Jim, que se vê frustrado ao tentar conversar com máquinas que respondem sem realmente responder (o que resulta numa referência gratuita e inexplicável a O Iluminado) e ao esgotar todas as possibilidades de salvação, inicialmente resignando-se ao seu infortúnio até atingir o ponto no qual começa a contemplar o suicídio. Mas é aí, claro, que ele vê Aurora em sua cápsula de hibernação e, depois de stalkeá-la através de todos os registros deixados pela moça, decide despertá-la. Sim, ele reconhece que o que fará é errado, imoral, e se sente culpado por isso – o que não o impede de seguir com seu plano. E é aqui que o diretor Morten Tyldum, que já havia usado a tragédia pessoal de Alan Turing de forma cínica em O Jogo da Imitação, volta a exibir seu julgamento falho ao tentar transformar o debate e a culpa de Jim em justificativa para suas ações, como se devêssemos sentir pena do sujeito por ele se achar um canalha ao agir como um.

O mais chocante, no entanto, é constatar como o cineasta e o roteirista buscam retratar o gradual envolvimento entre Jim e Aurora como algo romântico apesar de tudo – afinal, ele dá “espaço” à moça, esperando que ela demonstre algum interesse antes de convidá-la inocentemente para jantar, levando-a, inclusive, a comentar como ele demorou a fazê-lo. Ora, “romântico”? Mesmo? Qual escolha ela tinha, afinal, já que sabia estar fadada a conviver com ele por décadas? Além disso, o envolvimento dos dois soa como algo apenas natural; afinal, do que ela poderia reclamar, já que o sujeito tem o rosto e o corpo de Chris Pratt? É claro que eles tinham que transar, certo?

Mas e se Jim fosse vivido por Steve Buscemi, Luis Guzmán, Danny Trejo ou Paul Giamatti? Será que ainda assim o filme consideraria charmoso ou digno de pena o torturado protagonista – especialmente depois que Aurora descobre o que ele fez e se mostra compreensivelmente enojada? (É evidente que ela descobriria; a ironia dramática exige o momento do reconhecimento por parte do personagem que se encontra no escuro.) Quando ela tenta se afastar e o ex-parceiro usa o sistema de som da nave para abordá-la, cometendo o que é fundamentalmente assédio ao forçá-la a ouvi-lo, o pesadelo no qual a mulher vive não ficaria mais patente caso fosse representado por Joe Pesci?

(Não estou dizendo, obviamente, que o assédio se torna menos repreensível quando cometido por pessoas atraentes; o ponto aqui é que Passageiros faz um imenso esforço para torná-lo aceitável – e escalar Pratt faz parte da estratégia.)

Aliás, até mesmo as sementes de boas discussões temáticas acabam por se revelar sórdidas em suas intenções: quando Jim nota que Aurora tem direito a refeições melhores por ser uma passageira de luxo, por exemplo, somos momentaneamente levados a acreditar que algum tipo de alegoria social será desenvolvido - até que percebemos que, na realidade, aquela é simplesmente mais uma forma de gerar simpatia pelo “herói” e diminuir Aurora diante do espectador. Afinal, ele é um “trabalhador”, um engenheiro humilde que decide viajar para tentar construir algo novo, ao passo que ela é uma riquinha que jamais fez nada de relevante -  além de ser mimada pelo pai famoso, embarcando na jornada apenas para viver uma aventura que talvez possa vir a utilizar em um livro. Da mesma forma, não é surpresa que nos momentos de emergência ela chore, sinta medo e se mostre perdida, ao passo que ele se mantém calmo e encontre soluções para tudo. Ora, não é mesmo uma tremenda sorte que ela tenha ao seu lado um Homem? (Eu não ficaria surpreso caso Jim, em suas redes sociais, se apresentasse como “cidadão de bem”.)

A desonestidade moral de Passageiros atinge seu ápice, porém, em seu terrível terceiro ato, que apela para o absurdo completo, sacrificando qualquer plausibilidade em prol de um esforço final para demonstrar como Jim merece ser recompensado. Mas pergunte-se quanto tempo Aurora levaria para (de novo: spoilers) puxá-lo de volta para a nave, removê-lo de seu traje espacial e carregá-lo para a cabine de tratamento médico (ele deve pesar, no mínimo, vinte quilos a mais que ela): caso ainda fosse possível revivê-lo, ele estaria condenado a passar o resto de sua existência como vegetal – e isto ainda seria mais verossímil do que vê-lo sobreviver à descarga do reator apenas por estar segurando uma porta como escudo térmico ao ser atingido pelo calor e pela radiação.

E tudo isso para que Aurora possa implorar que ele volte para ela, comprovando que, afinal de contas, a fantasia masculina de despertar a fidelidade e o amor de uma mulher que se encontrava fora de alcance é possível de ser realizada, bastando forçá-la a enxergar o valor daquele que ela inicialmente considerava erroneamente um stalker.

Quer mais? Ao julgar que está prestes a morrer, Jim se declara uma última vez a Aurora, dizendo que, se tivessem chegado ao planeta-colônia, ele “construiria uma casa” para ela.

Faltou apenas prometer comprar também um fogão, uma geladeira e uma tevê a cores. Afinal, ela precisa ver a novela das oito, não é mesmo?

6 de Janeiro de 2017

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
1.0
★☆☆☆☆

Um faz-de-conta sexista e perturbador em seus aspectos morais.

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Avaliações dos Usuários

Karla Lopez
Karla Lopez30 de ago. de 2017

Eu adorei o filme!! Lembro dos seus papeis iniciais, em comparação com os seus filmes atuais, e vejo muita evolução, mostra personagens com maior seguridade e que enchem de emoções ao expectador. Desfrutei muito sua atuação neste filme: http://br.hbomax.tv/movie/WHL230591/Passageiros cuida todos os detalhes e como resultado é uma grande produção e muito bom elenco.

Patrícia Paiva
Patrícia Paiva 6 de mar. de 2017

Eu considero um filme com uma roupagem bonita, uma proposta que poderia vingar, caso discutisse de forma honesta, porém, uma junção de mediocridades para embalar um romance bem bizarro e de fato questionável na forma de machismo. Bom, eu penso que o fato de um homem se apaixonar(diga-se atrair) por uma mulher que viu dormindo e skaltear sua vida seria previsível naquela situação de solidão e condenação extrema; vejo que ali surgem nossos maiores conflitos psíquico e individuais, até mais que sociais, já que estes não estão sendo julgados por ninguém, a não ser por nós mesmos que somos uma emaranhado confuso de valores morais e éticos. Durante o filme, cheguei a pensar numa pessoa que tem uma doença incurável, que sabe que vai morrer em alguns anos, mas resolve transmitir a doença para alguém que achou atraente só para ter como companhia e digamos, não envergar sozinho. Tive asco. Mas, logo pensei que esta situação, embora análoga, não corresponde a mesma realidade de alguém condenado a viver sozinho para o resto da vida, enquanto outros dormem ao seu lado. No caos, onde há vida a esperança pulsa e ok, pulsam outras coisas também, então, num momento ou outro ele iria surtar. Concordo, o filme é recheado de machismos, a mulher foi coisificada, o moço cometeu uma atitude que ele sabe ser terrível e mesmo assim resolveu assumir as consequências. Eu achei a parte mais real na atitude da personagem Aurora com relação ao atentado que sofreu, quando ela pegou um objeto para matar Jim demonstrando o seu ódio. Não incentivo violência, só estou dizendo que isso sim seria plausível diante da situação e permaneceria por muito tempo dentro da personagem, mas, como todo filme ruim, depois, romanceou e sexualizou o que deveria ter sido uma discussão sobre todos esses dilemas dos personagens, apenas para pegar público e glorificar o herói macho, lindo e loiro do filme se redimindo e merecendo sua amada, ohhhh Não digo que numa situação daquelas, uma hora ou outra o perdão não viria, mas, problematizar a atitude do rapaz seria mais necessário, ao meu ver. Porque não acordou alguém da tripulação? Porque não skalteou outros passageiros para encontrar um que tentasse, ao menos tentasse junto a ele resolver algo? Ops, mas olhou pra carinha e pro corpitcho da Lawrence e BINGO! O fato de ter "escolhido" uma mulher atraente para ser seu par e condená-la a quase morte também diz muito. Crítica muito boa, mas eu ainda estou digerindo esse filme fraco e tudo que escrevi aqui foi apenas uma primeira impressão.

Thiago Andrade
Thiago Andrade11 de fev. de 2017

Pablo, acho que o filme foi bastante competente em mostrar que acordar a moça era, sobretudo, antiético ao mostrar o debate interno que ele teve ao longo de um ano e hesitar em acordar alguém. Acho que você não abordou o que teria sido um desfecho mais sensato. Acordar várias pessoas e tentar encontrar uma solução para todos dormirem novamente? Ele poderia fazer a nave voltar à Terra, apostando que teria 90 anos ao chegar e alguma vida para viver, enquanto todos os outros poderiam ser reenviados ao planeta, talvez. Contudo ainda nesse sentido, acordar apenas uma pessoa para ajuda-lo, ainda que não para fazer companhia, não parece algo forçado no filme. Ainda assim, o instinto de acordar alguém que ele achou tão encantadora nos contos que ele leu também não foi antinatural, ainda que extremamente antiético ao potencialmente estragar a vida dela. Se a nave colidisse com mais meteoros e todos morressem, aqueles momentos a mais que ela teve acordada teriam sido positivos? Acho que tem muito a se considerar em vez de criticar a mulher sendo um objeto do filme. Se fosse o contrário, e uma mulher, sendo um atriz atraente ou não, procurando companhia depois de "resolver" um debate existencial de ter companhia ou conseguir ajuda, não teríamos o machismo em questão. Se puder, dá uma palavrinha. Abs.

Camila Guerra
Camila Guerra 31 de jan. de 2017

Meu comentário contém SPOILERS. Uma das cenas que me deixou um gosto amargo, além das já citadas, foi quando o personagem do Gus, já moro, decide dar a pulseira dele para o Jim e não para a Autora. Ele já sabia o que o Jim fez e mesmo assim confiou a ele esse recurso. Ou seja, mesmo quando um homem comete um erro (taí uma expressão leve para descrever o que ele fez), merece mais confiança que uma mulher. E essa camaradagem masculina já pôde ser vista antes quando a Aurora conversa com o Gus sobre o que o Jim fez e o Gus não dá muita importância. Ainda bem que a sua crítica trouxe essas questões à tona. Muito, muito ruim. Um desserviço às mulheres e aos homens que são - ou gostam de achar que são - "de bem".

charles
charles31 de jan. de 2017

Não vi o filme, ainda, mas fico extremamente incomodado com a "obrigação" que algumas pessoas impoe em outras para serem exatamente como desejam que o mundo inteiro seja... impressionante....e chato, as vezes.... a pluralidade da individualidade e a vasta possibilidade que o ser humano se permite, ao contrario de outras raças, é o que o difere e faz com que o encantamento entre estes seres seja algo quase mágico.... não queiram que a mesmice e a pasmaceira reine entre os humanos, tudo perderia a graça..... viva todas as possibilidades