Colunas Episódio #26: Amanda Knox (2016)

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Embora eu seja fã incondicional de documentários, normalmente não recomendaria dois deles em sequência, já que busco variar os gêneros e estilos dos filmes que indico aqui na coluna. Porém, Amanda Knox, que foi produzido pela Netflix e lançado nesta sexta-feira, certamente é um título que despertará o interesse daqueles que, nos últimos meses, se viram capturados por The JinxMaking a Murderer e O.J.: Made in America.

Ainda que não esteja no mesmo nível dos anteriores - até por contar com uma duração bem menor e, portanto, não poder desenvolver com detalhes sua narrativa -, Amanda Knox é um registro bastante interessante sobre o assassinato da britânica Meredith Kercher, assassinada em 2007 na casa que dividia com a personagem-título na cidade italiana de Perúgia. Depois de chamar a polícia ao descobrir traços de sangue no banheiro e perceber que a porta do quarto de Kercher estava trancada, Knox acabou sendo presa ao lado do namorado (de apenas uma semana) Rafaelle Sollecito.

Entrevistando Knox, Sollecito, o promotor Giuliano Mignini e o jornalista inglês Nick Pisa, os diretores Rod Blackhurst e Brian McGinn nem precisam se esforçar muito para que estes dois últimos exponham as fragilidades de seu caráter: enquanto Pisa é o retrato do repórter sensacionalista que não enxerga o estrago que faz (ou não se importa) com suas matérias repletas de dados incorretos ("O que eles esperam que eu faça? Que confirme a informação com outra pessoa antes de publicar?", ele diz em certo ponto, sem perceber que acaba de descrever a função do jornalista), Mignini é um promotor no mínimo incompetente, deixando-se levar também pelo próprio machismo ao decidir transformar Knox em sua presa.

Aliás, se há algo que fica claro ao longo da produção é como seguimos atrasados em nossa percepção sobre a sexualidade feminina: não demora muito até que Knox seja chamada de "devoradora de homens" (apenas por já ter tido sete parceiros) e passe a ser retratada por Mignini e pela mídia como uma "manipuladora" que usa o sexo como arma. E ouvir o promotor, com suas fantasias assumidas de Sherlock Holmes, chegar a "conclusões" sem qualquer base factual, apelando para uma psicologia barata e incorreta, é algo que inspiraria o riso caso não tivesse consequências tão graves.

Mesmo não contando com o apelo do "mistério" que prevalecia em Making a Murderer, com a personalidade assustadora de Robert Durst em The Jinx ou com o resgate de um fenômeno cultural e sociológico como O.J. Made in AmericaAmanda Knox é um documentário bem construído sobre um caso com elementos suficientemente instigantes para render uma boa narrativa.

Clique na imagem abaixo para assistir.

Um grande abraço e bons filmes!

Outras edições da coluna:

Episódio #25: Audrie & Daisy
Episódio #24: A Ponta de um Crime
Episódio #23: Cartel Land
Episódio #22: ARQ
Episódio #21: Sete Homens e um Destino
Episódio #20: Alan Partridge: Alpha Papa
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Episódio #12: O Barco: Inferno no Mar
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Episódio #09: In the Loop
Episódio #08: Life Itself
Episódio #07: À Procura de Elly
Episódio #06: O Guarda
Episódio #05: Triângulo do Medo
Episódio #04: Tempo de Despertar
Episódio #03: A Trapaça
Episódio #02: Tyke: Elephant Outlaw
Episódio Piloto: 21 longas para começar.

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.