Críticas por Pablo Villaça

Poster: Dominação
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/01/2017 02/12/2016
Distribuidora
PlayArte

 

 

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Dominação
Incarnate

Dominação

Dirigido por Brad Peyton. Roteiro de Ronnie Christensen. Com: Aaron Eckhart, Carice van Houten, Catalina Sandino Moreno, David Mazouz, Keir O’Donnell, Emily Jackson, Matt Nable, Emjay Anthony, Karolina Wydra e Tomas Arana.

Parte de mim admira Dominação. Muitos longas copiam descaradamente outras obras, mas é raro ver um projeto que não hesita em sugar os elementos mais conhecidos não de um, dois ou três, mas de quatro filmes – três dos quais se encontram entre os mais famosos da História do Cinema. É uma pena, portanto, que o talento do roteirista Ronnie Christensen não seja proporcional à sua cara-de-pau, já que ele não consegue sequer usar com competência o que copia.

Protagonizado por um Aaron Eckhart que provavelmente só aceitou o papel por estar devendo uma fortuna para a Máfia, Dominação acompanha o “Dr.” Ember, um especialista em exorcismos que, para realizar seu trabalho, entra nos mundos artificiais criados pelos demônios para manterem suas vítimas sob controle (Matrix), onde, então, usa um objeto conhecido destas para alertá-las de que não estão acordadas (A Origem), encerrando a possessão ao levá-las a despertar. É então que ele é convocado para ajudar uma criança possuída (O Exorcista) por um demônio que salta de um corpo a outro através do toque (Possuídos) e com o qual talvez tenha um relacionamento passado.

Se em teoria essa estranha mistura poderia até gerar um material interessante, na prática consegue apenas soar como uma pilha de plágios enterrada sob uma montanha de estupidez. Para gerar alguma tensão, por exemplo, o roteiro estabelece que Ember pode permanecer apenas oito minutos na mente das vítimas, já que um segundo a mais talvez provocasse sua morte – e se a precisão deste cálculo já soa arbitrária e absurda, mais tarde somos alertados de que o pequeno Cameron (Mazouz) tem apenas duas horas de vida, já que o demônio que o possui está “devorando sua energia”. Sim, os humanos de Dominação aparentemente vêm com um medidor de bateria que soa um alarme quando é hora de diminuir a intensidade da tela para que possam durar mais um pouco.

Por falar nisso, o diretor de fotografia Dana Gonzales parece tão preocupado em economizar luz ao longo da narrativa que acaba ultrapassando a fronteira das sombras duras e entrando no território da escuridão total, tornando impossível, para o espectador, compreender exatamente o que está em cena em diversos momentos da projeção. O excesso em sua abordagem, por sinal, encontra reflexo na trilha composta por Andrew Lockington, que já introduz acordes sinistros no primeiro segundo do longa, quando estamos vendo os prédios de uma cidade e Lindsey (van Houten) caminhando despreocupadamente com o filho Cameron em direção ao seu prédio – e o hábito do compositor de forçar uma determinada atmosfera antes mesmo que os demais elementos da narrativa comecem a fazê-lo é algo que se mantém ao longo de toda a obra, saltando de draminhas pontuais a outros supostamente mais alegres que nem sequer conseguem convencer o espectador de que tudo está (temporariamente) bem.

Mas o que esperar do diretor de Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore e Terremoto – A Falha de San Andreas? Entregando-se a todo tipo de convenção, Brad Peyton enfoca o herói encarando um complexo diagrama montado na parede e que ilustra sua busca pelo demônio responsável pela morte de sua família e, em outro instante, traz o sujeito bêbado enquanto a tevê ao fundo mostra imagens de um vídeo caseiro no qual brinca alegremente com a esposa e o filho (não perguntem quem estava segurando a câmera). Incapaz até mesmo de trazer alguma coerência para o péssimo roteiro, o cineasta chega a ressaltar suas falhas – e, assim, depois de Ember afirmar várias vezes que seu trabalho não envolve uma religião específica, Peyton inclui planos-detalhe que o exibem segurando um crucifixo e utilizando-o como arma contra o oponente. (O efeito visual que retrata o fogo provocado pelo amuleto é terrível como tudo que o acompanha.)

E se há filmes cujos buracos de lógica percebemos apenas ao sair do cinema, Dominação não é um deles, já que seus rombos são notados praticamente em tempo real: como, por exemplo, o Vaticano descobriu o caso de Cameron? E como conseguiu evitar que a polícia ou médicos se envolvessem – mesmo quando há vítimas fatais? Em vez de criar respostas plausíveis para esta questão, o roteiro prefere criar uma hilária terminologia que tenta trazer alguma verossimilhança para as imbecilidades que inventa – expressões, por exemplo, como “o mergulho” e “ela está se alimentando!”. Da mesma forma, o Dr. Ember (ele é “doutor” em quê, mesmo?) se recusa a dizer que faz exorcismos, explicando que o correto seria “despejo”, substituindo também o termo “demônio” por “entidade parasitária em transferência não corpórea”. Sim, tucanaram o Diabo.

Aliás, Dominação traz alguns diálogos que já merecem figurar entre os mais divertidos do ano (sei que estamos em janeiro): há, por exemplo, o momento no qual a enviada do Vaticano, Camilla (Moreno), afirma que “(a Igreja) mandou seus melhores exorcistas, mas todos falharam”; já em outro, alguém explica que “o que alguns chamam de ‘aura’ ou ‘alma’ é, na verdade, só um conjunto particular de íons”. Juro.

(É aqui que eu deveria incluir algumas palavras sobre o elenco, mas o que vocês esperam depois de tudo o que já descrevi? Acham realmente que há a chance de que mesmo atores competentes como Eckhart, van Houten e Moreno superem a natureza pífia do material com que trabalharam? Pois não superam: o primeiro limita sua composição à barba por fazer e ao cabelo comprido; a segunda, a um olhar de tristeza contínuo; e a terceira... a torcer para que nos lembremos de que como estava fantástica em Maria Cheia de Graça.)

Copiando O Exorcista até em seu clímax, Dominação é o tipo de filme que traz o vilão sorrindo cinicamente para o herói e dizendo “Let the games begin” – uma fala tão batida que se torna um alívio quando o garotinho começa a conversar usando uma língua que suponho ser jabbathehuttês. Um alívio que dura pouco, já que logo o diretor inclui uma legenda para que possamos compreender que os diálogos são ruins também no idioma original do capeta.

Porque se este é o nível das conversas mantidas por estes seres, fica fácil entender por que o portal do Inferno de Dante trazia o alerta “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”. Um aviso que deveria ser colocado nas bilheterias dos cinemas que estiverem exibindo este desastre.

04 de Janeiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.