Cinema em Streaming Episódio #19: Stranger Things (2016)

Um grupo de crianças montadas em suas bicicletas enquanto fogem de agentes do governo. De carona naquela conduzida pelo protagonista, uma criatura com poderes sobrenaturais que, em certo momento, os utilizará para ajudar os novos amigos. Um segundo antes do clímax da sequência, vários cortes rápidos levam a quadros que se fecham cada vez mais no rosto de um dos personagens.

Eu poderia estar descrevendo E.T., mas estou falando da série Stranger Things, produção original da Netflix.

Mas as coincidências entre as duas passagens têm um motivo: se há um objetivo maior por trás da narrativa desta produção criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer, este reside na nostalgia. Mergulhado na iconografia da década de 80 (no início da qual a história se passa), o projeto demonstra que J.J. Abrams não é o único realizador contemporâneo mais do que disposto a colocar na tela a admiração nutrida por Steven Spielberg e pelas ficções científicas lançadas no período. Assim, em alguns momentos a trilha praticamente cita os cinco acordes-chave de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, enquanto em outros é E.T. que surge como referência óbvia - não só na sequência já citada acima, mas também no barracão de madeira atrás da casa da família encabeçada por Winona Ryder.

Aliás, parafraseando Jerry Maguire, eu poderia perfeitamente dizer aos irmãos Duffer: you had me at Winona. Atriz talentosa que há muito merecia ter sua carreira revivida, Ryder aqui pode encarnar um tipo radicalmente diferente daqueles com os quais nos habituamos a associá-la: uma mãe solteira, com poucos recursos financeiros, que trabalha loucamente para sustentar os dois filhos - e quando seu caçula desaparece misteriosamente, ela evoca com intensidade o desespero quase maníaco da pobre mulher. 

Todo o elenco merece créditos, vale apontar: os atores-mirins se mostram carismáticos e expressivos (com destaque para o divertido Gaten Matarazzo, que vive Dustin, e para Millie Bobby Brown, que abraça a natureza trágica da jovem Onze); Matthew Modine se entrega com gosto à função de vilão (com direito a vasta cabeleira branca) e David Harbour finalmente ganha um papel no qual pode se mostrar heroico, já que normalmente interpreta tipos fracos, patéticos ou mesmo sem caráter.

Já a trama basicamente recicla todos os clichês imagináveis: há a conspiração governamental; uma personagem com poderes paranormais que, claro, sempre fazem seu nariz sangrar; os heróis subestimados por todos e maltratados na escola; o adolescente visto como "estranho" pelos pares e que ama secretamente uma garota popular; o xerife alcóolatra que não se recuperou de uma perda pessoal trágica (e seus auxiliares que servem de alívio cômico); e assim por diante.

Por outro lado, não é difícil perceber que estes elementos, por mais batidos que sejam, são usados de forma intencional pelos irmãos Duffer, que empregam esta salada de frutas como desculpa para brincar de Spielberg, chegando até mesmo a incluir a figura do pai ausente característica dos trabalhos do cineasta e assinaturas visuais como a fotografia que frequentemente traz os rostos dos personagens envoltos pela escuridão - com exceção de um facho de luz estrategicamente situado sobre o terço superior da face, expondo seus olhares encantados/surpresos/assustados. Além disso, o plano clássico de Contatos Imediatos no qual vemos um garotinho de costas para a câmera e diante de uma visão de outro mundo é recriado aqui, mas agora com uma menininha diante de uma parede que também revela algo.

Inspirado pelo Cinema hollywoodiano da década de 80 também no uso da trilha eletrônica, no título em neon que voa na direção do espectador e nas homenagens a produções como Viagens AlucinantesO Enigma de Outro Mundo Os GooniesStranger Things tampouco esconde a influência de Stephen King (de O Nevoeiro a O Iluminado) - e eu não teria ficado espantado caso o nome da cidadezinha que abriga a história fosse Castle Rock.

Dito isso, a nostalgia não consegue solucionar os problemas de ritmo da série, que tem um início promissor, mas acaba parecendo se estender demais a partir da segunda metade - e o sexto episódio, em particular, é praticamente todo composto pela mais pura encheção de linguiça (este deveria ser um termo técnico oficial da teoria narrativa). Na realidade, com dois episódios a menos, Stranger Things provavemente se tornaria uma obra bem mais eficaz.

Por outro lado, sempre que a narrativa perdia o ritmo, eu me animava ao lembrar que logo Winona Ryder surgiria em cena mais uma vez. 

Ah, WInona.

Clique na imagem abaixo para assistir.

Um grande abraço e bons filmes!

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.